Política interfere em combate à violência no ES

Nove meses depois que uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontou Vitória como a segunda capital brasileira com maior taxa de homicídios entre jovens de 15 a 24 anos, os capixabas voltam a se surpreender com a violência. Dados do governo do Estado mostram que os homicídios na Grande Vitória cresceram 20% nos quatro primeiros meses deste ano em relação a 2000. Um quadro preocupante, agravado por disputas políticas."A atividade criminosa no Espírito Santo não é um fato isolado. São crimes conexos, protegidos por uma rede de cumplicidade que conta com ajuda no Judiciário, na polícia e nas principais instituições políticas", afirma o prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB).Em 1999 e 2000, Vellozo Lucas investiu R$ 600 mil em segurança, em convênio com o Estado. O dinheiro foi utilizado para a compra e recuperação de veículos, reforma de delegacias e para a realização de um mutirão para tornar mais ágeis os inquéritos. Por causa de uma disputa entre o governador José Ignácio Ferreira (PSDB) e o prefeito, ligado ao senador Paulo Hartung (PPS), inimigo político de Ferreira, o convênio foi desfeito no fim de 2000. Com isso, acabaram-se os mutirões.O subsecretário da Casa Militar do Estado, major Júlio César Costa, coordenador do Programa de Ações de Segurança Pública, admite que, quando o governador José Ignácio Ferreira assumiu, em 1998, havia 11 mil inquéritos parados. Costa garante que os inquéritos estão andando, mas o prefeito e o procurador-chefe da República no Espírito Santo, Ronaldo Albo, dizem o contrário. "Não há investigação. Isso explica em parte o aumento dos casos de homicídios", critica Albo.Vellozo Lucas cita como exemplo um levantamento de 1999. Naquele ano registraram-se 222 homicídios em Vitória, dos quais 75 transformaram-se em inquéritos e apenas 10 foram concluídos. Destes, dois viraram processos judiciais e apenas um foi a julgamento, com os réus condenados.Conselhos - Desde 1999, a prefeitura faz um monitoramento dos homicídios, com base nos dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram criados também sete conselhos regionais de segurança, em que moradores, polícia e prefeitura discutem, mensalmente, soluções para reduzir a criminalidade e a violência. As propostas são enviadas ao governo.Segundo a secretária de Cidadania e Segurança do município, Míriam Cardoso, a prefeitura pretende investir este ano R$ 200 mil na criação de conselhos de segurança e, principalmente, na contratação de advogados para prestar atendimento às famílias de vítimas da violência. "Tentaremos assim tornar mais ágeis inquéritos parados nas delegacias."Apesar das críticas, o major tenta ser otimista. "Lógico que esses números são preocupantes, mas nossa expectativa é fechar 2001 com redução de até 6% no número de homicídios em relação a 2000."Albo, porém, joga água fria no otimismo do coordenador do programa. "Claro que a violência em Vitória está ligada à pobreza e ao desemprego, mas ela passa principalmente pela ação de grupos especializados em extermínio e outros crimes, garantidos pela impunidade."Gratz - Em Vitória, mata-se basicamente por dois motivos: na periferia, por causa do tráfico de drogas e do desemprego, e nos bastidores da política, dominada por grupos que dividem o poder do Estado há decadas. No ano passado, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico pediu a cassação do presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz (PFL), considerado um dos líderes do crime organizado no Estado. Gratz, que continua presidindo a Casa, responde a seis inquéritos por corrupção e envolvimento no jogo do bicho. Os processos estão parados graças à imunidade parlamentar.

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