Polícia é cobrada por problemas do Estado, diz Lula no Rio

Presidente culpa negligência histórica do governo pela miséria e violência e dá bolsa a policiais

Rodrigo Viga Gaier, da Reuters, Tânia Monteiro e Wilson Tosta, da Agência Estado,

08 de março de 2008 | 12h00

Um dia depois de ter dito que a polícia não pode entrar nas favelas batendo em moradores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado, 8, em solenidade no Palácio da Guanabara, no Rio, que a instituição é muito cobrada pela sociedade para resolver problemas de competência do Estado. Segundo Lula, miséria e violência têm como origem a negligência do Estado brasileiro durante muitos anos.  VEJA TAMBÉM Ouça - No Alemão, Lula chama ministra Dilma de 'mãe do PAC' Não sou mãe do PAC, sou 'coordenadora', responde Dilma a Lula  Veja quais são as obras do PAC nos morros do Rio "Seria muito simplista achar que cabe ao policial militar e ao policial civil a responsabilidade de cuidar de uma segurança que a política não cuida", disse Lula em discurso na cerimônia de lançamento do projeto Bolsa Formação para a qualificação do policial. "Basta olhar para o Brasil dos últimos 30 anos e vamos chegar ao diagnóstico de tanta violência no Brasil", acrescentou Lula.  Para o presidente, o Estado brasileiro foi muito ausente nas últimas três décadas e não houve crescimento econômico suficiente para atender as demandas da sociedade. "Ao governante e à opinião pública cabe todo santo dia o dever de cobrar da polícia a solução pelas barbáries de cada vida no país. Não fica claro de quem é a responsabilidade política dessa barbaridade."  O Bolsa Formação integra o Programa Nacional de Segurança Pública (Pronasci) e visa o policial com salário bruto inferior a R$ 1,4 mil. O programa de qualificação inclui especialização em polícia comunitária, técnicas não letais e atendimento a vítimas de violência doméstica. Lula aposta na melhoria do policial brasileiro, que, em sua opinião, muitas vezes, concentra injustamente todas as mazelas da sociedade brasileira. "Na polícia tem corrupção? Tem. Mas na política não tem? No Judiciário não tem? No empresariado não tem? É preciso separar o joio do trigo", defendeu.  O presidente considerou que policiais também são vítimas do descaso das autoridades, porque ganham salários baixos e moram em locais impróprios. "Alguém mora em favela por prazer? O Estado foi conivente e nós vamos levar algum tempo para consertar a história... Estamos construindo uma nova era no Brasil e, se tudo continuar, em alguns anos, poderemos recuperar um padrão que já tivemos no País", afirmou.  Ataque ao PSDB Lula encerrou seu discurso de improviso atacando o PSDB, por ter entrado com uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin), no Supremo Tribunal Federal, pedindo a suspensão do benefício, por considerá-lo eleitoreiro. "Tem gente que não quer esse programa, e entraram no STF pedindo liminar para que isso não seja aprovado", desabafou ele. "Eu não sou candidato a prefeito. Só vai ter eleição (para presidente) em 2010 e não posso ser candidato. Então, qual o problema eleitoral deste programa?", indagou, respondendo que os partidos de oposição fazem isso "porque (as pessoas) estão desacostumadas com o governo fazendo as coisas que precisa fazer". E emendou: "Eles até acham absurdo o governo acertar e, graças a Deus, estamos acertando". Lula aproveitou ainda para indiretamente ironizar a polêmica travada, na semana passada, com o ministro do STF Marco Aurélio Mello (ouça a crítica do presidente ao ministro ), que endossou as críticas oposicionistas ao caráter eleitoreiro do programa Territórios da Cidadania. O presidente gerou protestos do Judiciário, quando disse que "seria bom se o Poder Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas dele, o Legislativo apenas nas coisas dele, e o Executivo nas coisas dele". Lula comentou que o ministro Tarso Genro não se referiu à ação da oposição no STF contra as bolsas, mas ele o faria. "Não era para eu falar sobre isso porque sou presidente e não posso falar. Mas entraram com uma liminar dizendo que esse programa do bolsa (formação) não pode acontecer porque é eleitoral", reagiu Lula, sem citar que a Adin foi impetrada pelos tucanos no Supremo. 'A casa está arrumada' Ao reiterar que depois de pagar toda a dívida externa, "ainda sobrou R$ 8 bilhões", Lula comemorou que "a casa está arrumada", que "a economia está crescendo" e emendou: "Espero que a partir de 2010, quando vier o outro presidente, ele pegue a casa muito mais arrumada do que eu peguei e ele possa fazer muito mais do que eu fiz porque temos pelo menos 30 anos de dívida social com o povo". Em seguida, comentou que não só o policial é mal remunerado, mas também os professores. "Está cheio de gente mal remunerada", disse ele, completando que "poucos ganham muito e muitos ganham pouco", reconhecendo que "isso não é uma coisa que se conserte por decreto". E prometeu: "Fiquem certos que vamos recuperar este País".  Otimista, Lula, citando o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avisou que seu governo está "construindo uma nova era", que vai levar "algum tempo para reverter" a degradação da sociedade, e afirmou que "não é hora de ficar procurando culpados pelas coisas, mas de fazer coisas novas para mudar coisas velhas que não deram certo no Rio, em São Paulo e em qualquer lugar". Em seguida, assegurou que daqui a alguns anos poderemos recuperar o padrão que já existiu de qualidade dos profissionais.

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