Pós-Lula inquieta PT e desafia Dilma

Sem diálogo com nova presidente, que se define como 'independente', dirigentes e parlamentares temem dificuldades no relacionamento

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Oito anos depois de eleger um presidente que passava a mão na cabeça de seus companheiros, chamados por ele de "meninos", o PT não esconde a inquietação sobre como será o pós-Lula. Com Luiz Inácio Lula da Silva fora do Palácio do Planalto e sem diálogo com a presidente Dilma Rousseff, dirigentes e parlamentares do partido temem dificuldades no relacionamento.

 

Em 30 anos de trajetória, é a primeira vez que o PT não terá seu criador como figura central do projeto de poder. Representante do lulismo, que nem sempre está em sintonia com o petismo, Dilma é novata no PT e, antes de ser candidata, nunca havia participado de seus congressos.

 

Egressa do PDT de Leonel Brizola, ela tem apenas dez anos de filiação e, no mosaico das forças internas, define-se como "independente". É muito próxima do presidente do PT, José Eduardo Dutra; de Antonio Palocci, escolhido para chefiar a Casa Civil, e de José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça. Tem amigos no PT do Rio Grande do Sul e bom trânsito na corrente Democracia Socialista (DS), mas não sabe nem mesmo o nome de todas as tendências.

 

Insatisfeito com a montagem do ministério, um grupo de petistas já começa a se mexer para pressionar Dilma a abrir mais vagas para o partido e quer discutir os rumos do novo governo. A batalha, agora, é por cargos em poderosas empresas estatais e bancos públicos.

 

Interesses. Em meados de novembro, o deputado Ricardo Berzoini (SP), ex-presidente do PT, foi anfitrião de um encontro em sua casa para debater os interesses da corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB) – grupo também integrado por Lula e pelo ex-ministro José Dirceu – no governo Dilma. Depois disso, participou de outra reunião com descontentes, na sede do PT, em São Paulo.

 

Porta-voz de uma ala que se sente preterida, Berzoini enviou no mês passado um e-mail a Giles Azevedo, chefe de gabinete de Dilma, solicitando audiência com ela. Até agora, não obteve resposta.

 

Dutra ficou irritado com os movimentos de Berzoini, mas preferiu não espichar a polêmica. "As demandas são legítimas, mas os espaços são finitos", argumentou ele. "Cada vez que há uma indicação para cargo público aparecem dez insatisfeitos e um ingrato."

 

O PT já conseguiu desbancar o aliado PMDB dos Correios, avança sobre a Eletrobrás e agora está de olho em Furnas, hoje também sob comando do partido do vice-presidente, Michel Temer.

 

Diante de 20 petistas, na casa de Berzoini, Dutra ouviu cobranças de deputados e até de dirigentes do PT sobre a falta de interlocução com Dilma. A principal queixa foi a de que apenas ele, Palocci e Cardozo – trio batizado na campanha como "os três porquinhos" – têm acesso à presidente e concentram as indicações para o governo.

 

"Fui incumbido por lideranças da CNB de buscar uma aproximação, mas o objetivo não é ir atrás de espaço no governo. O que queremos é estabelecer uma relação política com Dilma, abrir o diálogo com ela", afirmou Berzoini. "Como diz Lula, ex-presidente não deve atrapalhar; só ajudar."

 

Na segunda reunião do grupo, em São Paulo, Dutra não compareceu. Além disso, só ficou sabendo do e-mail de Berzoini para Giles, com o pedido de conversa a Dilma, depois que o texto já havia sido enviado. Não gostou.

 

Racha. A revolta teve reflexo na escolha do candidato do PT à presidência da Câmara dos Deputados. Um racha na ala majoritária, que atraiu outros contrariados, principalmente em Minas e São Paulo, jogou a candidatura nas mãos de Marco Maia (RS), contra a vontade de Lula, Dutra e de Dilma. O Planalto preferia no páreo o líder do governo, Cândido Vaccarezza (SP).

 

Dias antes, em café da manhã com parlamentares do PT, Lula havia pedido o fim da guerra na seara petista. "Cuidado com a severinada!", advertiu ele, numa referência à disputa na Câmara, em 2005, pouco antes do escândalo do mensalão, quando a divisão da sigla contribuiu para a vitória de Severino Cavalcanti.

 

Na tentativa de contornar o mal-estar com a bancada, Dilma convidou o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) para o Ministério das Relações Institucionais. Avisou, porém, que muitas nomeações para o segundo escalão devem ficar para fevereiro, pois é preciso evitar que a dança das cadeiras contamine a nova eleição na Câmara e no Senado.

 

Embora a corrente de Lula tenha emplacado 10 dos 17 ministros do PT, incluindo a "reintegração de posse" na Saúde, os petistas reclamam a perda da Previdência e do Turismo para o PMDB. Não se conformam, ainda, por não terem reconquistado Cidades, pasta que o PT comandou até julho de 2005.

 

"Vocês estão reclamando do quê, se nem a candidata vocês indicaram?", perguntou um ministro do PT a um grupo de deputados e senadores, durante jantar no tradicional restaurante Piantella, em dezembro.

 

"Eu acho que os companheiros devem olhar para a floresta, em de procurar apenas a sua árvore", provocou o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). "Ave Maria!"

 

Para o cientista político Aldo Fornazieri, o grande desafio do PT, agora, é calibrar o tipo de relação que terá no governo Dilma.

 

"A presidente não tem a mesma liderança do Lula, mas precisa de força política própria. Sendo assim, a equação do PT consiste em ocupar espaços de poder importantes, mas sem ministros fazendo sombra, como no passado", disse Fornazieri.

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