''''Ponho a mão no fogo por Azeredo''''

Walfrido Mares Guia

Entrevista com

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

29 Setembro 2007 | 00h00

A 134 passos do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia (PTB), vive dias de angústia, sob fogo cerrado dos partidos da base aliada, ávidos por cargos, e também da Polícia Federal. Acusado pela PF de operar um intrincado esquema de caixa 2 e desvio de dinheiro público para a campanha de 1998 do então governador de Minas, Eduardo Azeredo (PSDB), Mares Guia não entrega os pontos. Com o apoio de Lula, diz estar ''''firme como uma rocha'''' e, ao contrário da maioria dos tucanos, sai em defesa do ex-presidente do PSDB, hoje senador.''''Ponho a mão no fogo por Azeredo'''', afirma. Sem acreditar no poder das labaredas políticas - ampliadas pelo fogo amigo do PT -, o ministro muda o semblante, porém, quando seu nome é associado ao chamado mensalão mineiro. Vice-governador de Minas na época em que Azeredo comandava o Estado (1995 a 1998), lembra que o tesoureiro Cláudio Mourão ''''já reconheceu'''' o caixa 2 na campanha de 1998, mas não assume a denúncia. ''''Eu não afirmo. Eu estou dizendo que o Cláudio Mourão disse que tinha'''', desconversa.Mesmo com o revés sofrido na quarta-feira por causa da rebelião do PMDB - que impôs grave derrota ao governo ao derrubar no Senado a criação de 660 cargos e da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo -, o articulador político do Planalto nega fragilidade e promete novas negociações. Para se defender, Mares Guia encomendou auditoria da Price Waterhouse na Samos, a holding que administra os bens de sua família, e enviará a papelada amanhã ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, que vai decidir se apresenta denúncia à Justiça contra ele e Azeredo. No seu diagnóstico, o relatório da PF foi malfeito. ''''Querem ver chifre na cabeça de cavalo'''', diz.A rebelião do PMDB no Senado, derrubando a medida provisória que criava a secretaria comandada por Mangabeira Unger , além de 660 cargos, tem tudo para contaminar as próximas votações da emenda da CPMF. Como o governo vai consertar isso?Não contaminará nem um milímetro porque o PMDB é um partido da base aliada, comprometido com a nossa coalizão e com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).Mas vai exigir mais cargos...Não. Vai me exigir mais trabalho (risos). O que me cabe aqui é evitar que problemas como esse aconteçam de novo. Eu estou disposto a conversar nesta semana com cada um dos senadores para procurar um entendimento. Tudo caiu por terra quando 16 votos da base aliada foram contra o governo. E não foi só no PMDB: o PDT também teve três contra, o PP teve um e o PR mais um. Mas a vida continua. Nem sempre a gente está com as antenas tão bem ligadas. Todo ministro engole sapos todos os dias.Na Câmara, o governo só conseguiu votar a CPMF depois de ceder. Além de cargos na Petrobrás, foram R$ 160 milhões em emendas parlamentares. Isso vai se repetir?O conjunto de emendas individuais ao Orçamento é de R$ 3,5 bilhões. As emendas são legítimas, legais e importantes. Estamos pagando para a oposição também.Fica a impressão de que a base aliada do governo só é movida por cargos e emendas...Essa é impressão sua, não é minha, porque eu fui deputado e sei como isso funciona. Seria uma coisa ridícula nós pagarmos R$ 160 milhões de emendas numa semana só porque a CPMF está sendo votada.Mas o senhor acabou atropelado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não? Dizem que ela atendeu aos pedidos do PT para nomeações na Petrobrás e na BR Distribuidora porque o senhor perdeu as condições para ser o articulador político...Isso é mais do que maledicência: é desrespeito à inteligência das pessoas. Dilma é uma grande companheira, uma das pessoas com as quais eu tenho maior amizade, depois do presidente, e os cargos da Petrobrás, Infraero e portos não entram na distribuição política.Como não entram? Provocaram até a revolta do PMDB...Isso não significa que os partidos não possam pleitear esses cargos. Podem. Mas não comigo. No caso da Petrobrás, por exemplo, eu não posso me comprometer a atender a esses pleitos.O senhor não acredita que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), comandou a rebelião e pode fazer isso de novo?Pelo contrário: é o melhor momento para o Senado mostrar - já que a Câmara aprovou em primeiro turno a CPMF - que a base aliada, na hora da dificuldade, está coesa e sólida.O relatório da Polícia Federal sobre o chamado mensalão mineiro não o fragiliza como articulador político do governo?Não, porque a Justiça e todas as instituições estão funcionando. Eu tenho plenas condições de desfazer os mal-entendidos ou insinuações que apareceram em relação ao meu nome.Ao contrário do que pediu o presidente Lula, dirigentes do PT não saíram em sua defesa. Houve até quem dissesse que o senhor é ''''problema do governo'''' e há petistas de olho na sua cadeira. O sr. vai tomar um banho de sal grosso para afastar o mau olhado?Não. Gente de olho nessa cadeira sempre teve. Como dizia meu querido amigo e hoje governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), que já ocupou o mesmo cargo, essa sala fica a 134 passos do gabinete do presidente. Então, muito me honra estar aqui. Eu não sou problema para o governo. Tenho recebido de membros do PT gestos de solidariedade, mas o partido não tem de dar solidariedade a ninguém.Se o senhor for denunciado pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, permanecerá no governo?Essa decisão não é minha, é do presidente Lula. Mas a denúncia não é julgamento nem culpa. É uma presunção de que pode haver algum problema. Quem tem de acatar essa denúncia, para ver se o problema existe, é o Supremo Tribunal Federal (STF). Se acatar, eu ainda tenho um fórum enorme para me defender. Estou firme como uma rocha.O senhor afirma que pagou do seu bolso, em 2002, uma dívida de R$ 500 mil da campanha de 1998 do então governador de Minas, Eduardo Azeredo. Por que fez isso?O Eduardo me ligou aflito, no fim de setembro de 2002, quatro anos depois de eu ter deixado o governo, dizendo que tinha sido protestado pelo Cláudio Mourão, que era o coordenador financeiro da campanha de 1998. Disse que tinha conseguido que alguém tirasse o título do cartório, mas precisava repor o dinheiro e faltavam R$ 500 mil. Ele me pediu emprestado, dizendo que tinha conseguido um crédito no Banco Rural. Três meses depois eu paguei o débito assumido por mim, com recursos que eu tinha num fundo de aplicação no Banco BNP Paribas.Mas esse dinheiro foi parar na conta do empresário Marcos Valério e há no relatório da PF a suspeita de que o senhor ajudou a montar o caixa 2 naquela campanha...Eu não sabia e só fui saber em 2005 - quando esse assunto apareceu e abriram as contas do Marcos Valério - que o cheque teria entrado na conta dele. Veja bem: teria entrado na conta dele, e não saído da conta dele para mim. Por quê? Porque foi ele que tirou o título do cartório. Ele era diretor da SMPB (agência de propaganda que tinha a conta do governo de Minas Gerais) e o Eduardo achava que (o valor pago) tinha sido pela SMPB.E por que o sr. não vai cobrar uma dívida de R$ 500 mil?Eu não preciso cobrar. Se ele puder me pagar algum dia, ele paga. Se não puder me pagar, não tem problema. Minha amizade e meu respeito a ele justificam isso.O senhor não captava recursos para a campanha de Azeredo à reeleição ao governo?Não. Eu era candidato a deputado federal pela primeira vez. Acompanhava as pesquisas, as tendências, as discussões temáticas do plano de governo, mas não tive envolvimento com a área financeira da campanha de Azeredo.Mas Azeredo disse que o senhor participava de tudo. O que ele quis dizer com isso?Ele quis dizer o que ele disse. Tudo o que um candidato faz numa campanha. Candidato não capta (recursos) em campanha. Quem capta é o tesoureiro. Candidato faz reunião e capta apoios.O mensalão mineiro foi o embrião do mensalão do PT?Não tenho como avaliar, porque não participei dessa estrutura econômico-financeira da campanha.O senhor nega que existiu um mensalão em Minas?Eu nego porque não conheço nenhuma prova. O que você está chamando de mensalão? Dar dinheiro para deputado para votar a favor do governo?Isso é uma coisa..Isso nunca aconteceu em Minas.E o caixa 2?O caixa 2 da campanha é outra coisa. O próprio Cláudio Mourão já reconheceu que houve caixa 2. Eu não participava de nada disso. Como é que eu ia imaginar uma coisa dessas?Então o senhor afirma que houve caixa 2 na campanha eleitoral de Azeredo em 1998.Eu não afirmo. Eu estou dizendo que o Cláudio Mourão disse que tinha.O que se convencionou chamar de mensalão mineiro não era só caixa 2. Era desvio de recursos públicos também....Isso eu desconheço completamente. Eu só li isso nesse relatório da Polícia Federal e, pela lisura do governador Azeredo, duvido que ele tenha se envolvido nisso.O senhor põe a mão no fogo por Azeredo?Eu ponho a mão no fogo pelo Eduardo Azeredo porque ele é um homem de bem, limpo e todo mundo que o conhece deveria pôr, porque sabe que ele é assim.Mas o PSDB não põe...Mas o PSDB não é pessoa. É coisa. Não é coisa no sentido depreciativo, é um partido. Mesmo que ele tenha cometido um erro, a gente tem que dar um crédito. Só quem foi candidato sabe o que é a vida numa campanha, porque você não controla as coisas que estão acontecendo ao lado.A Polícia Federal descobriu dois manuscritos seus detalhando repasses de recursos para aliados de Azeredo. Não é legítimo concluir que se tratava da montagem de um caixa 2?Não tem nenhum repasse. Nenhum. Qualquer pessoa que sabe o que é um orçamento jamais suporia que aquilo seria uma lista de pagamentos e recebimentos. Era uma estimativa grosseira, simplista, quase que um rascunho de um pré-orçamento da campanha. No segundo turno, como eu já tinha sido eleito, entrei para o comitê para ajudar, politicamente. Não podíamos deixar prefeitos e deputados desmobilizarem suas equipes no apoio ao Eduardo porque ele tinha saído em desvantagem (em relação a Itamar Franco, que acabou vencendo a disputa).Mas como o sr. diz que participava só politicamente da campanha, e essa lista contém estimativas de gastos, pode ficar uma dúvida...Fica a dúvida nas pessoas que querem ver chifre na cabeça de cavalo. Eu fui coordenador da campanha do Eduardo em 1994, quando fui candidato a vice dele. Como também fui da campanha de 1990 do então governador Hélio Garcia. Então eu entendia de campanha. Sou engenheiro, sou matemático. Sei lidar com números.O governador de Minas, Aécio Neves, também citado em uma lista como beneficiário de R$ 110 mil, disse que o mensalão mineiro não tem paralelo com o escândalo que veio à tona no primeiro mandato de Lula. O senhor concorda?Não tenho comentário a fazer. Meu nome apareceu nesse negócio porque eu emprestei R$ 500 mil para o Eduardo num momento de aflição. Fui execrado por ajudar um amigo.A PF obteve a quebra do sigilo bancário de sua empresa, a Samos, com o objetivo de rastrear a origem dos recursos usados para pagar o empréstimo do Banco Rural. Pediu também o aprofundamento da análise e constatou indícios de irregularidade tributária. Como o senhor responde a isso?Fizeram um trabalho malfeito. Inclusive reclamei e pedi à Receita que voltasse à minha empresa. Também contratei a Price Waterhouse para auditar minhas contas e mostrar que eu dispunha de recursos mais do que suficientes, com a melhor origem possível: a alienação das ações da empresa Biobrás.Agora, todos os partidos dizem que os tais recursos não contabilizados são coisa usual. O caixa 2 não acaba sem reforma política?Eu não responderia assim. Mas nós precisamos demais da reforma política. Ela sanaria todas essas confusões das campanhas, que uns chamam de mensalão, outros de caixa 2, disso ou daquilo... Esse disciplinamento das regras, sobretudo com financiamento público de campanha, ajudaria muito.

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