Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Por Dilma, PT quer o 'máximo de composições'

É tendência do partido, diz seu presidente, Ricardo Berzoini: mais alianças e menos candidaturas próprias

Daniel Jelin, do Estadao.com.br,

20 de julho de 2009 | 13h21

O PT é historicamente o partido que mais lança candidatos a governador, mas tem uma das menores taxas de sucesso. O cientista político Rafael de Paula Santos Cortez chama a atenção para este dado em sua tese de doutorado e a entende como parte de uma estratégia de nacionalização das candidaturas à Presidência, que exigem palanques em todos os Estados. Em 2002, quando Lula foi eleito, o partido disputou o governo de 24 Estados e venceu em apenas 3. Para efeito de comparação, seu oponente no plano nacional, o PSDB, buscou a metade dos Estados (12) e venceu em mais que o dobro (7). O presidente do PT, deputado federal Ricardo Berzoini (SP), reconhece a estratégia de subordinar a disputa nos Estados à eleição presidencial, mas ressalva: "às vezes não é estratégia, é contingência". De qualquer forma, para 2010, o partido espera mais coligações estaduais como forma de turbinar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. "É uma tendência para um partido que amadurece: que haja mais alianças que lançamentos de candidaturas próprias", diz. Sabe que não é fácil. "É aquela história que dizem: 'aliança boa é no outro Estado'"

 

 

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Como você enxerga a estrutura partidária do PT?

 

Ricardo Berzoini: É uma estrutura em construção ainda. O PT, que cresceu fortemente nos últimos 10 anos, está em processo de expansão e merece uma melhoria qualitativa, com maior organicidade na relação entre os diretórios nacional, regionais e municipais. Uma medida que a gente tomou esse ano que é ter um sistema nacional de formação política permanente, vinculado à vida partidária, ou seja, que não discuta apenas as questões conceituais da política mas que faça abordagem dos temas do momento: debate sobre economia, reforma política, direito trabalhista, relações internacionais. É uma ferramenta importante para atuação dos diretórios.

 

O que você achou da decisão do PSDB de adotar as prévias para a escolha de seu candidato a presidente?

 

A prévia é um instrumento importante quando o partido não consegue chegar a um acordo sobre candidatura, seja no plano municipal, estadual, nacional. É óbvio que a prévia só deve ser usada quando superado todo esforço para o consenso. Quando outros partidos adotam algo que já está no estatuto do PT há muito tempo, acho que é uma demonstração que essa reflexão sobre a democracia interna nos partidos atinge a todos.

 

Conforme um estudo, a adoção da eleição direita dentro do PT, em 2001, permitiu ao grupo de São Paulo aumentar o seu poder, uma vez que São Paulo tem o maior número de filiados.

 

A proporção de filiados do PT em São Paulo não é muito diferente da proporção do eleitoral de São Paulo no plano nacional. É uma reprodução do que é a distribuição da população brasileira. A cúpula do partido depende de ter representação real de base. Nós não somos um partido que define seu diretório a partir de mandatos de deputados, governadores, prefeitos. Quem elege nosso diretório é o filiado. É o único partido. Qualquer cúpula só sobrevive com apoio da base.

 

Como você enxerga a oscilação do número de filiados?

 

O número de filiados do PT cresceu nos últimos 10 anos. O que teve agora mais recentemente foi um ajuste de filiações que constavam burocraticamente do cadastro mas que não tinham nenhuma relação com o partido e foi dado baixa. Entre 2007 e esse ano, deve ter um crescimento de 30% dos filiados. O dado do TSE é meramente burocrático. Não serve de referência para vida real do partido. A vida real do partido se reflete nas pessoas que participam em algum nível do partido. Estar meramente cadastrado porque se filiou há 20 anos atrás e nunca mais manteve relação com o partido não é base de referência. Nós tivemos eleição em 2007 e 2005, nas duas tivemos a participação de 315 mil filiados. Esses são aqueles que de fato têm uma relação viva com o partido. Temos outros 600 mil no cadastro. Mas é simplesmente gente que se filiou em algum momento. Ou não tem qualquer tipo de afinidade real ou teve e não tem mais. Para nós o que vale é aquele que participa efetivamente do partido.

 

Ao longo das eleições, o PT tem lançado muitos candidatos a governador - mais que outros partidos -, mas com uma taxa de sucesso menor. Essa é a estratégia para 2010?

 

Isso às vezes não é estratégia, é contingência. Em algumas situações você lança candidato porque não conseguiu construir aliança com outros partidos por divergências políticas. Em outros casos, é estratégia de crescimento partidário, de consolidação de um nome no plano estadual. Em 2010, o que vai pautar muito o PT é a discussão sobre a prioridade da eleição da Dilma Rousseff. Essa é a prioridade fundamental. Evidentemente, a direção nacional do partido vai fazer um esforço junto aos Estados para que haja - sem criar artificialismos - mais alianças que em 2006, quando já tivemos mais aliança que 2002. Há uma tendência para um partido que se consolida e amadurece, que haja mais alianças que lançamentos de candidaturas próprias. No crescimento do partido, havia mais esse desejo de lançar candidatos. Muitos candidatos nossos tiveram numa primeira eleição 3%, 4% dos votos e depois, repetindo a candidatura, subiram 15%. Alguns, como Jaques Wagner e Ana Júlia, se tornaram governadores (da Bahia e do Pará, respectivamente). Ou seja, você tem um acúmulo político. E as eleições fazem com que os nomes sejam conhecidos.

 

Como as bases do PT enxergam hoje essa movimento de subordinar a disputa nos Estados à da Presidência?

 

Com muita compreensão. Em cada Estado, tem uma discussão diferente, mas percebo que há um consenso que a prioridade para o PT, que já governa o Brasil, é continuar governando. Portanto, sem prejuízo das aspirações legítimas nos Estados, nós vamos trabalhar para buscar o máximo de composições possíveis. A base entende essa linguagem com tranquilidade. Óbvio que na hora de materializar em cada Estado tem as dificuldades naturais. É aquela história que dizem: aliança boa é no outro Estado, não no meu (risos)!

 

É por aí que deve ser entendido o ensaio de lançar Ciro Gomes em São Paulo?

 

Em São Paulo, tem gente com as mais variadas opiniões. Tem muita gente que acha que o diálogo com Ciro Gomes é importante, independente de dar certo ou não. Tem gente que acha não, que o PT deve ter candidato própria. É um debate em curso. Isso também acontece no Rio de Janeiro, onde uma parte defende aliança com o governador Sérgio Cabral (PMDB), e outra, na minha opinião minoritária, que defende o lançamento de Lindberg Farias. Isso acontece também em alguns Estados em relação ao Senado. Há Estados em que nós estamos defendendo que o PT priorize a candidatura a governo e negocie as vagas ao Senado, aí o cidadão fala 'não, mas é importante que pelo menos uma das vagas seja do PT!'. É da vida partidária. É natural. E administrável.

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