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‘Polêmicas de filhos podem ser estratégia’ diz Ratinho Jr.

Aliado de Bolsonaro, governador do Paraná afirma que família do presidente pauta a imprensa com falas sem importância

Entrevista com

Ratinho Jr., governador do Paraná

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Aliado de Jair Bolsonaro na eleição do ano passado, o governador do Paraná, Ratinho Jr (PSD), afirmou que as declarações polêmicas dos filhos do presidente da República podem ser uma estratégia de seu grupo político. “Eles (filhos) têm pautado a imprensa. Mal ou bem, goste ou não, é isso que tem acontecido. Acho que muito é da personalidade, mas não sei se até certo ponto isso não é uma estratégia.”

Em entrevista ao Estado, o governador criticou, sem citar o presidente, políticos que priorizam redes sociais. Além disso, avaliou ainda que uma mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a prisão em segunda instância seria um “retrocesso para a sociedade” e disse que, se o objetivo é soltar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Corte deveria julgar apenas o caso do petista. A seguir os principais trechos da entrevista.

Na contramão do Brasil, que passa por um forte processo de desindustrialização, o Paraná teve crescimento de 6,5% na produção industrial este ano. A que o senhor atribui este número?

O que está chamando muita atenção é a nossa infraestrutura. Queremos fazer do Paraná a central logística da América do Sul. O maior pacote de concessão de rodovias vai ser do Paraná com 4,1 mil quilômetros, quatro novos aeroportos no Estado, a modernização do porto de Paranaguá, ampliação da pista do aeroporto de Foz do Iguaçu e temos mais três portos privados que já estão com licença da Antaq. Aí a gente passa a ser um gigante dos portos do Brasil. Tudo com investimento privado.

Como o senhor vê o pacote econômico apresentado pelo governo e a repactuação da federação?

A intenção é boa. É um pacote robusto e audacioso. Não sei se consegue ser aprovado na integralidade. É um debate profundo, mas o pacto federativo é algo que tem que ser debatido no Brasil. A centralização de recursos no governo federal tem feito mal para os municípios e Estados. Isso atinge diretamente o cidadão lá na ponta. Precisamos criar mecanismos de descentralização não só na parte financeira mas também na administrativa. É uma discussão macro que mexe na reestruturação da lógica administrativa no País.

O senhor vê algum ponto negativo no pacote?

Não vi detalhes. Talvez um ponto mais discutível é a diminuição do número de municípios mas não é nem pelo ponto racional e sim pela polêmica na Câmara.

Com o é sua relação com o governo federal?

É boa. O governo tem ajudado muito o Paraná e eu seria ingrato se não externar isso. É uma ajuda financeira? Não. Mas é uma relação de apresentar propostas e alternativas que podem agilizar o trabalho. Os ministros têm nos dado atenção até porque sabem que o Paraná vem fazendo a lição de casa. E acho que o governo tem que trabalhar a distribuição de qualquer tipo de investimento em cima da meritocracia. Não é justo que quem não faz a lição de casa tenha o tratamento melhor do que quem fez.

As declarações dos filhos do presidente em redes sociais ou entrevistas, como a fala de Eduardo sobre o AI-5, prejudicam o andamento das pautas que realmente interessam ao País?

Mais do que uma opinião, isso merece uma reflexão. Temos que ver se algumas declarações não são estratégicas no dia a dia deles. Isso não é uma estratégia?

Estratégia de mobilização?

Quem é a oposição ao Bolsonaro hoje? Fale um nome. O Lula preso sem poder ser candidato? Não tem oposição. Por que? Eles têm pautado a imprensa. Mal ou bem, goste ou não, é isso que tem acontecido. Acho que muito é da personalidade, mas não sei se até certo ponto isso não é uma estratégia. Tem exageros de ambos os lados. Tem alguns momentos em que há exagero na base, mas às vezes também há exagero da imprensa de querer dar uma importância para uma declaração que não é tão importante.

O senhor é governador do Estado onde a Lava Jato é mais importante. Como o senhor avalia a operação? E a possibilidade de pessoas como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol serem candidatos?

A Lava Jato foi importante para o Brasil porque expôs as vísceras da corrupção. Não é que a corrupção não existisse, ela existia, talvez não no volume dos governos do PT, mas nunca poderosos tinham ido para a cadeia. Pode ter exageros? Pode sim. Mas ela trouxe muito mais benefício do que malefício para a sociedade. Moro é um dos principais nomes para a Presidência da República se tivesse uma eleição hoje, pela história dele na Lava Jato. Não sei se é da vontade deles ser políticos de mandato. Deltan também, mas em outra escala. São grandes nomes.

O senhor já viu em algum outro momento um debate eleitoral tão precoce como agora?

Penso que primeiro nós somos eleitos para fazer o dever de casa, com o qual nos comprometemos um ano atrás. Qualquer coisa que é colocada para se discutir três anos e meio antes é falta de compromisso com a população que nos elegeu.

No mundo das redes sociais essa disputa não é feita todo dia?

É uma bobagem pensar assim. A construção de um líder é feita ao longo de sua trajetória, não com vídeo no Facebook.

O senhor é um político jovem mas que está em um partido tradicional, o PSD. Como o senhor vê os movimentos de renovação da política?

Sempre é muito bom. Chegou o momento em que era necessário uma nova geração de políticos. Não falo de idade, tem políticos com uma idade já avançada, mas cabeça moderna. Mas só faz política quem está em partido. Você entra em um partido e vira político. O problema não está na política. Você pode fazer política em partido tradicional com uma nova roupagem, novo pensamento, novo fazer. É o que estamos fazendo. Falando com os deputados, falando com o presidente da Assembleia, falando com políticos. Qual o problema nisso? O que não pode é malandragem. 

O STF volta nesta quinta-feira a julgar o entendimento sobre a prisão após condenação em segunda instância e ainda tem na pauta outros julgamentos que devem interferir na execução do ex-presidente Lula. Como o senhor vê isso e qual o impacto para o Paraná?

Acho um retrocesso para a sociedade tirar a prisão em segunda instância. Se estão criando algum ambiente para que o Lula possa ir para casa, possa sair, possa ter a sua liberdade constitucional, faça isso com o Lula. Vai soltar milhares de pessoas, nem sei quantas, algumas condenadas por crimes perigosos? Não dá para criar um grande problema para a sociedade se o objetivo é resolver uma situação. Acho que juridicamente o Lula já podia estar em casa. / COLABOROU EDUARDO KATTAH

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