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Eliane Cantanhêde
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Prazo de validade

Reforma ministerial está para governos em crise assim como reforma política está para Congresso em crise: é uma panaceia para ganhar tempo e fingir que alguma coisa vai mudar para manter tudo como está - mesmo que esteja afundando. Há, porém, um outro lado na troca de ministros em momentos graves: a sensação de que estão pulando de uma canoa furada ou de um Titanic que vai a pique.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

Desde dezembro, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ensaia sua saída do governo e reclama com amigos e com a própria presidente Dilma Rousseff que está com o “prazo de validade” vencido. Ele joga isso ao vento, porém, no pior momento. Só aumenta a tempestade.

Um ministro da Justiça não é um ministro qualquer. E Cardozo não é só um ministro da Justiça, é um dos solitários conselheiros a resistir bravamente a uma presidente que não sabe ouvir e não suporta conselhos. Com Aloizio Mercadante e Edinho Silva na linha de fogo do delator Ricardo Pessoa e Cardozo na linha de fogo da Executiva do PT, quem é que sobra?

Alguém poderia responder: Jaques Wagner, da Defesa. Esse carioca-baiano tirou nota 10 em política ao virar um lulista importante no governo Dilma, que encheu o Planalto de não-lulistas. Com tal esperteza, Wagner está no governo, mas dividido entre terra, mar e ar, tão distante da crise quanto possível. Alguém tem visto o ministro batendo continência para Dilma nas reuniões de emergência sobre a crise?

O ex-presidente Lula gosta de Jaques Wagner, mas não suporta Mercadante nem Cardozo e trabalha contra os dois desde os primeiros minutos do segundo mandato. Com o chefe da Casa Civil, o ataque de Lula deu certo. Lula bateu, Mercadante se recolheu aos bastidores e nunca mais se ouviu um pio sobre sua suposta ambição de disputar a Presidência. Com o ministro da Justiça, o ataque pode dar, pode não dar certo. Os movimentos de Cardozo têm duas interpretações. Ele alardeia que está para sair porque está mesmo ou, na direção oposta, para que o PT acorde para a gravidade de sua saída e para que Dilma reforce sua posição?

Para Cardozo, jogar a toalha seria um alívio. Ele poderia concluir o doutorado em Salamanca e encher as burras como advogado, com a consciência dos justos, desses que nem tentam nem têm como limitar ou manipular as investigações da Polícia Federal, e mais: que, pelo se saiba, passam pelo poder sem ceder à tentação de mensalões e sem desfrutar do assalto à Petrobras.

Horizonte político ele já não tem mesmo. Não concorreu a nada nas últimas eleições, está num governo com futuro sombrio, não tem espaço em quaisquer que sejam os planos de Lula e só iria para um partido de oposição se quisesse jogar sua reputação para o alto, porque lealdade na desgraça não é opção, é obrigação. A não ser que, como é bem possível em momentos de grandes crises, haja uma rearrumação das forças políticas. Isso não está descartado.

E para Dilma? Não importa por que e para que, a saída de Cardozo, numa hora dessas, seria a desgraça dentro da desgraça. Acentuaria de forma dramática a sua fragilidade política, e até pessoal, e elevaria ao máximo a desconfiança de que ela não tem capacidade para conduzir o governo e perdeu o controle da situação.

Pior do que discutir a queda do ministro da Justiça seria discutir a queda do ministro da Justiça simultaneamente à renúncia de Michel Temer, vice-presidente da República, da estratégica e vital coordenação política de um governo que não sabe fazer política. Sem contar que o peso da crise e o gelo do PT estão fazendo mal à saúde e tirando oxigênio do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que faltou ao anúncio dos cortes no Orçamento alegando uma “gripe forte” e acaba de ser internado com suspeita de embolia pulmonar. 

Perder o ministro da Justiça já é grave. Perder o ministro da Justiça e o coordenador político é dramático. E perder o ministro da Justiça, o coordenador político e o cérebro da economia pode ser fatal.

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