Política externa deve perder caráter 'presidencialista'

Leia entrevista com o brasilianista Timothy Power, professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra

Lucas de Abreu Maia/SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 17h08

O protagonismo brasileiro no cenário internacional está consolidado e não será muito afetado independentemente do pleito de hoje, opina Timothy Power, professor de estudos brasileiros na Universidade de Oxford e considerado um dos principais especialistas em política brasileira no exterior. "Na verdade, 90% da política externa é burocrática e a identidade do presidente não importa muito", afirma. Ele admite, porém, que falta carisma aos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e que inevitavelmente haverá, nos próximos quatro anos, uma "despresidencialização" da diplomacia brasileira. Em um balanço dos últimos oito anos, Power avalia que o lulismo consolidou uma forte base de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que, contudo, não se estende ao PT. "O partido cresceu pouco nos últimos oito anos", diz o pesquisador, acrescentando que há uma "esquizofrenia" no modelo partidário brasileiro. Leia abaixo a entrevista concedida ao Estado por telefone, na última terça-feira.

 

Na política externa - assunto mal mencionado durante a campanha - Dilma representa a continuidade da atual linha do governo, mais próxima de Hugo Chávez e do bolivarianismo continental. Serra deverá ter uma relação mais harmônica com os EUA e hostil a regimes autoritários, como Irã e Cuba. O que poderia haver de positivo e negativo em cada uma delas?

 

Tradicionalmente, a política externa tem pouco valor nas eleições brasileiras - não rende votos. Temos sinais muito frouxos, como você mencionou. Imagina-se que a Dilma vai continuar com uma orientação mais terceiro mundista, começada pelo Lula; e acredita-se que o Serra seguiria mais o molde de Fernando Henrique Cardoso, com relações mais estreitas com a Europa e principalmente com os Estados Unidos. Na verdade, 90% da política externa é burocrática, guiada pelo Itamaraty, e a identidade do presidente não importa muito. A gente vê o Lula abraçando o Ahmadinejad (Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã), ou falando com o Morales (Evo Morales, presidente da Bolívia), e isso mostra sinais de orientações abstratas. Mas as consequências diretas destas atitudes não são muito fortes para o eleitorado.

 

Lula intensificou uma diplomacia presidencialista, que Fernando Henrique praticava de modo mais discreto. No caso de Lula, porém, há quem diga que é mais pelo individualismo com que faz política que por um projeto nacional. O sr. concorda?

 

Não diria isso da mesma maneira. Acho que o Lula é um chefe de Estado e não se interessa tanto em ser um chefe de governo - ele delegava os detalhes da política doméstica para a Dilma e para outros ministros. O presidente gosta mais de cuidar da imagem do Brasil no exterior, mas não acho que seja personalista. O Lula sabe - como o Marco Aurélio Garcia, o Samuel Pinheiro Guimarães, o Celso Amorim também sabem - que ele encarna muito bem o tipo de poder intermediador do Brasil. Este poder deriva não só do tamanho do País, mas também da diversidade étnica, da inclusão social, da posição pacífica do Brasil nos conflitos internacionais Etc.. Mas sem dúvida o Lula faz uma diplomacia presidencialista, que começou com o Fernando Henrique. Foi o Fernando Henrique quem quebrou com a tradição brasileira de discrição presidencial. Mas o Lula intensificou muito esse processo, justamente porque gosta - como o Reagan (Ronald Reagan, ex-presidente americano) também gostava - do aspecto cerimonial do cargo. A bagagem pessoal do Lula é uma coisa bastante interessante, porque ele mostra uma nova cara do Brasil, por ser uma pessoa que veio de origem humilde - e isso contribui para vender a história do País no exterior. Principalmente na África. Os africanos realmente adoram o Lula, porque ele encarna a esperança de mudança social, que no Brasil está começando, mas que na África é mais distante.

 

O Brasil pode perder prestígio com a eleição de um presidente sem carisma - caso tanto de Dilma quanto de Serra?

 

Eu chamo o Lula de Bono (vocalista da banda U2) de barba. Ele é uma estrela de roque. Quando sair de cena, o Brasil perde um pouco dessa áurea de estrela que o Lula carrega. Nem Serra nem Dilma têm isso. Ganhe ele, ganhe ela, vai haver uma "despresidencialização" da política externa. Saindo o Lula, perde-se isso, mas sobram os aspectos de poder moderado do Brasil. As conquistas recentes da Olimpíada e da Copa representam essa estabilidade do Brasil no cenário internacional. Há vitórias - como a do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC)a respeito do algodão - que não têm nada a ver com o carisma ou o personalismo do Lula. Têm a ver com o suor e o trabalho dos diplomatas brasileiros, que são muito talentosos.

 

Como EUA, União Europeia e América Latina receberão a eleição de Serra ou Dilma?

 

Os observadores econômicos vêem poucas diferenças entre os dois candidatos, porque ambos são 100% comprometidos com as linhas gerais da política macroeconômica. É o que importa para os observadores estrangeiros. Obviamente que, se o Serra ganhasse, haveria pouco entusiasmo em Quito, Caracas ou La Paz. Mas acho que nos outros países não faz diferença. O Serra já morou na América Espânica por muito tempo, fala espanhol perfeitamente - tem outras vantagens para compensar a falta de afinidade ideológica. O Lula tem relações pessoais muito calorosas com os vizinhos mais controversos, tipo Morales , Chávez e Correa (Rafael Correa, do Equador). Ele pode até ser chamado pela Dilma para mediar essas relações com os vizinhos de vez em quando. Se a Dilma for eleita, ela precisaria do Lula mais com esses vizinhos que com Paris, Londres e Washington.

 

Parte do sucesso do Brasil no G20 durante a recente crise financeira se deveu aos bons fundamentos do País e a sua rápida recuperação econômica. É um sucesso fácil de ser preservado? Ou o Brasil, como os Brics, tende a perder espaço à medida que as grandes potências se recuperarem?

 

Naturalmente, o espaço do Brasil pode se contrair um pouco com a recuperação econômica (dos países ricos). Mas mesmo assim, as grandes potências vão ter aprendido com o Brasil. O País manteve, por exemplo, fortes bancos estatais durante a crise, que permitiram aumentar o investimento interno. o Brasil também não precisou de um plano de estímulo, porque as políticas sociais já exerciam a mesma função, de modo que durante a crise ainda havia crédito popular e gastos familiares muito fortes. O mundo descongelou um pouco com essa crise e não vai poder recongelar da mesma forma.

 

Muitos analistas entendem que os Brics são um grupo díspar e pouco coeso. Na opinião do sr., as relações do Brasil com China, Índia e Rússia avançarão ou sofrerão recuos?

 

Falando em descongelamento da ordem internacional, todos estes países têm esta agenda em comum. Então, existe uma aliança estratégica que pode durar no curto e médio prazo. Mas, ao longo do tempo, um desses países - a China - vai assumir um papel que deixará os outros à sombra.

 

Esta é a quinta eleição em que PT e PSDB se enfrentam diretamente. Muitos entendem que se consolida um modelo de bipartidarismo no Brasil. O sr. concorda?

 

Concordo que há uma esquizofrenia no sistema partidário brasileiro. PT e PSDB praticamente têm o duopólio dos votos presidenciais. É irônico que ao longo do ano a Marina Silva (PV) tenha prometido acabar com essa bipolaridade, mas seu próprio sucesso garantiu que o Brasil repita a mesma escolha binária. Se a disputa tivesse se encerrado no 1.o turno, as pessoas se lembrariam de que a Dilma teria vencido dois candidatos. Mas agora, se ela ganhar, a lembrança será de que enfrentou o PSDB. Contudo, o interessante é que no parlamento não se tem uma lógica bipartidária. Ao contrário: tem-se uma fragmentação muito forte. O que há são duas coalizões, uma capitaneada pelo PT e outra pelo PSDB. O PMDB é um partido promíscuo, ambivalente no sentido literal - as pessoas quase não se lembram de que a legenda ocupou a vice na chapa do Serra em 2002 e de que o Temer apoiou o Alckmin em 2006. Mas, tirando o PMDB, você pode enxergar facilmente essas duas coalizões, com aliados permanentes - o PT ligado aos pequenos partidos de esquerda e o PSDB junto ao DEM. Mas os partidos que oferecem as propostas e ideias são dois. O problema interno do DEM e do PMDB é que não têm presidenciáveis. Os grandes nomes destes dois partidos - Jader Barbalho, Renan Calheiros - têm peso político muito forte, mas não como candidatos a presidente.

 

É quase consenso de que haverá uma reorganização partidária em 2011. Diz-se que PSDB e DEM se unificariam e foi noticiado que o Lula estaria tentando fortalecer as pequenas legendas de esquerda. Como ficará o quadro partidário a partir do ano que vem?

 

Esta é uma conversa que se repete muito no Brasil depois de cada eleição - e nunca se concretiza. Dificilmente PSDB e DEM se tornarão um partido único, porque há máquinas estaduais e municipais nas duas legendas que irão resistir. Mas é muito provável que haja um declínio na importância dos paulistas dentro do PSDB. Todo o PSDB moderno vem da mesma experiência: o governo de Franco Montoro em São Paulo, nos anos 80. Este foi o ensaio geral do PSDB. Mário Covas, Fernando Henrique, Geraldo Alckmin e Serra, todos estavam nesse governo e depois formaram o PSDB. E este grupo pode perder três eleições consecutivas. Simultaneamente, surgiu outra máquina muito importante em Minas, com o Aécio Neves em 2002. O PSDB vai ter que se refundar a partir deste modelo. Acho que, ou o Aécio consegue levar adiante essa reformulação do PSDB, ou buscará outro caminho fora do partido.

 

O cientista político André Singer defende a tese de que o governo Lula teria funcionado no Brasil como o governo de Franklin Roosevelt nos EUA, na década de 30, com o New Deal, ao criar um novo consenso no eleitorado em torno da questão social. O sr. concorda?

 

Em parte. A tese ganhará força se o PT confirmar o favoritismo. Se a Dilma ganhar em 2010, a gente vai reinterpretar o resultado de 2002, porque este terá sido o grande ponto de inflexão. O New Deal construiu uma base partidária para os Democratas. Já o lulismo está consolidando uma base mais personalista do Lula, transferida para a Dilma, e não uma base partidária do PT. O partido não teve grandes ganhos nesses oito anos - elegeu mais ou menos a mesma quantidade de deputados nas três eleições. Mas houve uma expansão enorme da base pessoal de votos do Lula.

 

São apenas 25 anos de democracia no Brasil, num continente democraticamente ainda frágil e exposto a receitas autoritárias. Como a eleição deste ano se coloca, no que se refere ao fortalecimento das instituições brasileiras?

 

A consolidação da democracia ficou evidente muito antes desta eleição. A alternância entre Fernando Henrique e Lula foi muito importante, porque, a partir de 2002, é possível afirmar que todas as tendências políticas importantes tiveram chance de governar o Brasil. políticas importantes tiveram chance de governar o Brasil. Muita gente agora fala de alternância no poder. EU particularmente acho que, para que exista democracia, não é preciso alternância. É preciso que haja a possibilidade de alternância. Tem gente na oposição que fala em "mexicanização" do País, com a centralização do poder pelo PT. Não acho que o argumento tenha muito fundamento. Não existe um governo do PT no Brasil; existe um governo de coalizão, liderado pelo PT. E deve continuar assim em 2011, com dois partidos grandes e de oito a dez partidos médios e pequenos. Não há, hoje, nenhum forte ator antidemocrático no País. Se compararmos com 1989 - uma eleição muito apertada no 2.o turno entre Collor e Lula - dizia-se que, se o Lula ganhasse, talvez não tomasse posse, porque você tinha atores interferindo no jogo democrático de forma não muito democrática. Mas não se vê isso em 2010. Hoje as Forças Armadas não têm força praticamente nenhuma na política. E não tem nenhum eleitoreiro populista nessa campanha. Não se pode falar na erradicação do populismo na América Latina - não existe vacina contra o populismo. Sempre que houver uma brecha, um populista pode aparecer. Mas os países que têm menos espaço para isso são Chile, Uruguai e Brasil.

 

Mas o Lula poderia ter aproveitado uma dessas brecha, não?

 

Poderia, e não o fez. Não é correto chamar o Lula de populista. Populismo é uma postura intrinsecamente anti-institucional e o Lula não tem isso.

 

A campanha deste ano foi muito criticada por supostamente ter sido "despolitizada". Foi essa a sua impressão? Que grandes questões o Brasil devia estar discutindo e não discutiu?

 

Houve uma aproximação ideológica muito grande entre PT e PSDB na última década, e a população passou a perceber que as linhas gerais das políticas públicas não mudarão com a eleição. Toda a campanha do Serra foi uma aceitação da continuidade do Lula. O próprio slogan do Serra, "o Brasil pode mais", sinaliza que o País já está podendo. Ele simplesmente queria se posicionar como o melhor herdeiro do Lula - melhor que a Dilma. Quando as propostas são muito semelhantes, é natural que as campanhas comecem a focar em coisas irrelevantes. O aborto, por exemplo, nunca teve nenhuma importância nas eleições anteriores. Desta vez, o tema ganhou força porque tinha pouca coisa em jogo. Sei que os militantes tucanos e petistas discordariam fortemente de mim, mas acho que uma leitura mais fria mostrará que os candidatos não apresentam propostas muito diferentes. Acho, ainda, que a polarização na internet baixou um pouco o nível da campanha. Muitos dizem que isso ajuda a consolidar a democracia, porque as pessoas estariam opinando livremente. Mas a verdade é que não existe controle de qualidade.

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