Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Pré-candidato do Novo, Luiz Felipe d’Avila afirma ter ‘nojo do populismo’

Cientista político defende liberalismo econômico e privatizações durante evento do partido em Brasília

Felipe Frazão e Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 18h15
Atualizado 04 de novembro de 2021 | 10h41

BRASÍLIA – Lançado nesta quarta-feira, 3, pelo partido Novo como pré-candidato à Presidência, o cientista político Luiz Felipe d’Avila discursou contra o populismo, defendeu o liberalismo econômico e privatizações e pregou a responsabilidade fiscal. “Nós vamos vender a Petrobras no primeiro dia de governo. É um absurdo ter uma empresa que vem sendo usada como fonte de corrupção pelo populismo de esquerda e como fonte de manipulação de preço pelo populismo de direita. Vamos pagar a conta”, disse ele.

O lançamento da pré-candidatura do cientista político – que se apresentou apenas como “Felipe d’Avila” – ocorreu no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. “Eu só vi uma vez o Ulysses perder a compostura e deixar sua indignação aflorar. Foi na promulgação da Constituição de 1988. Ele levantou a Constituição e disse: ‘Eu tenho nojo da ditadura’. Pois eu tenho nojo desse populismo que faz com que a miséria continue, que vira as costas para o povo para defender o corporativismo, o clientelismo e o patrimonialismo”, afirmou.

Segundo d’Avila, “não adianta culpar ICMS ou governador” pelo aumento de preços. “É por incompetência de um governo que não fez reformas e não privatizou.” Sem citar Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, o pré-candidato declarou ainda que governos populistas de esquerda arruinaram a moral e a ética e que o populismo de direita agravou a situação. “O populismo de direita e de esquerda vai perpetuar o populismo, portanto, a miséria, a pobreza, a corrupção e o mau funcionamento das instituições.”

Formado em ciência política pela Universidade Americana em Paris e com mestrado em Administração Pública pela Harvard Kennedy School, d’Avila fundou o Centro de Lideranças Públicas (CLP), grupo interessado em promover boas práticas de gestão. Ele também criou e é publisher do VirtuNews, plataforma de jornalismo de dados que fornece informações sobre política e economia. Ex-filiado ao PSDB, ele nunca exerceu um cargo eletivo, mas concorreu em 2018 no processo de prévias tucanas, vencido por João Doria, para escolher o candidato do partido para governador de São Paulo.

O cientista político venceu na última sexta-feira, 29, o processo seletivo do partido para definir o pré-candidato a presidente. Ele é apoiado pela maioria da legenda, em uma fase de crise interna que culminou com a saída de João Amoêdo da presidência do Novo e também da desistência do empresário de ser novamente candidato a presidente da República. Amoêdo foi o candidato em 2018 a presidente pelo partido e um dos fundadores da sigla, mas acumulou insatisfações e acusações de querer impor a vontade na sigla. Ele prega oposição ao governo Jair Bolsonaro, o que contraria a maioria dos eleitos pelo partido.

O lançamento de d’Avila ocorreu num auditório para cerca de 60 pessoas, entre filiados, dirigentes e parlamentares. A cerimônia chegou a ser interrompida por uma queda de energia – os convidados disseram que o apagão era um sinal da “velha política”.

O Novo passa por um momento de perda de filiados e do encolhimento da militância. Como mostrou o Estadão, mais da metade dos brasileiros que se filiaram ao partido já se desfiliaram. Até setembro, haviam sido registradas 35,5 mil desfiliações, mais do que os 33,8 mil regularmente filiados.

A desidratação reflete uma cisão interna entre alas que se posicionam pró e contra o governo Jair Bolsonaro. Na Câmara, os deputados se dizem independentes, mas apoiam majoritariamente o governo, não apenas em pautas econômicas. A fidelidade supera 90%, assim registrado em partidos do Centrão.

O pré-candidato à Presidência disse que a bancada sabe discernir entre a agenda partidária e a agenda de Estado, “apesar do governo”. Sem citar Bolsonaro, afirmou que “a palavra de ordem do dia é fome” e criticou o avanço do “fanatismo e intolerância” no vácuo da cultura.

Questionado sobre as adversidades internas, ele afirmou que o partido “já está unido” em prol de sua candidatura, mas admitiu que participará de conversas com outros candidatos da terceira via.

Notabilizado por sua proximidade com o Palácio do Planalto, o mais importante político do partido, o governador Romeu Zema, de Minas Gerais, não compareceu. Zema mandou um representante do governo estadual e enviou um recado por vídeo a d’Avila – disse estar à disposição do pré-candidato.

“Tem meu total apoio e meu entusiasmo. O Brasil precisa de pessoas preparadas e que tenham histórico de realizações”, afirmou Zema. Durante sua apresentação, d’Avila retribuiu com elogios a Zema e à bancada de deputados, presente na cerimônia de lançamento da pré-candidatura.

O presidente nacional do partido, Eduardo Ribeiro, disse que o lançamento deve ser levado a sério: “Não estamos numa aventura ou simplesmente numa brincadeira”. Ele afirmou que o Novo tenta ser a terceira via e romper a polarização.

O presidenciável do Novo defendeu a abertura econômica, a privatização de todas as estatais e afirmou que o mercado deve ser colocado na sala para ajudar a solucionar problemas como as mudanças climáticas. Ele fez uma ode ao empreendedorismo e disse que pretende reforçar o ensino técnico profissionalizante.

Além de abandonar o prenome Luiz, Felipe d’Avila apresentou-se de terno cinza, sem gravata, com fala pausada e menções a Santo Agostinho, em estilo similar ao do ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), um dos que estimulou seu ingresso na vida partidária e a disputa de cargos eletivos.

No evento, o pré-candidato do Novo disse que as famílias brasileiras estão divididas, inclusive a dele mesmo (o irmão Frederico d’Avila, deputado estadual em SP pelo PSL é apoiador de Bolsonaro) e disse que sempre cultivou o diálogo com todas as matizes políticas. “Tem gente boa de todos os partidos em todos os Estados brasileiros”, afirmou o pré-candidato do Novo.

Porém, ele disse que o diálogo com os demais pré-candidatos que disputam um eleitorado avesso a Lula e a Bolsonaro a deve ocorrer somente no ano que vem, quando todos tiverem apresentado suas propostas de governo. E descartou uma aproximação com ambos. Sem declinar a quem se referia, disse que não vai dialogar com que não deseja fazer a coisa certa: “Não conversamos com pilantras”.

Terceira Via

O Novo é um dos partidos que busca uma unidade nas eleições de 2022 e querem ser uma “terceira via” entre Bolsonaro e Lula. Neste mês de novembro, além do Novo, diversos outros partidos fizeram ou planejam fazer movimentos na direção de terem pré-candidaturas à Presidência. O Podemos vai filiar no próximo dia 10 o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro. O PSD trouxe o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), para os seus quadros. O MDB vai lançar a pré-candidatura da senadora Simone Tebet (MS).

Já o PSDB vai escolher no dia 21 deste mês qual nome apresentará para a disputa do ano que vem. Nas prévias do partido, os governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP) são os favoritos e o ex-prefeito de Manaus (AM) Arthur Virgílio corre por fora.

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