População bate na porta da prefeitura

Prefeito pretende cobrar da gerência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) informações claras sobre as obras

Leonencio Nossa - O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 19h24

O prefeito petista Isaac Gomes Junior mobilizou, nos últimos dias, colegas dos municípios da região leste do Cariri para cobrar da gerência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) informações claras sobre as obras do canal do São Francisco. Ele pretende ir junto com outros prefeitos em breve ao Ministério do Planejamento. "Precisamos de respostas mais concretas para tranquilizar as pessoas", afirma ele.

Desde abril, a prefeitura de Mauriti (CE) virou centro de peregrinação de demitidos das obras do consórcio da transposição das águas do Rio São Francisco, que repassou R$ 1 milhão em impostos, no ano passado, para a prefeitura. Nas primeiras horas da manhã, trabalhadores chegam para pedir passagem de volta a seus Estados, bilhetes para São Paulo, cestas básicas e remédios.

O prefeito diz que preferia perder os impostos do que as ofertas de trabalho. "O impacto é grande não apenas na economia, mas especialmente na área social", afirma. "Não tenho otimismo de resolver o problema das pessoas sem o retorno das obras."

Hospital. Sem dinheiro na praça, o hospital filantrópico da cidade que dependia de contribuições corre risco de fechar. Dos 135 leitos, 80 ainda estão em funcionamento. A chegada de trabalhadores de fora só aumentou a demanda do hospital. Gomes avalia que as invasões e saques no comércio e escolas de agricultores famintos em tempos de seca parecem ser imagens do passado. "Não podemos deixar de enaltecer os avanços ocorridos nos últimos anos, mas a figura do boia-fria é uma realidade visível", observa o prefeito.

Cativeiro. Os paus de arara tinham desaparecido desde o início das obras do canal, em 2009. A volta deles, agora na versão micro-ônibus, trouxe angústia e a sensação de retorno ao cativeiro, como os nordestinos se referem, desde os tempos da escravidão, às épocas de dificuldade. "O pátio de máquinas paradas no canteiro dá tristeza na população", afirma o prefeito. Ele sugere até a "estatização" da Delta. "É uma empresa que de repente passou a dominar todo o Estado, com contratações na área de lixo, de rodovias", observa Gomes Junior. "Cada empresário tem sua forma de ser ganancioso."

O canteiro da Delta em Mauriti ainda não é alvo de investigação. O Ministério Público Federal, no Ceará, já avalia possíveis irregularidades cometidas pela empresa nas obras de asfaltamento e recuperação das BRs 020, 222 e 116 e na construção das pontes sobre os Rios Jaguaribe e Cocó. As primeiras conclusões indicam que a construtora causou um prejuízo de pelo menos R$ 5 milhões apenas em fraudes nas licitações das rodovias federais que cortam o Estado.

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