Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Postura de Witzel em processo de impeachment reforça irritação de deputados

Tentativa de suspender o processo na Justiça e discurso focado no passado de juiz são vistos como aversão à política e desagradam parlamentares

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 21h11

RIO - Em meio ao processo de impeachment, o governo de Wilson Witzel (PSC) não tem um líder na Assembleia Legislativa - tampouco um interlocutor que faça a ligação entre o Palácio Guanabara e os deputados. Para os parlamentares do Rio, o cenário é exemplar da postura do governador mesmo diante da crise. Em vez de buscar fazer política, ele só teria intensificado um perfil criticado há tempos na Alerj: o de aversão ao parlamento.

  A estratégia de Witzel diante da possibilidade de ser afastado do cargo tem sido a de tentar frear o processo via Judiciário. Nesta quinta-feira, 16, contudo, um desembargador do Rio negou o pedido apresentado pela defesa, que questionava diversos pontos tanto das acusações em si quanto do rito do impeachment. Agora, os advogados buscarão amparo no Órgão Especial do Tribunal de Justiça e em instâncias superiores. O governador é suspeito de estar envolvido nos escândalos de corrupção na Saúde em plena pandemia.

Witzel afirma ser inocente e alega que há gente tentando fazer ilações contra ele. Disse nesta quarta-feira, em vídeo, que as acusações são “levianas” e feitas por pessoas “que não querem ver um juiz governar o Rio de Janeiro”. Essa postura de se apresentar sempre como juiz, não como governador, incomoda os deputados. Eles a interpretam como soberba e inaptidão para a política.

Ninguém quer assumir a liderança do governo na Alerj, função que está vaga desde o dia 29 de maio. Além disso, já não há um interlocutor específico que tente reverter o prejuízo na Casa. O vice-governador, Cláudio Castro, o secretário de Casa Civil, Cleiton Rodrigues, e até o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, chegaram a ser enviados ao Palácio Tiradentes para conversar com os deputados, mas não houve avanços.

Everaldo, que exerce influência no governo por meio de indicações para órgãos importantes, esteve numa visita à Alerj que funcionaria para apaziguar os ânimos entre os Poderes. O governador a solicitou por meio do vice, mas cometeu uma gafe ao agradecer ao presidente da Assembleia, André Ceciliano (PT), pelo “convite”. O petista respondeu que não havia feito um convite, e sim, a pedido de Cláudio Castro, aberto as portas para o diálogo.

 “Pode vir quantas vezes quiser”, disse.

Um deputado ouvido pelo Estadão sob condição de anonimato diz que Witzel "já perdeu completamente a mão".

"A situação política está muito grave, não tem ponte nenhuma de diálogo”, avalia o parlamentar. Ele não duvida que todos os 25 parlamentares da comissão especial do impeachment sejam favoráveis ao afastamento do governador. A defesa tem até o dia 30 deste mês para apresentar seus argumentos. A tendência é de que o caso seja levado ao plenário em agosto.

Antes escalado para conversar com a Assembleia, Cláudio Castro tem mantido discrição. Ele é orientado por aliados a não se associar exageradamente ao governador, a fim de não ficar contaminado caso o impeachment seja aprovado. É ele, afinal, quem assumirá o cargo, se Witzel for afastado.

Por outro lado, aliados de Witzel afirmam que o governador, se cair, não vai deixar o Palácio Guanabara de forma pacífica. A tendência é que ele tente revelar fatos que possam comprometer tanto o próprio vice, que controla órgãos como o poderoso Departamento de Trânsito (Detran), quanto o presidente da Alerj.

Enquanto isso, a defesa do governador no processo de impeachment afirma que ainda vai tentar suspender a tramitação pelas vias judiciais. Após a decisão liminar desfavorável, a solução agora será pedir para o caso ser julgado pelo colegiado do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, composto por 25 desembargadores. Se também for derrotado lá, recorrerá às instâncias superiores, em Brasília.

O ex-secretário de Saúde Edmar Santos foi preso na semana passada pelo MP do Rio, o que só colaborou para a degradação política de Witzel. Sua detenção causou uma disputa entre a promotoria fluminense e o Ministério Público Federal, a quem cabe investigar o governador. Nota publicada na revista Veja nesta semana afirma que Edmar havia feito um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República.

Na delação, Santos entregaria provas do envolvimento de Witzel no suposto esquema. Por isso a PGR pediu a soltura do ex-secretário, o que vai contra o MP local. Os investigadores têm em mãos, além disso, três celulares e três computadores do governador apreendidos em maio, quando ele foi alvo de mandado de busca e apreensão.

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