Análise: Por um otimismo prêt-à-porter

Carlos Melo, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 02h01

Erro afirmar que o atual PT está morto - o antigo, sim, ficou no passado -, com o poder que detém, o pulso ainda pulsa. Mas é inegável que chega bem abalado ao 5.º Congresso. O enfraquecimento é real. O partido não exibe o tradicional vigor; não mobiliza militância, seus líderes estão desgastados. A legenda está sem discurso, argumentos e perspectiva política; encurralada do ponto de vista ético. Contudo, não está morta, ainda que agonize e prenuncie o fim de um ciclo.

Vertiginosamente, os erros se conciliaram num desastre. O clima agressivo da eleição deixou marcas na sociedade, que Dilma não soube remover após a vitória; a seca econômica revela que o oásis era miragem; o ajuste fiscal - inevitável para o governo e fatal para o partido - faz ironia: o jesus escolhido para tirar o Planalto da cripta, Joaquim Levy, é judas no PT, mesmo sem ter beijado ninguém. Com justiça ou não, a Operação Lava Jato pesponta e arremata a etiqueta da corrupção. A perda do controle no Legislativo piorou tudo.

Lograda, a antiga militância retira-se das ruas e das redes. Nunca antes na história desse partido se poderia supor um governo do PT com 13% de aprovação. O futuro tampouco é promissor: desemprego, queda de renda; mais denúncias: o cerco a Lula, a controversa relação com financiadores. Como ampliar ou pelo menos manter as prefeituras petistas, ano que vem?

O militante profissional, agarrado a governos e gabinetes, precisa reverter expectativas: um inimigo para chamar de seu e um discurso fácil, sob medida. O velho maniqueísmo. Depois, convencer a base de que o pior passou. E assim, descartar críticas e apostar num otimismo prêt-à-porter que, entre bikes e anúncios de concessões, o marketing oficial tenta esboçar. É tarefa acreditar e, no mais, torcer!

 

Carlos Melo é cientista político e professor do Insper

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