FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Porto Alegre, um palco do petismo

Após governos do PT, cidade vê desgaste de Lula

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 05h00

Palco de acirradas disputas eleitorais, mobilizações marcadas por fortes divisões políticas e por longos períodos sob comando do PT, Porto Alegre volta a viver nesta semana um papel de destaque na história do partido. Com o impeachment de Dilma Rousseff, que optou por viver na cidade desde a perda do poder em Brasília, e o julgamento da sentença de condenação por corrupção do principal líder da legenda, Luiz Inácio Lula da Silva, a capital gaúcha acompanha um momento de forte desgaste político do petismo.

Condenado pelo juiz federal Sérgio Moro, o petista será julgado na próxima quarta-feira, 24, pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), na capital gaúcha. Militantes petistas prometem manifestações de apoio a Lula na cidade.

“O Rio Grande do Sul, com a qualidade de sua militância política, foi fundamental para o PT”, avalia o professor de Ética e Filosofia na Unicamp Roberto Romano. Ele argumenta que é preciso observar a existência da aposta em educação e formação política regional bem anterior ao surgimento do PT, criado em fevereiro de 1980. Para Romano, o Estado teve um positivismo preocupado com a educação de massas, o que favoreceu uma forte consciência política. A região tem tradição de uma militância “muitas vezes até exacerbada”, desde os Farroupilha, do século 19. No século 20, criou líderes populares relevantes, como Getúlio Vargas e Leonel Brizola, lembra o professor. E o PT se beneficiou desse ambiente de consciência política para se estruturar e, mais tarde, governar na cidade, no Estado e em Brasília. 

+++PT teme encolher se Lula for barrado na eleição

O professor explica que o partido foi formado por três pilares principais: esquerda católica, militância do antigo Partido Comunista Brasileiro e militantes trotskistas. "Na esquerda católica se encontra, na região, forte marca do movimento rural, com características patriarcais da agricultura familiar local", lembra Romano. Um exemplo é o fortalecimento da militância de colonos, muitos deles desalojados por barragens, que viriam, a partir dos anos 1990 a formar o MST. "É uma característica diferente de São Paulo, por exemplo", compara o professor. Ele pondera que "o MST nem sempre fecha com o PT", mas lembra que há momentos nos quais isso acontece com força.

Radicalismos. Em 1990, outro momento dramático da militância rural na cidade foi o Conflito da Praça da Matriz, episódio que envolve a morte do policial militar Valdeci de Abreu Lopes, então com 27 anos. Ele sofreu um corte no pescoço durante confronto com manifestantes pró-reforma agrária. 

+++ANÁLISE: Campo petista ainda não tem alternativas

A cidade vivia um  clima de tensão desde o início daquela manhã de 8 de agosto. Manifestantes que protestavam contra a violência policial no campo e que ocuparam a praça diante do Palácio Piratini, sede do governo estadual, foram desalojados pela tropa da Brigada Militar, a PM gaúcha. Houve confronto. O que era para ser uma manifestação pacífica se transformou em tumulto, espalhado pelas ruas próximas do centro. A correria chegou à Avenida Borges de Medeiros com a Rua da Praia, a quatro quarteirões da praça, no local conhecido na capital gaúcha como a Esquina Democrática.

"Aquilo foi uma tragédia, que não precisava ter acontecido", afirma o deputado federal Pepe Vargas (PT-RS), dirigente estadual do PT.  "Foi resultado de uma repressão desnecessária da Brigada Militar", resume o parlamentar. "Eu estava em uma reunião na Assembleia Legislativa, que fica ao lado da praça, quando ficamos sabendo", lembra ele. "Em vez de negociar, a Brigada partiu para a repressão de um grupo de sem-terra", argumenta. "Não precisava daquilo", alega.

+++Movimentos de sem-terra invadem fazendas em ações pró-Lula

No confronto, o soldado Lopes foi atingido por um golpe cortante no pescoço, uma sem-terra foi baleada no abdômen e dezenas de pessoas foram atendidas nos hospitais da cidade com ferimentos.

Para a Brigada Militar, o que houve naquele dia foi o assassinato de um soldado, mais tarde promovido a cabo, "degolado durante um confronto entre policiais e manifestantes do MST". Homenageado pela corporação, o PM empresta o nome a uma praça, o Largo PM Valdeci de Abreu Lopes, na Avenida Ipiranga, Centro, e a data do crime, 8 de agosto, foi transformada no dia do Policial Militar Tombado em Serviço.

Impacto. O prefeito da época era o ex-bancário Olívio Dutra, eleito em 1988 como o primeiro petista a comandar a capital, no que viria a ser um período de 16 anos de mandatos sucessivos do partido no Executivo municipal. "O Olívio impediu uma tragédia maior. Os agricultores perseguidos foram se abrigar na Prefeitura e ele resistiu à retirada deles do prédio", diz Vargas.

Preocupado com o atual clima de um eventual radicalismo na cidade, Vargas salienta que já mandou ofício ao governo estadual, do MDB, alertando para eventuais provocações de "infiltrados" nos atos de protesto nos próximos dias, quando Porto Alegre voltará a viver manifestações, desta vez vinculadas ao julgamento do ex-presidente Lula. 

+++Movimentos sociais concordam em assumir responsabilidade por eventuais danos, diz Torquato

"Nós vamos fazer manifestações pacíficas. Nosso pessoal está orientado para não permitir ninguém com rosto coberto. Todo mundo deve estar de cara limpa", explica Vargas. "Já tivemos reunião com a Secretaria de Segurança para debater o assunto", conta.

O dirigente petista critica ainda as "elites conservadoras do País", defende a inocência de Lula dizendo que não há provas contra o ex-presidente no caso do triplex do Guarujá (SP) e ataca o que chama de "golpistas que não querem que Lula volte pelo voto". "Derrotem ele nas urnas."

Partido. Sobre o atual momento do petismo, ele afirma que o pior "foi em 2016" e que o partido hoje vive um momento "ótimo". "Estamos nadando de braçada", diz. "As pessoas estão vendo o que está acontecendo no País, com essas reformas da Previdência, trabalhista, a situação da economia, a perda dos direitos trabalhistas", argumenta. "Havia críticas, sim, ao governo do PT. Eram críticas de quem queria ganhar mais; hoje as pessoas estão lutando para parar de perder", resume.

Para o parlamentar petista, “o Rio Grande deu sua contribuição ao partido, assim como outros Estados”. Mas Vargas discorda que o partido tenha raiz principal nos movimentos rurais. Para ele, o petismo teve forte influência do sindicalismo urbano de Porto Alegre e de outras cidades industrializadas, como Caxias do Sul, que é a base eleitoral dele.

"O Estado tinha um setor industrial significativo, com sindicalismo organizado". “Veja a histórica greve dos bancários (1979), que tinha em Olívio Dutra uma forte liderança sindical”, lembra, acrescentando que houve ainda a adesão ao partido gente que resistia à ditadura militar, de intelectuais, de setores do funcionalismo público, dos estudantes e da Igreja progressista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.