Polícia apreende cachaça que seria vendida a índios

Dois mil litros de cachaça escondidos embaixo de frangos com destino a aldeias às margens do rio Wautês, onde vivem indígenas da etnia tucano, foram apreendidos no domingo pela delegacia de São Gabriel da Cachoeira, a 858 quilômetros de Manaus. A disseminação de bebidas alcoólicas em áreas indígenas é proibida pelo inciso 3 do artigo 58 do Estatuto do Índio. De acordo com o delegado do município, Prudêncio Brisolla, nenhuma pessoa foi presa e ainda não foi identificada a origem do carregamento. "No município, compra-se um litro por R$ 2, mas nas aldeias chega-se a pagar até R$ 50 por uma garrafa", afirmou Brisolla. Vereadores Na última sexta-feira, segundo o delegado, a Fundação Nacional do Índio (Funai) enviou um relatório à delegacia e ao Ministério Público Estadual pedindo a investigação de um carregamento feito no dia 29 de 240 litros de cerveja, 15 litros e 24 frascos de 500 mil de cachaça. Para comemorar a chegada de um gerador à aldeia Iauaretê a bebida estava sendo levada em um barco de propriedade do vereador Edílson Ambrósio de Andrade (PFL). Andrade estava no barco com os vereadores Francisco Hernani de Abreu (PV), Francisco Garcia Diógenes (PMDB), José Maria de Lima (PT) e Francisco Orlando Diógenes Nogueira (PP). Segundo o delegado, os vereadores seriam os responsáveis pelo transporte da bebida aos indígenas, mas não quiseram assinar o termo de apreensão, ficando sob responsabilidade da assessora parlamentar da Câmara do Município Regina Flávia Dias Coimbra. "Os vereadores Francisco Diógenes e Francisco Nogueira são reincidentes, já haviam também tentado levar bebidas a aldeias do rio Xié, no ano passado", contou o delegado. A reportagem tentou falar nesta segunda com os parlamentares, mas os vereadores não retornaram telefonemas. De acordo com o delegado, a assessora parlamentar terá até a quinta-feira para pagar multa de R$ 5 mil. Suicídios Para o delegado, a entrada de bebidas alcoólicas nas aldeias pode ser uma das razões para os suicídios de adolescentes indígenas nos últimos dois anos. "No ano passado foram quatro e este ano oito, todos de jovens de famílias com pais ou mães ou ambos alcoólatras", disse o delegado. Até o fim desta semana, de acordo com Brisolla, um relatório preparado por uma equipe da Polícia Civil, que passou a última semana em São Gabriel, deverá apontar possíveis causas dos suicídios. No dia 13, uma equipe formada por etnólogos e antropólogos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da secretaria indígena do governo do Amazonas fará uma excursão aos município para mapear as causas do problema.

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