''População está cansada da velha cultura do acordo'', afirma Marina

Ela aceita discutir alianças, mas quer respeito a programa e rejeita caciques

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

A senadora Marina Silva vai se reunir nos próximos com a direção nacional do PV, partido ao qual ela acaba de se filiar. O principal ponto da agenda será a política de alianças partidárias que está sendo articulada, com vistas às eleições presidenciais de 2010. A senadora defende as alianças, que podem resultar num tempo maior de exposição na televisão, mas ressalva que não se pode esquecer nunca os limites programáticos.

Ela não quer alianças entre caciques políticos. "A população está cansada dessa velha cultura na qual as pessoas acham que basta fazer o acordo com o dono do partido, o dono do município", disse.

Esse foi um dos temas abordados pela senadora em entrevista concedida ao Estado, cujos principais trechos são reproduzidos a seguir.

O PT E A QUESTÃO AMBIENTAL

"Coordenei a preparação dos dois últimos programas de governo do PT na área ambiental. A recomendação era para que a questão fosse tratada como mais um capítulo do programa. Mas a minha compreensão é de que se trata de uma questão estratégica, transversal a todas as ações de governo. Não é um apêndice, mas a base sobre a qual você pensa a política energética, a política de transporte, a infraestrutura urbana, o saneamento básico, as ações de inovação tecnológica, a produção de conhecimentos, os incentivos econômicos, a reforma tributária."

PARTIDOS

"De maneira geral, os partidos receiam a questão ambiental. Avançaram em relação ao atendimento das necessidades básicas da população, mas não na área ambiental. O tema está presente na sociedade, na academia, nas empresas, nas ONGs, nos empregos, mas dentro dos partidos ainda não é visto como questão estratégica. Eles ainda não perceberam que o grande desafio do século é integrar meio ambiente e desenvolvimento numa mesma equação."

BANCADA RURALISTA

"Perguntam se temo a bancada ruralista no Congresso. Acho que nosso maior temor deve ser em relação à resistência em reposicionar o agronegócio brasileiro em direção a uma economia sustentável. Se chegarmos em 2020 sem o dever de casa feito minimamente, vamos ser forçados a nos adaptarmos às novas regras, sem ter tido tempo necessário para fazer o trânsito. O consumidor hoje quer mais do que um objeto de consumo. Quer que esse objeto o satisfaça do ponto de vista do consumo, mas também do ponto de vista de suas expectativas de um mundo melhor."

PROBLEMAS INTERNOS DO PV

"Só me dispus a uma discussão com o PV porque já estava em curso um processo interno de reestruturação partidária e revisão programática. Hoje existe uma determinação para que as pessoas que sejam candidatas pela legenda tenham clara identificação programática."

PROGRESSO

"Frequentemente, quando eu afirmo que o agronegócio deve se adaptar às questões ambientais, trabalhistas e sociais, dizem que estou contra o progresso e o crescimento econômico e fazendo o jogo dos concorrentes. Pelo contrário, os que fazem a agricultura não sustentável é que fazem o jogo dos nossos concorrentes, porque a gente perde uma série de oportunidades. É o caso do etanol brasileiro, que já deveria estar certificado, para deixar claro que estamos produzindo etanol respeitando normas de segurança alimentar, as legislações trabalhista e ambiental. Nós poderíamos dar um termo de referência para o mundo. Mas não. A gente ainda permanece refém de uma visão atrasada, uma visão do século 19."

ALIANÇAS POLÍTICAS

"Qualquer aliança política tem de ter um forte compromisso programático. Isso é o que importa. Temos de ter muito claro que os fins não justificam os meios. A população está cansada dessa velha cultura na qual as pessoas acham que basta fazer o acordo com o dono do partido, ou dono do município, ou dono do Estado. Talvez seja hora de fazer alianças com as pessoas, com os cidadãos, os jovens, os idosos, as crianças, a academia, os formadores de opinião. O PV, diferentemente dos demais que já anteciparam esse debate, está sinceramente disposto a discutir essas questões em 2010."

DESMATAMENTO

"O próprio ministro da Agricultura já disse que podemos dobrar a produção no País sem derrubar mais a florestas - que hoje é mais rentável em pé do que derrubada. Precisamos potencializar o uso das áreas que foram abertas. Só na Amazônia já existem 165 mil quilômetros quadrados de áreas abandonadas. O problema é que as pessoas querem ser os maiores produtores de carne e de grãos do mundo utilizando as práticas de coivara dos índios, destinadas a uma prática de subsistência, para uma população de no máximo mil pessoas."

DESERTIFICAÇÃO

"Se a Amazônia for destruída, as regiões Centro-Oeste e Sudeste podem virar um grande deserto. Alguém, em sã consciência, pode defender propostas que levem a região mais populosa do País a se transformar num deserto?"

EMPRESÁRIOS

"Existem empresários que estão chamando as ONGs para ajudá-los a certificar sua produção. Alguns pecuaristas já trabalham com pecuária certificada, apresentando índices de produtividade maiores que na pecuária convencional, além de gerarem muito mais empregos."

CONGRESSO

"Espero que esse Congresso seja mudado em 2010. Espero que a sociedade brasileira surpreenda. As pessoas não podem esperar que o Senado e a Câmara debatam adequadamente as grandes questões do País se, não na hora de votar e de fazerem suas escolham, não refletirem."

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