Policial admite ter intermediado acerto com espiões

Silveira afirma ter sido procurado em janeiro pelo ex-assessor especial do governo do DF, Francisco Monteiro

Rodrigo Rangel,

10 Fevereiro 2010 | 12h18

Mais novo personagem da suposta espionagem contra deputados de oposição ao governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (sem partido), o policial Silveira Alves de Moura, 42 anos, admitiu em entrevista ao Estado nesta terça-feira, 9, ter intermediado a contratação dos dois agentes da Polícia Civil de Goiás suspeitos de fazer a arapongagem. Presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Goiás, Silveira afirma que foi procurado em janeiro por Francisco do Nascimento Monteiro, ex-assessor especial do governo de Arruda, para que indicasse os agentes. Na ocasião, diz ele, Monteiro afirmou que o serviço seria para o governo do DF.

 

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Silveira prestou depoimento na terça-feira, por mais de quatro horas, na Delegacia de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil de Brasília, que investiga o caso. Ao Estado, ele contou que, nos primeiros contatos, Francisco Monteiro lhe disse que precisava de policiais que pudessem analisar os vídeos que deram origem ao escândalo de corrupção na administração Arruda. Estava interessado em identificar eventuais indícios de montagem. "Ele dizia que era um serviço para o governo do Distrito Federal, que estaria preocupado e precisava saber se havia algum problema naquelas imagens", conta.

 

Atendendo o pedido de Monteiro, Silveira então indicou o policial civil goiano Luiz Henrique Ferreira, conhecido entre os colegas por prestar serviços de "consultoria" na área de inteligência. Começava, ali, uma história que acabou virando, literalmente, um caso de polícia. Luiz Henrique, o agente indicado pelo sindicalista Silveira, acabou detido quarta-feira passada, sob suspeita de fazer grampo ilegal em gabinetes de deputados de oposição a Arruda. Junto com ele, foi preso outro policial civil goiano, José Henrique Daris Cordeiro. Os dois, lotados na Delegacia de Narcóticos de Goiânia, foram liberados após prestar depoimento. Com eles foram apreendidos equipamentos de gravação.

 

Encontros

 

Silveira Alves diz que participou de vários encontros entre Francisco Monteiro, o ex-assessor do governo, e o policial Luiz Henrique Ferreira. Numa dessas reuniões, Monteiro teria apresentado a Luiz Henrique fotografias em que a ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal, Estefânia Viveiros, aparece em encontro com Durval Barbosa, o ex-secretário de Arruda que, de coordenador da distribuição de propina no governo, se transformou em estrela do escândalo ao gravar e entregar às autoridades as imagens da corrupção. Estefânia Viveiros, que antes de deixar a presidência da OAB, no final do ano passado, liderou um movimento pelo impeachment de Arruda, diz que as fotos são "claramente fraudadas" e atribui a montagem a auxiliares de Arruda, que estariam interessados em atingir sua imagem. Semana passada, ela levou o caso à Polícia Federal. A ex-presidente da OAB está sob proteção de agentes federais.

 

"O Francisco queria que o Luiz Henrique fizesse um laudo para dizer se havia montagem na foto", diz Silveira. A intenção seria dar ares de veracidade à imagem, que acabou distribuída a redações de jornais de Brasília.

 

Espionagem

 

Silveira conta ainda que Francisco Monteiro negociou com o policial outro serviço: fazer uma varredura nas secretarias do governo do Distrito Federal. Os dois chegaram até a falar em valores. O serviço, diz Silveira, custaria R$ 300 mil e seria pago por uma entidade evangélica comandada por Monteiro, a Comunidade Cristã. Num dos encontros, Silveira afirma que Francisco Monteiro abordou a possibilidade de grampear políticos de oposição ao governo. "Ele disse que seria bom se tivesse condição de fazer grampos que pudessem mostrar algum podre da oposição", afirma.

 

O sindicalista diz que, a partir daí, não mais participou das conversas entre Monteiro e o policial que ele próprio havia indicado. "Primeiro porque eu não participo de nada ilegal e, segundo, porque eu tenho um familiar no gabinete de um deputado de oposição", diz. Silveira é irmão de um assessor do deputado distrital Paulo Tadeu (PT).

 

Francisco Monteiro foi assessor da Secretaria de Relações Institucionais do Distrito Federal, que até estourar o escândalo era comandada por Durval Barbosa, o delator do esquema. Antes, ele tinha passado por gabinetes de deputados da base aliada de Arruda. Semana passada, ele fora nomeado como assessor do gabinete do deputado distrital Benedito Domingos (PP), outro escudeiro do governador, cujo nome também aparece nos grampos do escândalo como destinatário de parte da propina que abastecia o chamado mensalão do DEM. Abordado pelo Estado ontem, o deputado negou relação com a espionagem e que a nomeação de Francisco tivesse ocorrido a pedido de Arruda. "O Arruda não manda no meu gabinete nem eu mando no dele", disse. Francisco não foi localizado. A assessoria de Arruda nega que o governador tenha encomendado a arapongagem.

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