RICARDO BOTELHO/ESTADÃO
RICARDO BOTELHO/ESTADÃO

‘Político não é tudo igual’, diz diretora da Raps

Mônica Sodré defende fim da criminalização da política; evento foi parceria com o ‘Estado’

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 17h11
Atualizado 05 de setembro de 2019 | 10h20

BRASÍLIA –  O fim da criminalização da política no Brasil é fundamental para atrair novos candidatos nas eleições e estimular a participação mais ativa de jovens na política nacional. A avaliação é da diretora executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), Mônica Sodré.

“O primeiro passo é não criminalizar políticos. Não são todos iguais, não são todos ruins”, afirmou Mônica, durante o seminário Desafios da Democracia no Brasil: Inovação e Representação num Mundo Hiperconectado, realizado pela Raps e pelo Estado, no Senado, em Brasília.

O evento, mediado pela colunista do Estado Eliane Cantanhêde, foi aberto pelo diretor-presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto, e pelo presidente da Raps, Guilherme Leal. Polarização política, radicalização dos discursos e ambiente virtual contaminado por informações falsas foram alguns dos assuntos debatidos.

Para Mônica, os partidos políticos são “fundamentais para a democracia”. A Raps é uma organização não governamental que busca contribuir com a melhora da democracia e na formação de novos líderes políticos. Passou pelo grupo a deputada Tabata Amaral (PDT-SP).

A diretora da Raps destacou que o movimento não busca substituir os partidos. “Nosso trabalho é estimular discussões que olhem alguns temas de maneira suprapartidária, como as mudanças climáticas, por exemplo”, afirmou Mônica.

Para cientista político, polarização política remonta à agressividade

Também presente no seminário, o cientista político Fernando Guarnieri falou sobre a necessidade de defender a democracia e distinguir o comportamento de usuários nas redes sociais. Segundo ele, há a polarização ideológica, sobre temas, e a polarização afetiva, que remonta à agressividade.

Segundo ele, a sociedade brasileira não está politicamente polarizada e tende a manter seus posicionamentos ao longo do tempo. “O que está havendo é uma polarização das elites políticas, que apostam numa política que lança mão de difamação, realce de aspectos negativos, exploração de escândalos, tudo para criar sentimentos negativos em relação ao adversário. Isso não traz uma mudança direta no posicionamento ideológico do eleitorado, mas, sim, uma polarização afetiva. Temos que distinguir esses dois termos”, disse Guarnieri.

“Pessoas adotam um discurso do ódio, virulento, porque assim chamam mais atenção e criam vínculos fortes com seu grupo e cada vez mais acentuam uma apreciação negativa por parte do outro grupo. Temos que buscar reduzir essa polarização afetiva, mas não a ideológica, que é boa para a democracia, pois, quando os políticos assumem uma posição, ajudam a distinguir melhor as propostas e seus pontos de vista.”

Ainda segundo o cientista político, é essa polarização afetiva que não permite o diálogo e é explorada pelo populismo no mundo todo. “Na polarização afetiva, um grupo não conversa com o outro, quer aniquilá-lo. É isso que o populismo faz, força limites da democracia e da civilidade, com posturas incivilizadas nas redes”, disse.

Para deputado, financiamento público das campanhas é pilar da democracia

Alvo de críticas, o financiamento público das campanhas eleitorais é um dos pilares da democracia, avaliou o deputado Tadeu Alencar (PSB-PE), um dos debatedores. “Embora haja uma reação ao fundo eleitoral, a democracia custa caro. O financiamento privado (empresarial) não é um problema em si, mas permitiu uma adulteração do processo eleitoral brasileiro”, disse o parlamentar, referindo-se à prática de caixa 2.

Para ele, as doações de empresas podem ser legítimas e republicanas, mas vinculam o político e seus posicionamentos a grupos econômicos. “Infelizmente, ainda não conseguimos traduzir para a sociedade que o financiamento público tem tudo a ver com a qualidade da democracia.”

Alencar defendeu uma maior transparência no financiamento de campanhas. “Acho que os partidos devem compreender a necessidade de transparência no uso desses recursos. As regras de distribuição do Fundo Partidário devem ser discutidas na legislação. Hoje, os partidos fazem da maneira como convém”, declarou o deputado.

Mônica Sodré concordou. “No modelo de financiamento atual, cada partido decide sobre a divisão de recursos. Se o partido entende que um candidato é menos viável, ele recebe menos dinheiro, e, para as mulheres, isso é particularmente sensível”, disse.

A influência das redes sociais na eleição

O alcance das redes sociais e sua influência nas eleições também foi tema dos debates. Segundo o gerente de políticas públicas do Twitter no Brasil, Fernando Gallo, quase todos os líderes mundiais utilizam a rede social. Para ele, essa presença permite que mais vozes sejam ouvidas pelos governantes. “As pessoas podem concordar ou discordar, mas o fato de que isso acontece à luz do dia pode ser uma força positiva para as democracias”, afirmou Gallo.

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