Polícia portuguesa faz arrastão para prender brasileiros ilegais

O domingo foi de terror para os emigrantes brasileiros ilegais que moram na Costa da Caparica, uma praia a 12 quilômetros de Lisboa. Um arrastão promovido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e pela Polícia de Segurança Pública pediu documentos de mais de 500 pessoas e 200 foram levadas para a delegacia de polícia. No final, 40 brasileiros, um angolano e um cabo-verdiano passaram a noite detidos em instalações do Serviço de Estrangeiros e foram apresentados em tribunal nesta segunda-feira. "Na praça principal da Costa da Caparica estava tocando a banda filarmônica da Incrível Almadense. Havia muita gente no largo. No meio da música, a polícia cercou a praça e veio o Serviço de Estrangeiros e começou a pedir documentos. Foram os portugueses para um lado e os brasileiros para a esquadra (delegacia)", conta o padre Antônio Pires, da paróquia local. Segundo o padre Pires, a Costa da Caparica é um dos principais locais de residência dos brasileiros que vão para Portugal procurando melhorar de vida, com 3.000 a 4.000 imigrantes do Brasil. "As pessoas estavam ouvindo a banda e telefonando para o Brasil", conta. O padre, que é uma das referências para a comunidade imigrante brasileira, ficou revoltado com a atuação da polícia: "São burros. Num domingo de sol, na praça encontra-se o pessoal que trabalha a semana toda e está descansando. Se queriam encontrar pessoal ligado às máfias, não era ali. Acho que foi um ato gravemente discriminatório". "Burros" Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, "foi uma ação de rotina, no âmbito da identificação de eventuais sitaução de pessoas ilegais no país", conta Marília Neres, do gabinete de relações públicas. O inspetor César Inácio, responsável pela operação, disse que os visados não eram apenas brasileiros. "Pedimos a identificação de todas as pessoas, mas a Costa da Caparica é um local onde vivem muitos brasileiros. Chegamos a deter um austríaco, um cidadão do Bangladesh, cabo-verdianos, angolanos, pessoas da Guiné-Bissau, um casal de ucranianos e um casal de moldavos". Segundo o embaixador do Brasil em Lisboa, José Gregori, a medida faz parte da política de segurança do governo português. "Eu já fiz gestões e não há especificamente nada contra brasileiros. Não é um ato de discriminação", diz. Nesta terça, o embaixador vai pedir mais informações ao Ministério das Relações Exteriores e ao Ministério do Interior de Portugal. Dos mais de 200 que foram até a delegacia, 39 receberam uma intimação para regularizar sua situação - como tinham chegado antes do final de novembro de 2001, podem pedir autorização de permanência. A maior parte apenas tinha fotocópias dos documentos e tiveram de esperar que alguém fosse buscar os originais. Os outros 42 só conseguiram sair em liberdade na tarde desta segunda-feira - ficam com a obrigação de aparecer a cada 15 dias no Serviço de Estrangeiros, que vai mover um processo administrativo que pode acabar em expulsão. Música Sem camas, os brasileiros acabaram tocando música sertaneja nas instalações do SEF para passar o tempo. "Eu estava com meu violão e como não dava para dormir acabei tocando", conta um dos detidos, natural da região de Governador Valadares - por orientação do padre, ele não quer seu nome publicado. Marceneiro e músico, ele ia a caminho da igreja para cantar no coral. Para o servente de pedreiro em Portugal e agente de saúde no Brasil Patrick Martins, de Governador Valadares, passar uma noite detido foi uma despedida. Depois de 11 meses em Portugal, ele estava de passagem marcada para hoje. "Estive quatro meses parado. Depois trabalhei com um brasileiro que me explorava. No fim trabalhei com um patrão que pagava bem, mas o trabalho acabou", disse preocupado com a possibilidade de perder o avião de volta para o Brasil.

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