Portadora do HIV há 15 anos leva uma vida normal

Uma festa cheia de gente, num salão enfeitado com flores e um bolo grande, com velinhas que reacendem depois do sopro, vai marcar, no sábado, os 15 anos da garota Luciane Aparecida de Conceição, moradora da periferia de Sorocaba. A comemoração tem uma razão especial: embora soropositiva desde o nascimento, Luciane, a Lu, é uma garota como as outras. O tratamento que recebe permite levar uma vida normal. Estuda, vai a festas, passeia, come de tudo e, de 12 em 12 horas, toma a combinação de medicamentos que neutralizam o vírus. Nos exames, a carga viral aparece próxima de zero e as defesas do organismo são iguais às de uma pessoa saudável. "É uma garota com uma saúde superboa", diz a médica infectologista Rosana Paiva dos Anjos, que a acompanha desde criança. Lu entrou na adolescência bonita, com chamativos olhos verdes, esbanjando alegria. "Os meninos ficam encantados com ela", garante, com indisfarçada corujice, a mãe adotiva, Arlinda de Jesus Conceição. Vitória - Mais do que a realização de um sonho de infância, a data será um marco na medicina brasileira. Ao nascer, Luciane já tinha o vírus HIV, causador da aids. O prognóstico após o parto, com a confirmação da doença, era de uma vida curta. Por isso, chegar aos 15 anos foi uma vitória digna de celebração. Durante mais de um ano, ela morou no hospital. Aos 8 anos, Luciane apresentava um quadro desesperador. Contraíra tuberculose, pneumonia, apresentava lesões cutâneas e queda de cabelos. Já não conseguia andar e tinha dificuldade para falar. Os estudos foram abandonados. Foi quando a médica Rosana decidiu jogar a última cartada: o coquetel anti-retroviral. O conjunto de drogas, combinando o d4T (substituto do AZT), o 3TC (da família do AZT) e o Ritonavir, um inibidor de protease, uma novidade na época, estava sendo usado em adultos. Um dos primeiros a recebê-lo foi o astro do basquete americano Earvin Magic Johnson, portador do vírus. Como nunca tinha sido testado em crianças, seu emprego não foi permitido pela Secretaria de Saúde do Estado. A médica recorreu à Justiça. "Era uma situação extrema, ou arriscávamos ou a perdíamos", lembra-se. Autorizada por uma liminar, passou a ministrar o coquetel. "Os resultados eram tão visíveis que ficava difícil controlar a emoção. Em uma semana, ela reviveu." Vida normal - A vida da médica, coordenadora do programa de aids e do núcleo de vigilância epidemiológica de Sorocaba, também mudou. Ela passou a ser requisitada para relatar a experiência em revistas científicas e congressos internacionais. Viajou para o México, Estados Unidos e Escócia.Até 1998, quando os Estados Unidos aprovaram um protocolo liberando o tratamento, Luciane era a única criança do mundo a receber o coquetel. Hoje, só em Sorocaba, outras quatro recebem o medicamento e são acompanhadas. "Todas estão como a Lu, estudando e levando uma vida normal", conta Rosana. Luciane adquiriu o HIV da mãe, contaminada durante transfusão de sangue no oitavo mês de gravidez, no Hospital Regional de Sorocaba. Após o parto, a mulher foi embora e deixou a criança no hospital. Morreu dois anos depois. O casal Edgard e Arlinda adotou a menina. O governo do Estado, que mantém o Regional, reconheceu o erro anos mais tarde e paga pensão mensal de cinco salários mínimos à garota. Fornece também os remédios. Desde o início da medicação, a carga viral no organismo de Lu passou a ser indetectável. "O HIV permanece no corpo, mas não se manifesta", disse a médica. O acompanhamento é feito pelo método Nasba de controle do vírus por meio da contagem do CD-4, células de defesa do organismo. Para se ter uma idéia, a maioria das pessoas saudáveis tem entre 800 e mil dessas células por mililitro de sangue. Quando a contagem cai para menos de 200, o paciente fica suscetível a todo tipo de infecção. Antes de receber o coquetel, Luciane tinha 480 mil cópias do vírus por mililitro e apenas 48 células de defesa. A experiência com a menina de Sorocaba ajudou o Brasil a construir a imagem de país bem-sucedido no controle da aids, segundo Rosana. "A boa evolução do tratamento de Lu levou à rápida liberação dos medicamentos para outras crianças." Planos - A médica observa que a adolescente entrou na fase de namoros e no futuro poderá querer um parceiro. "Se mantiver o tratamento, ela pode engravidar e ter filhos sadios", garante. A menina sabe que tem um futuro e já faz planos. Antes de se casar, quer ser professora. Os anos de luta contra a doença praticamente não deixaram seqüelas no seu corpo, mas fora do ambiente familiar a vida nem sempre é tão florida. Ela não perde o sorriso nem quando se lembra das discriminações. A recusa do dono de uma van escolar de aceitá-la é só um exemplo. "Ela conseguiu um lugar depois que recorremos à Justiça", conta o pai, o aposentado Edgard. "Não penso no que passou", diz a garota. "Tenho bons amigos e não são poucos." Em casa, xodó dos pais, diverte-se com a cachorrinha poodle Milu. "Ela é uma menina lutadora e alto-astral", afirma a médica. Luciane está ansiosa com os preparativos da festa dos 15 anos. Já convidou umas cem pessoas, entre colegas da escola pública municipal, parentes, amigos, e médicos. A Casa do Advogado cedeu o salão. Ela quer dançar a tradicional valsa. "Vou usar um vestido branco." Como a chama da velinha do bolo, para Lu a vida está sempre recomeçando.

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