Dida Sampaio/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva sobre o coronavírus em Brasília Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro já prepara a substituição de Mandetta; veja lista de cotados

Consultas do presidente a outros nomes para pasta levaram ministro a avisar sua equipe que será demitido

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 16h21
Atualizado 16 de abril de 2020 | 13h49

BRASÍLIA –  O presidente Jair Bolsonaro começou a procurar nomes que possam substituir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, com quem tem divergido publicamente sobre a estratégia de combate ao novo coronavírus. As consultas chegaram ao conhecimento de Mandetta, que, diante da situação constrangedora, avisou a equipe que será demitido.

Bolsonaro receberá nesta quinta-feira, 16, no Palácio do Planalto o oncologista Nelson Teich, um dos cotados para assumir o lugar de Mandetta. Consultor da campanha de Bolsonaro, em 2018, Teich tem apoio da classe médica e mantém boa relação com empresários do setor da saúde. O argumento pró-Teich é o de que ele trará dados para destravar debates “politizados” sobre a covid-19. O Estado não conseguiu contato com o oncologista.

Integrantes da área de saúde afirmam que a ideia não é ceder completamente a argumentos sobre o uso ampliado da cloroquina no tratamento da doença nem à abertura total do comércio – duas questões que opõem Bolsonaro e Mandetta.

Ao conversar com apoiadores em frente ao Alvorada, nesta quata-feira, Bolsonaro afirmou que resolverá agora a “questão da saúde” para “tocar barco”. Questionado se dispensará Mandetta, não respondeu. “Pessoal, estou fazendo a minha parte”, disse. Horas depois, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, entregou o cargo.

Nem Mandetta nem o secretário executivo da pasta, João Gabbardo, aceitaram, porém, o pedido. “Entramos no ministério juntos, estamos no ministério juntos e sairemos daqui juntos”, disse Mandetta. Oliveira é um dos principais formuladores da estratégia adotada para combater a pandemia, com isolamento social para evitar a propagação do vírus. Bolsonaro sempre foi contra esse modelo, sob o argumento de que o “fechamento” do Brasil levará ao desemprego em massa.

O ministro admitiu haver “descompasso” entre as diretrizes da pasta e a posição de Bolsonaro. “São visões diferentes do mesmo problema. Se tivesse uma visão única seria um problema muito fácil de solucionar, mas não é.” Para ele, não se pode recomendar uso generalizado da cloroquina com base em “achismos”.

A expectativa da demissão de Mandetta alimentou uma corrida entre aliados de Bolsonaro para a escolha de quem deverá comandar a Saúde neste momento de calamidade pública. Bolsonaristas não querem um político na pasta.

Mandetta descobriu que seria demitido após receber ligações de colegas médicos sondados para o cargo. Foi então que ele montou uma operação para anunciar sua saída a subordinados e evitar mais desgaste. “Só Deus para entender o que querem fazer”, escreveu Oliveira na carta de despedida enviada aos colegas de ministério, após conversa com o ministro.

Uma ala do Planalto e do Congresso acha que uma solução temporária seria deixar no comando do ministério o atual “número 2” da pasta, o secretário executivo João Gabbardo. Ele foi secretário de saúde na gestão do deputado federal Osmar Terra (MDB) na prefeitura de Santa Rosa (RS), na década de 1990. O nome de Gabbardo, porém, já foi apontado como ligado à esquerda pelo próprio Bolsonaro, ainda que o “número 2” do ministério tenha feito campanha nas eleições de 2018 ao presidente.

O presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein, Cláudio Lottemberg, também foi citado para o cargo. Apesar de filiado ao DEM, Lottemberg preside o Lide Saúde, grupo ligado ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), desafeto de Bolsonaro.

Defensora do uso da hidroxicloroquina, a oncologista Nise Yamaguchi também teria perdido força por ter pouco apoio da classe médica. A diretora de Ciência e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Ludhmila Hajjar, foi mencionada como possível substituta do ministro. “Não recebi convite, não fui sondada. Sigo tocando minha vida normalmente”, disse ela ao Estado.

Os nomes do deputado Osmar Terra (MDB-RS), da oncologista Nise Yamaguchi e do presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, perderam força no Planalto. A leitura é que a escolha de um destes não seria bem aceita no Congresso e entre entidades médicas, por causa da mudança radical de discurso que eles levariam ao ministério.

Embora a popularidade de Mandetta seja maior do que a de Bolsonaro, como indicam pesquisas, sua situação no governo é considerada insustentável desde que elevou o tom do confronto com o presidente. Perdeu, com isso, o apoio do núcleo militar do governo. No Planalto, interlocutores de Bolsonaro dizem que o ministro, agora, quer posar de “vítima” e não têm dúvida de que Doria vai levá-lo para a equipe, com o objetivo de provocar Bolsonaro.

Com a saída de Mandetta dada como certa, o governo teme que uma debandada nos cargos de segundo escalão leve à paralisia do ministério em meio à pandemia. A preocupação quanto a um possível desmonte da pasta vem do 4.º andar do Planalto, onde ficam os ministros militares. Eles estão mapeando que integrantes de escalões inferiores não são ligados umbilicalmente a Mandetta e poderiam continuar no governo caso se confirme a troca na Saúde. 

Mandetta se reuniu nesta quarta-feira, 15, à tarde, em clima de despedida, com deputados que integram a comissão sobre o coronavírus. Visivelmente abatido, disse que teria pouco tempo à frente da pasta. “Me desculpem por qualquer coisa aí”, afirmou. / MATEUS VARGAS, JUSSARA SOARES, RICARDO GALHARDO, CAMILA TURTELLI, JULIA LINDNER e ANDRÉ BORGES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaro marca reunião com oncologista cotado para substituir Mandetta

Nelson Teich será recebido quinta-feira, 16 no Palácio do Planalto; ele atuou como consultor da área de saúde na campanha eleitoral do presidente e tem apoio da Associação Médica Brasileira

Jussara Soares e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 21h19

O presidente Jair Bolsonaro começa a receber, nesta quinta-feira, 16, no Palácio do Planalto cotados para substituir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O primeiro da lista é o oncologista Nelson Teich, que atuou na campanha eleitoral do presidente e tem apoio da classe médica. A decisão sobre o novo titular da Saúde, no entanto, ainda não está tomada, afirmam interlocutores do governo.

Devem participar da conversa com o médico os ministros Walter Braga Netto, da Casa Civil, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo.Teich atuou como consultor informal da área de saúde na campanha eleitoral de Bolsonaro, em 2018. À época, a aproximação ocorreu por meio do atual ministro da Economia, Paulo Guedes. Na transição do governo, Teich foi cotado para comandar a Saúde, mas perdeu a vaga para Mandetta, que havia sido colega de Bolsonaro na Câmara de Deputados e tinha o apoio do governador eleito de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM-GO), agora seu ex-aliado, e de Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que foi chefe da Casa Civil e agora é ministro da Cidadania.

O oncologista tem o apoio da Associação Médica Brasileira (AMB), que referendou a indicação ao presidente, e possui boa relação com empresário do setor de saúde.

O argumento pró-Teich de parte da classe médica é o de que ele trará dados para destravar debates hoje “politizados” sobre o enfrentamento da covid-19. Integrantes do setor de saúde afirmam que a ideia não é ceder completamente a argumentos sobre uso ampliado da cloroquina ou de isolamento vertical (apenas para idosos ou pessoas em situação de risco), por exemplo. Dizem, porém, que há exageros na posição atual do ministério.

A possível demissão de Mandetta provocou uma corrida entre aliados de Bolsonaro para indicar o sucessor no comando da Saúde.   Um dos nomes cotados é o da diretora Ciência e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Ludhmila Hajjar. A profissional tem o apoio do médico Antonio Luiz Macedo, cirurgião geral que acompanha o presidente desde que ele foi atingido por uma faca em ato de campanha, sem setembro de 2018. Questionada pelo Estado, a cardiologista negou convite do presidente. “Não fui convidada, não fui sondada. Sigo trabalhando normalmente”, disse na noite desta quarta-feira, 15;

Na lista de indicações para substituir Mandetta aparece ainda Claudio Lottemberg, presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein. Lottemberg, no entanto, preside o Lide Saúde,  grupo ligado ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), desafeto de Bolsonaro.

Os nomes do deputado Osmar Terra (MDB-RS) e do presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, perderam força no Planalto, apesar de terem a confiança de Bolsonaro. A leitura é a de que a escolha de um deles não seria bem aceita no Congresso e entre entidades médicas, por causa da mudança radical de discurso que levariam ao ministério.  Defensora do uso da hidroxicloroquina, a oncologista Nise Yamaguchi também teria perdido força por ter pouco apoio da classe médica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mandetta admite ‘descompasso’ com Bolsonaro e diz não ser ‘insubstituível’

Ministro impede que um de seus auxiliares pedisse demissão apesar da saída ter sido confirmada pela pasta da Saúde

Julia Lindner e André Borges, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 17h22
Atualizado 16 de abril de 2020 | 19h37

BRASÍLIA – Diante da possibilidade de deixar o cargo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, admitiu nesta quarta-feira, 15, em clima de fim de trabalho, que “há um descompasso” entre as diretrizes da pasta e o presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, Bolsonaro “claramente externa que quer outro tipo de posição” em relação ao combate da covid-19. O ministro disse, no entanto, que ficará no posto o tempo necessário para uma eventual transição.

“Parece que eu sou contra o presidente, e o presidente é contra mim... mas são visões diferentes do mesmo problema. Se tivesse uma visão única seria um problema muito fácil de solucionar, e não é”, disse Mandetta, durante entrevista coletiva realizada na tarde desta quarta-feira, 15, no Palácio do Planalto. O ministro enfatizou, ainda, que ele e sua equipe “não são insubstituíveis”. “Nunca falei que somos (insubstituíveis). São visões diferentes”, reforçou.

Questionado sobre a sua permanência na pasta diante das divergências entre ele e o presidente, Mandetta respondeu que “claramente, isso não é desconhecido, há um descompasso entre o Ministério da Saúde...”, sem completar a frase. “Isso aí a gente colocou e deixa muito claro que vai trabalhar até 100% dos limites da nossa possibilidade. Lá, enquanto eu estiver, nada muda. Seguiremos trabalhando”, acrescentou.

Nesta quarta, Mandetta impediu que um de seus principais auxiliares, o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, pedisse demissão, apesar de sua saída ter sido oficialmente comunicada pela pasta. Apontado como um dos principais mentores da estratégia de combate ao novo coronavírus no governo, Oliveira enviou uma mensagem de despedida aos colegas pela manhã. Na carta, ele afirma que teve reunião com Mandetta e que a saída do ministro “estava programada para as próximas horas ou dias”. 

“Hoje teve muito ruído por conta do Wanderson, por causa de toda essa ambiência ele falou para o setor que ia sair, aquilo virou, chegou lá para mim, eu já falei que não aceito, o Wanderson está aqui. Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde. Por isso fiz questão de vir nessa coletiva de hoje”, declarou Mandetta no início, acrescentando: “Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde.”

Com a demissão dada como certa, Mandetta, fez questão de participar da entrevista coletiva no Palácio do Planalto. A avaliação de assessores do presidente é que o ministro não quis perder o que pode ter sido a última oportunidade de, ainda no cargo, voltar a confrontar Bolsonaro, fazendo sempre a defesa da ciência.

 O “ato final” pegou de surpresa integrantes do governo e políticos em Brasília. Inicialmente, a entrevista de hoje se resumiria a uma apresentação técnica dos números da covid-19, mas Mandetta surgiu, de última hora, para falar com os jornalistas. Não estava só.

Inicialmente, o Palácio do Planalto havia proibido perguntas de jornalistas na entrevista. Pela segunda vez, no entanto, Mandetta quebrou o protocolo e autorizou os questionamentos da imprensa, que incluíram dúvidas sobre a situação do ministro à frente da pasta.

“Aceitamos todo tipo de crítica, têm coisas certas e outras erradas, não temos problemas em encará-las. Não estamos aqui para dificultar a vida de ninguém, mas claramente esse não é um caminho que tenha ressonância para que seja conduzido dessa maneira”, afirmou, sobre a sua linha de atuação, que defende a postura dos Estados em manterem o isolamento social.

Segundo apurou o Estado, o ministro descobriu nesta quarta-feira, 15, que seria demitido após ligações de colegas médicos que haviam sido sondados ao cargo. Na sequência, Mandetta iniciou uma operação de bastidores para anunciar a sua saída aos subordinados do ministério e evitar desgaste político. Ele ainda aguarda decisão oficial de Bolsonaro.

“Eu deixo muito claro isso. Eu deixo o Ministério da Saúde em três situações: uma é quando o presidente não quiser mais o meu trabalho; a segundo é se eu pegar uma gripe dessas e tenho que ser afastado por forças alheias; e a terceira é quando eu sentir que o trabalho feito já não é mais necessário porque de alguma maneira passamos por esse estresse. Todas essas alternativas continuam e são válidas”, afirmou.

Gabbardo chegou a ser cogitado como substituto de Mandetta

Na entrevista, o secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, também descartou a possibilidade de assumir a pasta no lugar de Mandetta, como chegou a ser cogitado no governo. “Tenho um compromisso com o ministro Mandetta. O dia que ele sair, eu saio junto com ele”, declarou o número 2 do órgão. “Eu entrei no Ministério da Saúde muito jovem, em 1981. Ano que vem eu completo 40 anos de Ministério da Saúde. Eu não vou jogar no lixo esse meu patrimônio.”

Gabbardo disse que, confirmada a saída de Mandetta, ficaria no cargo apenas para concluir um processo de transição no ministério. “Se o presidente indicar uma nova equipe para o Ministério da Saúde, eu não vou abandonar o barco. Vou ficar durante todo o tempo necessário para fazer a transição com toda tranquilidade, porque tenho consciência de que a população espera por esse trabalho e a continuidade dele. Não podemos interromper isso por qualquer razão”, disse.

Mandetta admitiu, em diversos momentos, bem como seus principais assessores, que já não há dúvidas sobre o fim de seu trabalho à frente do ministério: “Ele (Bolsonaro) claramente externa que quer outro tipo de posição do Ministério da Saúde, que eu, baseado em ciência, tenho esse caminho para oferecer.”

O ministro chegou a admitir que soube da procura de outros nomes para assumir seu posto, mas disse que deixou o governo à vontade para procurar candidatos.

Mandetta quis passar tranquilidade e disse que tem rezado muito nos últimos dias. “Estamos muito tranquilos, sabemos de nossa responsabilidade. Temos um foco muito grande. Sou muito devoto, rezo para os meus santos todos, para Nossa Senhora Aparecida. Sou devoto de São Jorge, que nessa semana tem o seu dia, cada um tem sua fé, é muito importante nesse momento.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaristas já celebram ‘queda’ de Mandetta e saída de Toffoli da presidência do STF

Ala ideológica do governo posta datas felizes nas redes sociais e erra dia de Maia deixar comando da Câmara

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 15h27

Caro leitor,

A crise do coronavírus não impediu que a comissão de frente do bolsonarismo nas redes sociais montasse um cronograma de celebrações para o segundo semestre. Nenhuma das datas ali citadas, porém, tem vínculo com qualquer previsão para o fim da pandemia. Convencido de que a queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não passa de dias, o grupo que sempre defendeu a troca já virou esta página e aposta agora em outras batalhas.

A “folhinha bolsonarista” que circula nas redes e já é compartilhada em grupos de WhatsApp por integrantes da ala ideológica do governo traz três efemérides para 2020. No calendário de “datas comemorativas” deste ano, seguidores do escritor Olavo de Carvalho citam em suas postagens o último dia de mandato do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, em 30 de setembro, e a aposentadoria compulsória do ministro Celso de Mello, decano da Corte, que completa 75 anos em 1.º de novembro.

Além disso, no afã de ver a mudança no comando do Congresso, o grupo errou a data de término da gestão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) como presidente da Câmara e de Davi Alcolumbre (DEM-AP) à frente do Senado ao mencionar o terceiro dia feliz previsto para 2020.

Maia é visto como vilão e inimigo número 1 do governo. O mandato do deputado na direção da Câmara termina no fim de janeiro de 2021, assim como o de Alcolumbre, também criticado por olavistas. A eleição da nova cúpula do Congresso ocorre somente em 1.º de fevereiro do ano que vem. Mas, para o almanaque do bolsonarismo, o “último dia de mandato presidencial” de Maia e Alcolumbre é 31 de dezembro.

Mandetta, outro filiado do DEM, virou carta fora do baralho para esse time desde que adotou tom do confronto com o presidente Jair Bolsonaro sobre a condução da estratégia de combate ao coronavírus. A partir daí, discípulos de Olavo de Carvalho já começaram a dizer que a saída de Mandetta era questão de tempo. Na prática, o presidente só não lhe deu o cartão vermelho, ainda, porque está à procura de um nome para substituí-lo.

Na noite desta terça-feira, 14, Mandetta chegou a avisar sua equipe que será demitido. Wanderson de Oliveira, um dos principais formuladores da estratégia do Ministério para enfrentar a covid-19, já se antecipou e entregou o cargo. Oliveira era secretário nacional de Vigilância em Saúde. 

A situação de Mandetta ficou insustentável no domingo, quando, em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, ele chegou a apontar “dubiedade” nas ações do governo para conter a pandemia. O ministro sempre quis manter medidas de isolamento social, mas Bolsonaro vai na direção oposta e tem saído às ruas, provocando aglomerações.

“O brasileiro não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta”, disse Mandetta, ainda naquele domingo.

De lá para cá, tudo piorou. O titular da Saúde perdeu o apoio do núcleo militar do Planalto, que lhe dava respaldo na briga contra a ala ideológica do governo. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo”, afirmou o vice-presidente Hamilton Mourão, primeiro convidado da série de entrevistas Estadão Live Talks, em referência ao fato de Mandetta expor publicamente as divergências com Bolsonaro. “Ele fez uma falta. Merecia cartão”. 

Para o chamado “gabinete do ódio”, grupo capitaneado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), que adota posição beligerante nas redes sociais, o coronavírus foi “plantado” pela China para causar pânico nos mercados globais e fortalecer a economia do país asiático. O próprio presidente tem essa teoria, externada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. A posição provocou fortes reações da Embaixada da China.

“Não entendo como o governo brasileiro, nesse momento de crise, desqualifica a China”, argumentou Maia. Em mais de uma videoconferência com investidores, o deputado lembrou que o Congresso só não rompeu com Bolsonaro por causa da pandemia.

Nas mídias digitais, o presidente da Câmara apanha dia e noite de bolsonaristas. A tensão chegou ao auge nesta segunda-feira, 13, quando a Câmara aprovou plano de socorro de R$ 89,6 bilhões para Estados e municípios.

Foi uma derrota do governo e, principalmente, do ministro da Economia, Paulo Guedes, com quem Maia vive às turras. O pacote ainda precisa passar pelo crivo do Senado. Para Guedes, seria uma irresponsabilidade fiscal dar “um cheque em branco para governadores de Estados mais ricos”. Trata-se de um duelo com João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio), dois adversários políticos de Bolsonaro e pré-candidatos à sua sucessão, em 2022.

Atacado pelo líder do governo, deputado Vitor Hugo (PSL-GO), o presidente da Câmara se queixou da forma como tem sido tratado pelo Planalto. “Você entra por uma porta e, quando sai, leva um coice. Essa é a relação que o governo tem tido com os políticos do Congresso Nacional desde que assumiu o poder”, resumiu ele.

Diante de tantas crises, por que mesmo bolsonaristas/olavistas contam os dias para a saída de Toffoli da presidência do Supremo e para a aposentadoria compulsória de Celso de Mello da Corte?

A ala ideológica do governo nunca perdoou Toffoli por dar o voto de Minerva que derrubou a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, em novembro do ano passado, abrindo caminho para a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com Celso de Mello foram muitos os embates, mas basta lembrar o sucinto comentário feito pelo magistrado quando o Estado revelou, em fevereiro, que Bolsonaro havia compartilhado pelo WhatsApp um vídeo convocando manifestações contra o Congresso e o Supremo. À época, Mello disse que Bolsonaro demonstrava hostilidade aos demais Poderes da República e uma visão indigna de quem não está “à altura do cargo”. Precisa mais?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Relembre as brigas entre Bolsonaro e Mandetta

Presidente e ministros não se entendem sobre condução do combate à pandemia; pronunciamento, cloroquina e ida a padaria estão entre episódios

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 14h50

O relacionamento entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está desgastado há semanas e motivou brigas públicas. Reportagem do Estado desta quarta-feira, 15, revela que Mandetta avisou a auxiliares que deve ser demitido pelo presidente. As divergências na condução do combate à pandemia do coronavírus já ameaçaram a permanência do ministro no cargo em outros momentos. O protagonismo de Mandetta na condução da crise passou a incomodar o presidente.

Já no dia 15 de março, quando o presidente cumprimentou centenas de apoiadores no Palácio do Planalto e ignorou orientações do Ministério da Saúde, Mandetta foi orientado por aliados a mostrar contrariedade e pedir demissão.

À época, no entanto, o ministro evitou fazer críticas à conduta do presidente. Afirmou que todos precisam fazer sua parte e que a aproximação de Bolsonaro aos manifestantes era um “equívoco”, mas não “proibida”.

Em 20 de março, o chefe do Executivo voltou a minimizar a pandemia do coronavírus. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”, disse o presidente. Horas antes, Mandetta projetou, em coletiva ao lado de Bolsonaro, que o sistema de saúde brasileiro entraria em “colapso” em abril.

Os embates entre Bolsonaro e Mandetta ganharam novos contornos quando o presidente fez um pronunciamento em rede nacional, em 24 de março, pedindo o fim do isolamento em massa da população.

25/03 - ‘Temos que melhorar esse negócio de quarentena’

Mandetta inicialmente alinhou seu discurso ao de Bolsonaro. Na coletiva diária do governo federal, o ministro afirmou que a quarentena é um “remédio extremamente amargo e duro” e falou em mudanças. “Temos que melhorar esse negócio de quarentena, não ficou bom. Foi precipitado, foi desarrumado”, declarou.

Nos bastidores, Bolsonaro teria proibido Mandetta de criar pânico na sociedade e dar munição a adversários, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Publicamente, o presidente defendeu o isolamento vertical, apenas para idosos e pessoas com doenças graves, alegando que o impacto econômico do enfrentamento à covid-19 poderia colocar em risco a “normalidade democrática”.

No dia seguinte, Bolsonaro chegou a dizer que Mandetta havia concordado com a mudança para o formato de isolamento vertical, embora a medida não tenha sido adotada pelo governo desde então.

27/03 - ‘Evidências científicas’

No dia seguinte ao lançamento da campanha “O Brasil não pode parar”, posteriormente proibida pela Justiça, Mandetta mudou o tom novamente e afirmou que tomaria apenas decisões baseadas em evidências científicas. Em reunião com gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), o ministro não defendeu o isolamento vertical, mas se mostrou favorável à abertura de igrejas.

28/03 - ‘Estamos preparados para ver caminhões do Exército transportando corpos?’

Em reunião tensa com outros ministros e Bolsonaro, Mandetta voltou a frisar que a pandemia do coronavírus não é uma “gripezinha” e fez um apelo para a criação de um “ambiente favorável” entre União, Estados e municípios.

“Estamos preparados para o pior cenário, com caminhões do Exército transportando corpos pelas ruas? Com transmissão ao vivo pela internet?”, teria perguntado Mandetta a Bolsonaro, segundo apurou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde.

Mais tarde, apesar de não aderir ao isolamento vertical e à divulgação da cloroquina como solução para a covid-19, Mandetta ressaltou que é possível compatibilizar plano de combate à pandemia com preservação da economia.

O presidente está certíssimo quando fala que crise econômica vai matar as pessoas, que a fome vai matar pessoas. Está certíssimo e somos 100% engajados para achar solução com a equipe da economia”, disse o ministro.

30/03 - O poema de Drummond

Mandetta enviou à sua equipe um pedido de paciência acompanhado de um poema. O ministro relembrou os versos de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho tinha uma pedra”, conforme informou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde.

O gesto foi uma resposta à visita de Bolsonaro a vários comércios locais em funcionamento no Distrito Federal. O presidente cumprimentou apoiadores e gerou aglomerações para tirar selfies, o que foi visto como uma provocação para gerar a queda de Mandetta.

01/04 - ‘Só trabalho com a ciência’

Depois de ficar de fora de uma reunião de Bolsonaro com um grupo de médicos para discutir o uso da cloroquina, Mandetta afirmou em coletiva que ia se pautar pela ciência "até o limite de tudo o que estiver na nossa frente". 

"Só trabalho com a academia, só trabalho com a ciência. Existem pessoas que trabalham com critérios políticos, que são importantes também, deixem que eles trabalhem. Não me ofendem em nada. Eu trabalho com foco, disciplina  e ciência", argumentou o ministro.

02/04 - ‘Está faltando um pouco de humildade’

Em entrevista à rádio Jovem Pan, Bolsonaro expôs seu incômodo com a atuação de Mandetta. Ressaltou que ninguém é “indemissível” em seu governo, mas garantiu que não pretendia demiti-lo “no meio da guerra”.

“O Mandetta quer fazer valer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo, mas está faltando um pouco de humildade para conduzir o Brasil nesse momento difícil”, declarou Bolsonaro.

Bolsonaro reclamou que o ministro devia “ouvir um pouco mais o presidente da República”. Ele ainda desejou “boa sorte” a Mandetta e afirmou que parte do Ministério da Saúde foi contaminado pela “histeria”. 

03/04 - ‘Um médico não abandona o paciente’

Em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, Mandetta minimizou as declarações de Bolsonaro e indicou que não pretendia "abandonar" o País. "O compromisso do médico é com o paciente. E o paciente agora é o Brasil", declarou.

Questionado se pode deixar a pasta, Mandetta respondeu que não tomaria a decisão por vontade própria, a menos que Bolsonaro “usasse a caneta" para demiti-lo. "Um médico não abandona o paciente", argumentou.

Mandetta também ressaltou que "não é dono da verdade" e que estava buscando medidas baseadas na opinião de médicos experientes. Comparou a postura de Bolsonaro com a de um familiar do paciente que questiona a abordagem médica e busca uma segunda opinião. "Cabe ao paciente, representado pelo presidente, dizer se a conduta adotada é interessante."

05/04 - ‘Algo subiu na cabeça’

Em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, Bolsonaro não mencionou o ministro da Saúde, mas disse que “algo subiu na cabeça” de alguns de seus subordinados.

“Algumas pessoas no meu governo, algo subiu a cabeça deles. Estão se achando. Eram pessoas normais, mas de repente viraram estrelas. Falam pelos cotovelos. Tem provocações. Mas a hora deles não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles. A minha caneta funciona. Não tenho medo de usar a caneta nem pavor. E ela vai ser usada para o bem do Brasil, não é para o meu bem. Nada pessoal meu. A gente vai vencer essa”, afirmou o presidente.

Questionado pelo Estado por telefone, Mandetta se esquivou da indireta de Bolsonaro. “Eu estou dormido”, disse, parecendo bocejar. “Amanhã eu vejo, tá?”, completou, antes de encerrar a ligação.

06/04 - ‘Fico’

Depois de um dia em que sua continuidade no cargo era tida como incerta, Mandetta anunciou que permaneceria no comando do Ministério da Saúde e pediu “paz”. Sem mencionar Bolsonaro, o ministro reclamou de críticas que, em sua opinião, criam dificuldades para o trabalho da pasta.

“Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma a equipe que virá. Entramos juntos e vamos sair juntos”, assegurou Mandetta, indicando ainda que, se deixar o governo, seus auxiliares também devem sair.

A permanência de Mandetta no cargo, segundo apuração do Estado, contou com a atuação nos bastidores de ministros do governo e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

No dia seguinte, Bolsonaro evitou fazer aparições públicas e faltou a dois eventos aos quais compareceria.

08/04 - ‘Ninguém é dono da verdade’

Na coletiva diária do governo, Mandetta aproveitou para afastar o clima ruim com o presidente. “Para todos aqueles com ânimos mais exaltados, aqui está tudo bem. Quem comanda esse time é o presidente Jair Messias Bolsonaro”, declarou o ministro.

Mandetta defendeu um “posicionamento técnico” sobre a adoção da cloroquina no combate ao coronavírus e defendeu a opinião do presidente sobre o assunto. O ministro também rebateu o governador de São Paulo, João Doria.

“Não existe ninguém que é o dono da verdade. Não existe Estado que possa falar que é melhor que o outro. Hoje esse medicamento não tem paternidade. Não tem que politizar esse assunto”, criticou Mandetta, referindo-se diretamente ao governo de São Paulo.

10/04 - ‘Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir’

Pelo segundo dia consecutivo, Bolsonaro fez um passeio por Brasília. Na ocasião, o presidente foi ao Hospital das Forças Armadas, a uma farmácia e depois ao prédio onde mora um de seus filhos, Jair Renan. Apoiadores se juntaram ao presidente e geraram aglomerações.

“Eu tenho o direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir. Ninguém”, afirmou Bolsonaro na saída da farmácia.

11/04 - ‘Distanciamento social vale para todos os brasileiros’

O presidente e ministros, incluindo Mandetta, viajaram à cidade de Águas Lindas (GO) para visitar as obras de um hospital de campanha que vai atender pacientes com coronavírus. Mais uma vez, Bolsonaro desrespeitou recomendações sanitárias e foi ao encontro de apoiadores, que se aglomeraram.

Questionado por jornalistas sobre a atitude do presidente, Mandetta afirmou que orientação de distanciamento social vale para todos os brasileiros. “Eu posso recomendar (a não aglomeração), mas não posso viver a vida das pessoas. As pessoas que fazem uma atitude dessa hoje daqui a pouco serão as mesmas que estão lamentando”, disse.

12/04 - ‘Brasileiro não sabe se escuta ministro ou o presidente’

Mandetta concedeu uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, em que enviou um recado direto ao presidente. “Eu espero que a gente possa ter uma fala única, uma fala unificada. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta", analisou o ministro.

O ministro minimizou as divergências com Bolsonaro e alegou que o foco é no combate à pandemia. “Isso preocupa, porque a população olha e fala assim: 'Será que o ministro da Saúde é contra o presidente?' O que a gente tem de ter foco, que é o nosso problema, é o coronavírus. Ele é o principal inimigo. Se eu estou ministro da Saúde, é por obra de nomeação do presidente”, declarou.

Não assisto à Globo, tá ok? Vou perder tempo da minha vida assistindo à Globo agora?”, respondeu Bolsonaro, no dia seguinte, em frente ao Palácio da Alvorada, a um apoiador que o questionou sobre a entrevista.

15/04 - ‘Sócio da paralisia’

Nas redes sociais, Bolsonaro compartilhou um vídeo com ataques a medidas de isolamento social adotadas no combate à pandemia da covid-19. O vídeo "Os sócios da paralisia", publicado originalmente pelo jornalista Guilherme Fiuza, apresenta uma série de críticas a Mandetta e ao governador João Doria.

"Você está em casa assistindo o governador de São Paulo assumir a paternidade da cloroquina, o ministro da Saúde explicar que traficante também é gente, jornais estrangeiros publicar fotos de covas abertas para dizer que o Brasil não tem mais onde enterrar seus mortos, entre outras referências intrigantes e estridentes sobre o assunto. Se você está paralisado e catatônico é porque já sabe que isso é um show mórbido", afirma Fiuza no vídeo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Formulador de estratégia contra o coronavírus pede demissão do Ministério da Saúde

Chefe da pasta, Luiz Henrique Mandetta não aceita decisão do auxiliar

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 12h20
Atualizado 16 de abril de 2020 | 17h33

BRASÍLIA – O enfermeiro epidemiologista Wanderson de Oliveira pediu demissão na manhã desta quarta-feira, 15, do cargo de secretário nacional de Vigilância em Saúde, mas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não aceitou a decisão. Ele é um dos principais formuladores da estratégia do Ministério da Saúde para enfrentar a covid-19 e vinha se queixando a colegas sobre o discurso do presidente Jair Bolsonaro contrário ao isolamento social mais amplo. Em carta de despedida, Wanderson diz que a demissão de Mandetta está “programada para as próximas horas ou dias”.(leia a íntegra abaixo).

No texto divulgado à sua equipe, Oliveira disse que havia se reunido com o ministro e que a demissão do titular da Saúde poderia ser comunicada até via Twitter. “Só Deus para entender o que o querem fazer”, escreveu. Mandetta já avisou a auxiliares que deve ser demitido por Bolsonaro. A data da exoneração não é certa, mas, o clima é de despedida entre funcionários da pasta. A saída, porém, só deve ocorrer quando o governo encontar um nome para substituí-lo.

À tarde, Mandetta disse que houve ‘ruído’ na demissão de Wanderson. “Hoje teve muito ruído por conta do Wanderson, por causa de toda essa ambiência ele falou para o setor que ia sair, aquilo virou, chegou lá para mim, eu já falei que não aceito, o Wanderson está aqui. Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde. Por isso fiz questão de vir nessa coletiva de hoje”, declarou Mandetta no início, acrescentando: “Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde.”

Oliveira é presença constante nas entrevistas diárias em que o ministério apresenta o balanços sobre os casos de coronavírus no País. O ex-secretário é apontado como um dos principais mentores da estratégia de combate ao novo coronavírus no governo. Ele já havia dado sinais de que deixaria o posto ao distribuir ontem a colegas um relatório sobre a sua gestão.

O epidemiologista, no entanto, vinha afirmando que entregaria o cargo junto da saída de Mandetta, mas antecipou seu pedido de demissão. Oliveira disse a colegas que indicou a seu cargo, interinamente, Gerson Pereira, atual diretor do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. “Ele é um profissional excelente e vai dar seguimento a tudo que estamos fazendo”, escreveu Oliveira. 

 A primeira passagem de Oliveira pelo Ministério da Saúde ocorreu ainda em 2001, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Doutor em epidemiologia, ele é servidor do Hospital das Forças Armadas e têm experiência internacional em investigação de surtos, como da covid-19. O ex-secretário é tido como referência mundial em estudos sobre zika vírus.

O governo, no entanto, ainda discute um nome para assumir o cargo de Mandetta. Uma solução provisória, segundo auxiliares do presidente, seria colocar o “número 2” do ministério, João Gabbardo, no cargo de ministro. A leitura é de que a troca seria menos traumática para o momento que apostar no deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que é radicalmente contra a estratégia de isolamento social para combater a doença, como hoje defende o ministério. 

Na semana passada, em entrevista na qual revelou que auxiliares chegaram a limpar suas gavetas no gabinete achando que ele seria demitido naquele dia, Mandetta afirmou que, caso fosse embora, seu time sairia junto. “Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma com a equipe que virá. Entramos juntos e vamos sair juntos”, afirmou o ministro.

Estratégia contra o coronavírus opõe ministro e presidente

Desde o início da crise do coronavírus, ministro e presidente têm se desentendido sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o ministro tem mantido a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Ministro e presidente também têm divergido sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, tem pedido cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus

As últimas atitudes do ministro elevaram a temperatura do confronto e, na visão de auxiliares, podem acelerar sua saída da equipe. O estopim da nova crise foi a entrevista de Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Nessa terça, 14, em entrevista da estreia da série “Estadão Live Talks”, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta “cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola”, explicou o vice. “Ele fez uma falta. Merecia um cartão”, continuou Mourão.

O ministro admitiu a auxiliares ter cometido um erro estratégico e que tentaria nos próximos dias sair do foco da crise. Assessores do presidente observam que Bolsonaro só não dispensou o ministro ainda porque faz um cálculo pragmático.

Pesquisas mostram que Mandetta, hoje, é mais popular que Bolsonaro e sua demissão, neste momento, poderia agravar a crise. Por isso a solução caseira, de manter Gabbardo no comando da pasta, passou a ser cogitada.

Veja a carta de demissão de Wanderson de Oliveira

"Bom dia!

Finalmente chegou o momento da despedida. Ontem tive reunião com o Ministro e sua saída está programada para as próximas horas ou dias. Infelizmente não temos como precisar o momento exato. Pode ser um anúncio respeitoso diretamente para ele ou pode ser um Twitter. Só Deus para entender o que o querem fazer.

De qualquer forma, a gestão do Mandetta acabou e preciso me preparar para sair junto, pois esse é um cargo eletivo e só estou nele por decisão do Mandetta. No entanto, por conhecer tão profundamente a SVS, tenho certeza que parte do que fizemos na SVS vai continuar, pois é uma secretaria técnica e sempre nos pautamos pela transparência, ética e preceitos constitucionais.

A maioria da equipe vai permanecer e darão continuidade ao trabalho de excelência que sempre fizeram e para isso não precisam mais de mim.

Foi uma honra enorme trabalhar mais uma vez com você. Para que não tenhamos solução de continuidade, indiquei o meu amigo querido Gerson Pereira para ficar de Secretário interino. Ele é um Profissional excelente e vai dar seguimento a tudo que estamos fazendo.

Vou entregar o cargo assim que a decisão sobre o Mandetta for resolvida. Todos estão livres para fazer o que desejarem.

Tenho certeza que a SVS continuará grande e será maior, pois vocês é que fazem ela acontecer. Minhas contribuições foram pontuais e insignificantes, perto do que essa Secretaria é como uma só equipe. A SVS é minha escola e minha gratidão por ter trabalhado com você será eterna. Muito obrigado por me permitir estar Secretário Nacional de Vigilância em Saúde. Jamais imaginei que seria o primeiro enfermeiro a ocupar tão elevado e importante cargo e o primeiro de muitos que virão.

Muito obrigado!"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Washington Post’ diz que Bolsonaro é o pior líder global a lidar com o coronavírus

Em editorial, jornal americano coloca presidente brasileiro ao lado do chefe de Estado da Bielo-Rússia, que recomendou saunas e vodca contra o vírus

Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 19h09

O jornal americano The Washington Post publicou nesta terça-feira, 14, um texto editorial que classifica a postura do presidente Jair Bolsonaro diante da crise da coronavírus como “de longe, o caso mais grave de improbidade” entre todos os líderes mundiais. O jornal coloca Bolsonaro ao lado do presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que recomendou saunas e vodca contra o vírus, do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov, que proibiu o uso o termo “coronavírus” no país, e da Nicarágua, Daniel Ortega, que não é visto há mais de um mês e ainda mantém em atividade as ligas esportivas. O texto de opinião assinado pelo conselho editorial do veículo americano tem como título “Líderes arriscam vidas minimizando o coronavírus. Bolsonaro é o pior”.

“Quando as infecções começaram a se espalhar em um País de mais 200 milhões de habitantes, o populista de direita disse que o coronavírus causa ‘uma gripezinha’ e instou os brasileiros a ‘enfrentar o vírus como um homem, caramba, não como um menino’. Pior, o presidente tentou repetidamente minar as medidas tomadas pelos 27 governadores estaduais do País para conter o surto”, diz o The Post, citando as ações do presidente Bolsonaro diante da crise.

O jornal ainda citou a campanha “O Brasil não pode parar” e as discordâncias públicas entre Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como exemplos de condutas erráticas do presidente brasileiro, classificadas como “tendo um efeito sinistro” nos índices de infecção e de mortos no Brasil pela covid-19.

No fim do editorial, o periódico americano incentiva o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a telefonar para Bolsonaro e incentivar o brasileiro a voltar atrás na retórica e apoiar medidas de contenção recomendadas por profissionais de saúde, assim como o próprio Trump mudou de conduta quando ao coronavírus nas últimas semanas.

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonarocoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaro fala a apoiadores em ‘tocar o barco’ e resolver ‘questão da Saúde’

Demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é dada como certa após a demissão de um de seus secretários

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 15h17
Atualizado 15 de abril de 2020 | 20h06

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira, 15, que trabalha para resolver "a questão da Saúde" e "tocar o barco". A declaração foi feita a apoiadores que o aguardavam em frente ao Palácio da Alvorada, pela manhã. O ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta, já avisou a auxiliares que o presidente pretende demiti-lo. A saída, porém, só deve ocorrer quando o governo encontar um nome para substituí-lo.

“Pessoal, estou fazendo a minha parte, tá ok?”, disse o presidente para apoiadores sobre a crise do coronavírus. Há alguns dias, Bolsonaro e Mandetta têm divergido sobre a melhor estratégia de combate à pandemia. 

O estopim da nova crise foi a entrevista dada por Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Na terça-feira, 14, em entrevista da estreia da série “Estadão Live Talks”, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta "cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. 

A saída do ministro é dada como certa após a carta de demissão do secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira. A saíde de Wanderson, no entanto, não foi aceita por Mandetta. Ele é apontado como um dos principais formuladores da estratégia do Ministério da Saúde para enfrentar a covid-19 e vinha se queixando a colegas sobre o discurso do presidente contrário ao isolamento social mais amplo. Em carta de despedida, o agora ex-secretário diz que a demissão de Mandetta está "programada para as próximas horas ou dias".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.