Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Por emendas de R$ 2 bi, Centrão trava votações do governo

O recado foi dado nesta quarta-feira ao presidente Jair Bolsonaro durante um almoço no Palácio do Planalto

Renato Onofre, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 05h00

Correções: 21/11/2019 | 10h21

BRASÍLIA - Os líderes partidários do chamado “Centrão”, grupo de partidos formados por DEM, PP, PL, Republicanos e Solidariedade, travaram as votações do governo até que o Palácio do Planalto libere as emendas ainda não pagas pela votação da reforma da Previdência. O movimento foi apoiado pelo MDB, PSDB, Podemos e outras legendas. A dívida gira na casa dos R$ 2 bilhões.

O recado foi dado pessoalmente ao presidente Jair Bolsonaro durante um almoço no Palácio do Planalto, na tarde de ontem, com a presença do líder do DEM, Elmar Nascimento (BA); do presidente do Solidariedade, Paulinho da Força (SP); do deputado Cláudio Cajado (PP-BA) e outros dois senadores.

Assim que ouviu a reclamação, o presidente questionou o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, sobre o valor devido. O ministro foi lacônico. Disse a Bolsonaro que se trata de R$ 2 bilhões prometidos dentro do pacote oferecido pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, em abril. Para aprovar a Reforma da Previdência, Onyx prometeu destinar, além das emendas obrigatórias, um extra para cada deputado federal que votar a favor da reforma da Previdência no plenário da Câmara.

Nas últimas semanas, Ramos tem percorrido gabinetes da Câmara dos Deputados tentando convencer as lideranças políticas que o governo não tem, no momento, capacidade de arcar com todas as promessas. Os deputados ouvidos pelo Estado afirmam que o ministro defende publicamente que as promessas são “impossíveis de serem cumpridas”, dada a atual situação financeira do País.

Não é a primeira vez que os deputados cobram do governo o pagamento de emendas prometidas. Em outubro, o Estado flagrou o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), coordenador da bancada do boi, cobrando o líder do governo na Câmara. Os dois sentaram sozinhos na segunda fila do Plenário da Câmara. Alceu, visivelmente irritado, cobrou.

“Eu tenho uma proposta oficial do governo. Foram eles que me disseram: Alceu, tu tem isso, isso e isso. E agora não tem mais?”, reclamou o deputado.

O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, argumentou que o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Ramos, estava tentando colocar as promessas em ordem, mas que algumas eram impossíveis de serem cumpridas este ano, por conta das restrições orçamentárias.

Alceu Moreira reagiu: “O que o Onyx (Lorenzoni, ministro da Casa Civil) prometeu não vale nada? Não, não, não”, afirmou completando.

Em reação à falta de pagamento, os parlamentares encerraram a sessão de ontem no Congresso sem votar um só texto. Os líderes do Centrão ameaçaram derrubar cinco vetos do presidente e não liberar o crédito extra pedido pelo governo, enquanto não forem pagas as emendas devidas.

Entre os vetos, estão os 14 feitos pelo presidente Jair Bolsonaro à minirreforma eleitoral. Partidos de centro e oposição fecharam um acordo para derrubar seis deles. Entre os pontos que podem ser alterados, está o que abre brecha para um aumento do fundo eleitoral a critério dos parlamentares.

Dirigentes também condicionam destravar a pauta à liberação de mais recursos para a campanha do ano que vem. O valor destinado pelo governo paras as disputas de prefeitos e vereadores em 2020 é de R$ 2,5 bilhões. Os deputados querem R$ 4 bilhões.

Cassinos

O líder do DEM, Elmar Nascimento, perguntou a Bolsonaro o que ele achava da possibilidade de regularização dos cassinos no País. O residente não emitiu opinião sobre o assunto, se limitando a falar que seria necessário, antes de qualquer discussão, consultar as lideranças evangélicas sobre o tema.

Um dos presentes afirmou que isso poderia afetar a imagem do Brasil, mas foi rebatido por Elmar. “A imagem do presidente é a economia”, disse o líder do DEM, de acordo com deputados presentes no encontro.

Na conversa, Bolsonaro reclamou ainda do “xiitismo” ambiental afirmando: “É um absurdo não poder plantar cana na Amazônia”, disse Bolsonaro, segundo interlocutores.

Correções
21/11/2019 | 10h21

Diferentemente do que foi inicialmente informado no texto, o deputado Paulinho da Força é presidente do Solidariedade, e não do PSL. O partido do deputado Cláudio Cajado é o PP, e não o DEM. As informações foram corrigidas.

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