Portadores de HIV provam que é possível viver bem

A telefonista Silvinha Almeida, de 38 anos, trabalha, estuda, viaja, vai a festas, namora, se diverte. "A única coisa que me diferencia das outras pessoas é que eu tomo 21 comprimidos por dia." Silvinha, como milhares de soropositivos, aprendeu a viver normalmente com o vírus da aids e ser feliz. Ela não se incomoda de contar sua história. Aliás, faz questão. Para suas vizinhas, em Itaquera, zona leste, é um exemplo de coragem. Para as amigas da filha de 21 anos (tem também um menino de 11), uma referência. "Digo a elas: amor não dá imunidade. Exijam respeito e preservativo." Silvinha sentia-se confortável no casamento de 14 anos. Até que o marido adoeceu. Ele fez teste, deu positivo. Ela e o filho, na época com 1 ano, também fizeram. A criança não tinha o vírus; ela sim. Sentiu alívio por ele e uma grande responsabilidade. Cuidou do marido até que morreu, em 96. "Meus filhos não podiam ser órfãos de pai e mãe." Passou a cuidar-se. Entrou numa organização não-governamental, conheceu outras pessoas na mesma situação, passou a tomar o coquetel de antiretrovirais - que controla a ação do HIV. Nunca parou de trabalhar. Teve apoio da multinacional que a emprega há 18 anos e dos colegas. Voltou a estudar depois de 22 anos. Terminou o ensino médio, fez um curso de espanhol. Arrumou novos amigos e um namorado - "Ele dança um forró maravilhoso", conta. Para Silvinha, "o tchan da questão" é o soropositivo aceitar-se como tal, aderir à medicação e buscar ser feliz. "Minha vida é normalíssima. Posso fazer tudo", concorda o assistente social José Carlos Veloso, de 34, presidente do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa-SP), soropositivo desde 88. Ele lembra que, no fim dos anos 80 e início dos 90, quando ainda não havia o coquetel, os portadores do HIV viviam a expectativa da morte. "Hoje, a gente pode morrer como qualquer outra pessoa." Isso ocorre, segundo ele, não só por causa dos medicamentos, mas porque passaram a aceitar viver com o HIV e a aids. "A gente não se deixou abater pela morte civil - aquela imposta pela sociedade, que proíbe de trabalhar, de estudar, de viver." Toda quinta à noite, numa casa do Grupo pela Vidda, portadores do HIV e de aids, seus parentes, amigos e companheiros reúnem-se. O encontro chama-se Chá Positivo. Trocam experiências e discutem temas difíceis, mas em clima de alto astral - contar ou não aos outros sobre a doença; ou o impacto do tratamento no dia-a-dia. A força de um anima o outro. "Se o começo foi trágico - medo de morrer, dor da perda, pânico - o sentimento hoje é de esperança", diz Mário Scheffer, diretor do Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo. Para ele, é a hora de mostrar que é possível viver com o vírus ou a doença. Segundo Scheffer, para quem adere 100% ao tratamento e tem acesso aos avanços, a aids é uma doença crônica.Em junho de 2001, ao ingressar numa casa de apoio, o cabeleireiro Marcelino Pereira da Costa, de 41 anos, estava com 23 quilos. "O pessoal que ia me visitar achava que eu não escaparia e eu também pensava isso." Agora, está com 72 quilos, toma rigorosamente os remédios, come feito louco e toca a vida. "Voltei a gostar de mim." Há oito anos, quando soube que tinha HIV, Marilene da Conceição Ferreira, de 32, estava na 8.ª série. "Não vou conseguir fazer mais nada", pensou. Terminou o colegial, estuda informática, está construindo uma casa e planeja cursar psicologia. "Não tinha limites para nada. Hoje, faço só o que não atrapalha minha saúde. Minha vida ficou melhor." O professor de matemática Jorge Beloqui, de 53 anos, internou-se em 89 para retirar um tumor do pulmão. Era benigno. Mas foi informado de que tinha HIV. "Foi duro." Começou a participar do Grupo pela Vidda, que ajudou a fundar; tomou antiviral por dez anos. Nunca teve doença oportunista. "Não parei de trabalhar, faço academia, sexo, tudo normal, com precaução e responsabilidade."

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