‘Posso cair, mas não revelo nomes dos clientes’

Em mais de uma ocasião, Palocci avisou a interlocutores ouvidos pelo ‘Estado’ que não quebraria a confidencialidade dos contratos

Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2011 | 23h12

BRASÍLIA - Na UTI política há 20 dias, o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, afirma que não vai exibir os clientes da empresa de consultoria Projeto, mantida por ele de 2006 a 2010, mesmo que o silêncio lhe custe o cargo. "Eu posso até cair, mas não revelo os nomes dos clientes", insistiu Palocci, em mais de uma ocasião, nos últimos dias.

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Na entrevista desta sexta-feira, 3, ao Jornal Nacional, da TV Globo, o chefe da Casa Civil bateu na mesma tecla, sob o argumento de que há cláusulas de confidencialidade a cumprir. Auxiliares da presidente Dilma Rousseff avaliam, porém, que o sigilo mantido por Palocci pode ter consequências para seu destino dentro do governo.

 

A estratégia adotada pelo chefe da Casa Civil até aqui - adiando as explicações o máximo possível com o objetivo de desidratar as denúncias de enriquecimento ilícito e tráfico de influência - só fez com que ele perdesse capital político. Pior: Palocci conseguiu irritar Dilma.

 

"Nós precisamos sair dessa agenda de crise. Você precisa se pronunciar", disse a presidente ao seu principal ministro, na quarta-feira à noite. Algumas horas antes, naquele mesmo dia, Dilma já havia proibido Palocci de ir ao almoço com o vice-presidente Michel Temer e senadores do PMDB.

 

Com o chefe da Casa Civil sangrando, ela teve receio de que os aliados do PMDB gravassem, com seus celulares, algum comentário reservado para "vazar" à imprensa. Preparado para se reaproximar dos peemedebistas - após o áspero bate-boca que tivera por telefone com Temer, na semana anterior -, Palocci caiu em depressão quando a presidente vetou sua presença no almoço.

 

A partir daquele dia, a situação de Palocci só piorou. Vários sinais foram dados pelo governo de que ele estava nas cordas. Para completar, a cúpula do PT o abandonou à própria sorte.

 

Roteiro. O ministro queria falar à TV Globo somente após a manifestação da Procuradoria-Geral da República, que está analisando as denúncias contra ele. Pelo roteiro traçado anteriormente, o Ministério Público Federal lhe daria um atestado de "nada consta" e aí, então, ele concederia uma entrevista.

 

Tudo, porém, foi antecipado pela pressão política, aliada às cobranças de Dilma. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou a desembarcar em Brasília para comandar a reação à crise e a defesa de Palocci, disse ao ministro que ele deveria apressar as explicações públicas.

 

Num movimento de esperteza política, o PMDB começou a defender Palocci, de olho em cargos federais. Na avaliação de dirigentes do partido de Temer, é melhor um Palocci fraco - que atenda os peemedebistas - a um chefe da Casa Civil superpoderoso e encastelado.

 

Em 2006, quando ocupava o Ministério da Fazenda, Palocci caiu no rastro do escândalo da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, revelado pelo Estado. Hoje, sua sobrevivência depende dos desdobramentos de uma crise provocada por negócios privados de muitos milhões.

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