Por vingança do mensalão, PT fala em vetar Gurgel

Partido quer retaliar procurador-geral em sabatina no Senado por causa de inquérito

Eduardo Bresciani, de O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - Senadores do PT ameaçam, nos bastidores, votar contra a indicação de Roberto Gurgel para um novo mandato à frente da Procuradoria-Geral da República. A ação seria uma retaliação à manifestação entregue por ele em julho, pedindo a condenação de 36 réus no processo do mensalão. Parte dos réus é filiada ao PT.

 

 A articulação petista foi revelada pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), em uma conversa na vice-presidência da República, da qual participaram Michel Temer e outros caciques peemedebistas. O líder do PT, Humberto Costa (PE), reconhece que há desconforto no partido, mas acha que, na hora da votação, os petistas darão respaldo à decisão da presidente Dilma Rousseff de reconduzir Gurgel.

 

A sabatina do procurador-geral da República ocorrerá nesta quarta-feira, 3, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Se a indicação for aprovada pela comissão, seguirá para o plenário. Nos dois casos, a votação é secreta. Gurgel foi indicado por Dilma após ter sido o mais votado em eleição da Associação Nacional dos Procuradores da República.

 

O DEM, comandado pelo líder Demóstenes Torres (GO), votará contra Gurgel, por causa de um parecer em que poupava Antonio Palocci quando o ex-ministro tentava continuar na Casa Civil. O partido quer convencer o PSDB a seguir o mesmo caminho. Se o PT, no voto secreto, também ficar contra a recondução, a indicação de Gurgel poderia correr risco.

 

Condenação. O procurador-geral provocou a ira de setores do PT por ter pedido a condenação de 36 dos 38 réus do processo do mensalão um dia após ter sua indicação para um novo mandato oficializada pela presidente.

 

O esquema foi o principal escândalo do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e envolveu autoridades poderosas da época, como o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. Cassado pela Câmara, Dirceu retornou às articulações partidárias e integra o diretório nacional do PT. Outro réu, Delúbio Soares, chegou a ser expulso do partido, mas em abril foi autorizada sua volta à legenda.

 

A denúncia de um esquema de pagamento de propina em troca de apoio parlamentar foi feita pelo ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que também foi cassado na Câmara e é réu no processo. Uma CPI investigou o tema e produziu o material que serviu de base para as ações do Ministério Público. Ainda na gestão de Antonio Fernando de Souza, a Procuradoria-Geral da República ofereceu denúncia contra 40 pessoas.

 

O STF aceitou a denúncia contra todos os 40 indicados pela PGR. José Janene, ex-líder do PP, morreu e Silvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, fez um acordo para cumprir pena alternativa. Dos 38 réus que continuam alvos do processo, Gurgel pediu em sua manifestação de julho a absolvição de apenas dois: Luiz Gushiken, ex-ministro da Comunicação Social, e Antonio Lamas, ligado ao PR, atual PL.

 

Constrangimento. Para os petistas, além da manifestação em si, o tom usado causou constrangimento ao partido. Gurgel classificou o mensalão como uma "afronta à democracia" e reafirmou que Dirceu seria chefe da quadrilha.

 

Humberto Costa, porém, nega a possibilidade de retaliação pelo PT no Senado, embora admita haver "desconforto" por parte de colegas da bancada. Segundo o senador, o assunto foi debatido em reunião interna e as manifestações foram favoráveis à recondução de Gurgel, por ter o respaldo do Ministério Público e ter sido indicado por Dilma.

 

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