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Ponte para o passado

Quanto mais se aproxima do precipício, mais velocidade o PT imprime à caminhada em direção à queda. Queima caravelas e parece querer construir uma ponte para o passado, comportando-se como o partido que perdeu três eleições presidenciais antes de vencer quatro vezes consecutivas a partir de uma reformulação de imagem.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2016 | 04h30

Os movimentos do partido, do governo e respectivas áreas de influência nas últimas semanas indicam a preparação de uma retirada absolutamente em desacordo com as práticas mais corriqueiras nem se diga do manual republicano, mas da civilidade, do bom senso e, sobretudo da lógica na perspectiva de quem não pretende abdicar da atividade política.

Nada do que dizem ou fazem a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva e seus correligionários guarda relação com a sensatez. Ao contrário, mais parecem personagens dos episódios da História Mundial relatados pela escritora americana Bárbara Tuchman sobre atos insensatos que levaram seus autores a construírem a trajetória das próprias derrocadas.

Vejamos alguns dos mais recentes exemplos da marcha da insensatez petista. Os discursos cada vez mais agressivos da presidente da República a levaram a contratar desafetos quando necessitava de todo apoio que pudesse reunir.

O incentivo à guerra de militantes, cuja culminância (por enquanto) deu-se na quinta-feira quando apoiadores do governo armaram barricadas em várias cidades, interditando avenidas, agredindo o direito de ir e vir da população a título de atrair “visibilidade” aos protestos contra o impeachment. Certamente não conquistaram adeptos à causa entre os “engarrafados”.

A fim de aproveitar seus últimos momentos, a presidente estava decidida a aproveitar a passagem hoje do Dia do Trabalhador para anunciar o chamado pacote de bondades como aumento nos benefícios de programas sociais e correção na tabela do Imposto de Renda. Por que não fez antes? Porque não há dinheiro. Mas, como a conta tudo indica será transferida para o sucessor, às favas com o ajuste de despesas.

A ideia de não fazer a transição para a futura administração denota o quê? Completa irresponsabilidade para com o País, nota dez em ressentimento e grau abaixo de zero no quesito espírito público. Há ainda o plano de reeditar campanha de eleições já, inexequível pela falta de previsão constitucional e de apoio no Congresso para aprovar a realização de um pleito extraordinário.

Para concluir, nem falemos sobre um pretenso périplo internacional para denunciar “o golpe”, porque deste já cuidou o Itamaraty ao se recusar, com senso do ridículo e conduta de Estado, a aderir a uma cruzada brancaleone.

Baião de dois. É fato que os 54 milhões de eleitores que reelegeram a presidente Dilma Rousseff o fizeram majoritariamente em apoio à campanha do PT. Não é verdade, porém, que o candidato a vice não os tenha recebido também. Assim como podemos raciocinar que alguns desses eleitores não tenham votado em Dilma por discordarem da aliança com o PMDB.

Todos sabiam que elegiam uma dupla. Quem votou em Aécio Neves o fez consciente de que escolhia o senador Aloysio Nunes Ferreira como o primeiro na linha de sucessão. Tal informação foi dada ao eleitor, inclusive na urna eletrônica. Um dos motivos pelos quais não faz sentido a alegação de que Michel Temer não teria a legitimidade do voto para governar.

A outra razão está no empenho do próprio PT em reeditar a parceria oficial com o PMDB firmada em 2010. E qual a motivação dos petistas? Valer-se da influência, do peso no Congresso, da presença e organização do partido com maior capilaridade no País.

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