Wilton Junior/Estadão
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Polícia do Rio apreende sistema de comunicação do condomínio de Bolsonaro, diz site

Consultada, Polícia Civil afirmou que a investigação transcorre sob sigilo; intenção seria esclarecer registros de entrada, no condomínio, no dia da morte de Marielle

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 19h47

RIO – A Polícia Civil do Rio apreendeu na manhã desta quinta-feira, 7, o sistema de comunicação da portaria do condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, segundo divulgou na tarde desta quinta-feira o site G1. Nesse condomínio morava e foi preso em março passado Ronnie Lessa, um dos acusados pelas mortes da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) também tem casas nesse condomínio. Ele morava em uma, antes de tomar posse como presidente, e seu filho Carlos mora em outra. 

Consultada pela reportagem, a Polícia Civil afirmou que a investigação transcorre sob sigilo. Por isso, não iria se pronunciar. 

A intenção da Polícia é fazer uma perícia para tentar esclarecer a entrada, no condomínio, no dia da morte de Marielle, de Elcio Queiroz, outro acusado de participar do crime. Ao entrar no  Vivendas, na tarde daquele dia, Élcio teria informado que iria à casa 58, onde morava Bolsonaro. Um porteiro teria conversado, por um sistema de comunicação, com alguém no imóvel do atual presidente, naquela ocasião. “Seu Jair”, disse, teria liberado a entrada. 

Essa versão baseia-se em anotações em um livro da portaria e em dois depoimentos do empregado. Neles, o porteiro teria dito à Polícia que, ao verificar, pelas câmeras de vigilância, que o visitante não ia para a casa de Bolsonaro, mas para o imóvel de Ronnie Lessa, teria ligado novamente para a casa do então deputado federal. “Seu Jair” teria dito que sabia aonde Élcio ia.

Nesse dia, porém, Bolsonaro estava em Brasília, onde gravou vídeos e participou de votações na Câmara - era deputado.

A história foi divulgada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, em 29 de outubro. Na reportagem do JN, o advogado Frederick Wassef, que representa Bolsonaro, negou a versão do porteiro. Afirmou que se tratava de uma tentativa de atingir o presidente. Horas depois de veiculada a reportagem, em transmissão de vídeo no Facebook, o próprio presidente negou envolvimento no crime. Também criticou duramente a reportagem e a emissora. A Globo defendeu em nota o trabalho de seus profissionais.

No dia seguinte, 30 de outubro, o Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) convocou entrevista coletiva para afirmar que o porteiro havia mentido. Baseou-se em um exame realizado naquele dia, em menos de três horas, como mostrou o Estado. A análise dos áudios das conversas entre um funcionário da portaria e moradores da casa de Lessa foi solicitada oficialmente às 13h05m11s. Por volta das 15h30, já tinha a resposta: as conversas não confirmariam os depoimentos.

O MP, porém, não examinou nada relativo à casa 58, de Bolsonaro – por não ter poder para isso – , só em relação à casa 65/66, de Lessa. Supostamente em férias, o porteiro não foi encontrado após a divulgação de seu depoimento. Seu nome é mantido em sigilo.

No último sábado, o presidente Bolsonaro afirmou em Brasília que recolheu as gravações da secretária eletrônica que registra as conversas entre os porteiros e os moradores.

“Nós pegamos, antes que fosse adulterada, ou tentasse adulterar, pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha”, afirmou Bolsonaro.

A revelação do suposto incidente levou o MP do Rio a encaminhar os autos ao Supremo Tribunal Federal (STF), porque só ali o presidente pode ser julgado. O material, inclusive as gravações das conversas, foram  examinadas pela Procuradoria Geral da República, que, como o MP do Rio, também declarou que não havia prova de que o presidente deveria ser investigado.

Com isso, os autos voltaram à primeira instância, que retomou as investigações na quarta-feira, 6. As apurações, porém, não poderão abordar nada relativa a Bolsonaro. Já a Polícia Federal, por requisição do Ministério Público Federal, abriu inquérito para investigar o porteiro por denunciação caluniosa, obstrução de Justiça e falso testemunho.

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