Políticos convocados a depor sobre morte de modelo

Mais três personagens importantes da política e do meio empresarial mineiros serão convocados para depor no caso da modelo Cristiana Ferreira, encontrada morta em um flat de luxo, na zona sul da capital mineira, em agosto de 2000. Os promotores da Vara de Execuções Criminais do Ministério Público afirmam que convocarão o vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso (PMDB), o chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, e o deputado federal Walfrido Mares Guia (PTB) - anunciado como futuro ministro do Turismo pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva -, para dar explicações sobre o envolvimento que cada um teve com a vítima. A mulher de Mares Guia, Sheila Mares Guia, também será convocada. O vice-governador, que está em Brumado, no sul da Bahia, acompanhando a mãe que apresenta problemas de saúde, disse que se for mesmo convocado pela Justiça irá se apresentar para depor, normalmente, adiantando que possui uma vasta documentação que comprova a sua ausência na cidade no período do acontecimento. "Aliás, nem conhecia essa modelo e nunca tive qualquer contato pessoal com ela. Não sei nem a cor dos cabelos dela", disse Cardoso, acrescentando que retornará a Belo Horizonte no próximo dia 26, quando se reunirá com seus advogados. Mares Guia, que passou o dia em Brasília, onde acompanhou o anúncio de seu nome para o Ministério do Turismo do governo Lula, disse que ficou perplexo com a convocação da promotoria e afirmou que o caso não passa de uma ?armação?, com o intuito de prejudicá-lo no momento em que ocupará um Ministério: "Estou sendo vítima de uma injustiça, de uma acusação falsa e leviana. Falei isso ao presidente (Lula) e ele me disse que confia totalmente em mim e na minha história de trabalho honesto, tanto na vida pública quanto na vida privada. É muita coincidência isso acontecer logo agora. Mas, tenho certeza que isso não vai ficar assim e o responsável por essa armação será encontrado".Sobre seu possível envolvimento com a modelo, Mares Guia revelou que a conheceu há seis anos, quando era vice-governador do Estado, no mandato do tucano Eduardo Azeredo. "Ela veio a mim, no Aeroporto da Pampulha, pedindo uma audiência. Três semanas depois, a recebi no gabinete do vice-governador, no BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais). Ela me disse que queria se mudar para Brasília e pediu a minha ajuda para lhe indicar num novo emprego. Apenas disse a ela que não podia ajudá-la, e nunca mais a vi", explicou o deputado. Conforme o promotor Luis Carlos Costa, "uma mulher teria feito ameaças à modelo". "Não existem suspeitos ainda. Só queremos mais informações para concluirmos o caso", limitou-se a dizer o promotor. Revoltado, Walfrido disse que envolver o nome de sua mulher, baseado numa "suposta ameaça de uma mulher qualquer" não tem cabimento. "A promotoria teve o desplante de envolver o nome da minha esposa nisso. É um absurdo envolver o nome dela. Farei de tudo para descobrir quem está por trás dessas acusações falsas e levianas", afirmou. Já Hargreaves, que também estava em Brasília, acompanhando o repasse de recursos referentes ao acordo para estadualização das rodovias federais, que garantiram o décimo-terceiro salário ao servidor mineiro, não quis comentar o assunto. As datas para o depoimento dos convocados devem ser marcadas após o dia 26, quando o Ministério Público retorna do recesso de Natal. Todos os citados poderão escolher a data. No início do mês, outra figura do primeiro escalão mineiro, o presidente da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Djalma Bastos de Morais, já havia sido ouvido pela Vara de Execuções Criminais do Ministério Público, acusado de ter recebido Cristiana em seu gabinete e de ter facilitado a promoção de dois irmãos da modelo, que trabalham na empresa. Nos pertences da modelo, foi encontrado um crachá da empresa, sem data de validade, e que lhe permitia acesso às dependências da Cemig. Na ocasião, Djama disse que recebeu a modelo por indicação do chefe da Casa Civil. O principal suspeito da morte da modelo, até agora, o ex-namorado e detetive particular Reinaldo Pacífico, prestou depoimento na última sexta-feira. Mas, segundo ele, durante o namoro, entre os anos de 1996 e 1997, a modelo não tinha nenhum envolvimento com o alto escalão da política mineira e que, por isso, não tinha nenhum motivo para cometer um crime motivado pelo ciúme. Informações de familiares da modelo dão conta que o namoro entre os dois foi turbulento e terminou depois de uma série de agressões sofridas por Cristiana, por parte do ex-namorado, que teria até feito imagens da casa e da rotina da modelo, sem que ela soubesse. Pacífico nega as acusações.Na semana passada, após exumar o corpo da modelo, o professor de Medicina Legal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Roberto Pereira Campos, divulgou um laudo onde aponta que Cristiana, na época com 24 anos, foi agredida antes de morrer. Seu corpo apresentava sinais de sufocamento. O laudo final da Polícia Civil, na época, apontou como causa da morte suicídio por ingestão de veneno para ratos. O resultado do laudo motivou a reabertura do inquérito pelo Ministério Público.

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