Políticos de MT são suspeitos de ligação com bicheiro

Os ministérios públicos Federal e Estadual investigam a ligação de deputados estaduais, federais, ex-secretários de Estado e prefeitos de Mato Grosso com o bicheiro João Arcanjo Ribeiro, o Comendador, e o empresário Valdir Piran, foragidos desde 5 de dezembro de 2002. Os dois, de acordo com as investigações, teriam praticado negócios ilícitos com empresas de factoring (sociedades mercantis que compram cheques por valores mais baixos que os de face), ao fazer empréstimos a pessoas físicas. A fortuna dos ex-sócios e atuais rivais está avaliada em R$ 1,1 bilhão, segundo a Justiça Federal.Documentos apreendidos nas casas e nas empresas de João Arcanjo e Valdir Piran mostram cheques e promissórias em nomes de políticos. Só em uma das dezenas de caixas e documentos que lotam um andar inteiro do prédio da superintendência da Polícia Federal em Cuiabá, foram encontrados três cheques de R$ 348 mil cada, de 20 de novembro de 2000, assinados pelo presidente da Assembléia Legislativa, Humberto Bosaipo (PL), pelo primeiro-secretário, José Riva (PSDB), e pelo secretário de Finanças, Guilherme Garcia. Os deputados José Riva e Humberto Bosaipo assinaram 22 notas promissórias, no valor de R$ 700 mil cada, entre 1999 e 2000. As promissórias totalizam uma dívida de R$ 15,4 milhões com as nove empresas de factoring de João Arcanjo. Nas caixas também foram encontradas várias fotos de deputados estaduais de Mato Grosso com João Arcanjo Ribeiro. "Nós sabemos que a empresa de factoring é um negócio absolutamente lícito. No entanto, no Estado de Mato Grosso, muitas delas vêm sendo utilizadas como se instituições financeiras fossem para emprestar altas quantias e, também, nós entendemos, para fazer lavagem de dinheiro", afirma o procurador federal Pedro Taques. Fita de vídeo divulgada pela Polícia Federal em Cuiabá comprova o envolvimento de deputados com o bicheiro. Na fita, numa festa de 50 anos, em um restaurante de Cuiabá, o deputado José Riva, deputado reeleito mais votado no Estado, diz que o ex-policial que acumula fortuna com o jogo do bicho e contravenção há duas décadas, é "um exemplo de pessoa para Mato Grosso". "É uma pessoa que tem muita competência. Eu tenho certeza que Mato Grosso se orgulhará do Comendador Arcanjo", diz ele na fita.As investigações do Ministério Público Federal apontam João Arcanjo como o chefe de uma rede criminosa em Mato Grosso com ramificações em vários Estados. Ele é suspeito de tráfico de drogas, contrabando de armas, agiotagem e de chefiar o jogo do bicho no Estado. A quadrilha também é acusada de assassinatos. O Comendador é acusado de ter mandado matar o jornalista Sávio Brandão, dono do jornal "Folha do Estado", dia 30 de setembro. O crime teria custado R$ 500 mil, segundo depoimento de uma testemunha à Justiça Federal.Procurado pelo Estado, o assessor de imprensa da Assembléia Legislativa, Adriângelo Antunes, não retornou as ligações. O deputado José Riva nega que a Assembléia tenha realizado operações com empresas de Arcanjo. Riva pediu à secretaria Financeira da Assembléia que faça todo o levantamento de cheques emitidos e descontados em empresas de factoring, que segundo o Ministério Público Federal vêm funcionando no Estado como escritórios de agiotagem.

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