Popularidade de Dilma deve resistir à inflação em alta

Enquanto a oposição aposta que o retorno da inflação pode ser o calcanhar de Aquiles do governo da presidente Dilma Rousseff (PT), cientistas políticos e analistas econômicos consultados pela Agência Estado acreditam que a alta dos preços não deve atingir a popularidade da petista, pelo menos nos próximos meses. As primeiras avaliações do novo governo, divulgadas em março e abril, mostraram que Dilma foi bem avaliada por 56% dos entrevistados do Ibope e por 47% dos consultados pelo Datafolha.

DAIANE CARDOSO E MARCÍLIO SOUZA, Agência Estado

12 de maio de 2011 | 18h00

"A inflação é um perigo para a popularidade do governo Dilma, mas ainda há tempo para se estancar esse processo", avaliou o cientista político da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Abrucio. Ele acredita que, enquanto a economia estiver aquecida, o tema será alvo de preocupação apenas entre os economistas. "A inflação é preocupante, mas não é crítica. Dilma vive uma lua-de-mel com os eleitores, a popularidade só será atingida se acontecer algo catastrófico", avaliou Abrucio.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, também aponta que a inflação pode matar a popularidade de qualquer presidente, mas destaca que a questão principal é o nível. O economista exemplificou com a Argentina: "Mesmo com inflação de 30% e clara manipulação dos índices, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, é popular e pode ganhar a eleição este ano". No caso brasileiro, ressaltou ele, uma inflação de 6,5% em vez de 4,5% não seria suficiente para prejudicar significativamente a popularidade da presidente, especialmente se outros ganhos ainda são evidentes.

Nesse sentido, o maior risco que Dilma enfrenta, na avaliação de Vale, é o de descuidar da inflação e depois ter que sacrificar muito a atividade para fazer com que os níveis inflacionários voltem para o centro da meta, que é de 4,5%. De todo modo, o economista-chefe da MB Associados aponta que será difícil que a situação inflacionária saia do controle. "Teria que haver uma série de choques de oferta e demanda para isso acontecer", disse ele. "Enfim, não me parece que a seara econômica infligirá perda de popularidade à presidente. Problemas econômicos graves não me parecem ser o cenário básico que vá atrapalhar seu governo nesses quatro anos", afirmou.

Aperto

Embora os consumidores já tenham se dado conta de que os produtos estão mais caros, a inflação é um fenômeno a ser percebido pelo cidadão comum em longo prazo, explica o cientista político Humberto Dantas. "As pessoas sabem que os preços estão altos, mas o cidadão tem a impressão de que consegue acompanhar. O brasileiro até aceita variações sazonais nos preços, o problema é o salário não acompanhar o aperto", complementou, destacando que uma das principais preocupações do cidadão comum é com o emprego. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego de março ficou em 6,5%, índice considerado baixo, enquanto indicadores de renda seguiram em alta.

Apesar da boa previsão para o governo Dilma, Abrucio adverte que se forem mantidas as taxas de inflação de hoje, nos próximos dois anos isso será um problema. "A longo prazo a inflação pode ser avassaladora para a popularidade", emendou Dantas.

Já o professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e analista político da Tendências Rafael Cortez aponta que a inflação é um condicionante importante para a popularidade da presidente e para o bom andamento do governo, mas pondera que o cenário hoje é muito diferente do vivido na década de 1980.

Naquela época, quando o País enfrentava uma hiperinflação, esse problema impactava a imagem do governante de maneira muito mais rápida. "Hoje, o que se tem é uma pressão inflacionária, que para boa parte dos analistas é fruto inclusive de choques externos, e seu efeito se dá de forma mais paulatina. A popularidade da Dilma não vai despencar amanhã ou depois por causa da inflação", explicou.

Na avaliação de Cortez, o maior efeito no curto prazo se daria de maneira indireta; ao ocupar o centro do debate no legislativo, a inflação poderia dificultar o encaminhamento de outras questões importantes para o governo, como a reforma tributária, para as quais o capital político da presidente é fundamental. Com relação à inflação, ele aposta ser pouco provável que a oposição suba o tom contra, principalmente porque carece de um discurso único. "No governo, todo mundo fala basicamente a mesma coisa. Essa uniformidade não existe na oposição e, como não há, eles não terão a capacidade de bater firme na inflação".

Frustração

Na opinião de Dantas, ao se agarrar na volta da inflação como argumento para questionar a eficiência do atual governo, a oposição corre o risco de se frustrar, como aconteceu na crise financeira de 2008. Na época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a crise de "marolinha", o que foi condenado por PSDB e DEM. Meses depois, o governo conseguiu contornar a crise. "A oposição não pode apostar em problemas sazonais, não pode viver de torcida. Ela tem que se consolidar com um discurso consistente", afirmou Dantas.

Para o cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, Fábio Wanderley, acreditar que o retorno da inflação ajudaria a "ressuscitar" os partidos de oposição pode passar a imagem de que eles estão torcendo contra o País. "Como não sobrou quase nada da oposição, pois essas legendas enfrentam problemas sérios, eles estão apostando no que dá. É uma aposta precária", avaliou.

De acordo com os cientistas, as próximas pesquisas, a serem divulgadas até o final do primeiro semestre, não devem refletir a preocupação da população com a alta dos preços. Eles apostam que Dilma manterá os altos níveis de aprovação popular indicados nos primeiros dias de governo.

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