André Dusek / Estadão
André Dusek / Estadão

Polarização política faz sócios de bar romperem

Briga entre sócios de estabelecimento recém-inaugurado no centro de Brasília começou após publicação em rede social

Gustavo Aguiar, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 05h00

BRASÍLIA - Por causa da polarização política, tem gente perdendo amizade e gente, como a drag queen La Rubia, desfazendo acordos comerciais. À frente de um bar gay-friendly recém-inaugurado no centro de Brasília, que leva o nome de seu personagem e alter ego, o empresário Marcelo Galo, 46 anos, decidiu romper com um de seus sócios depois de ler uma mensagem do colega no Facebook com agressões a simpatizantes do PT. 

“Por falta de tempo, ainda não consegui excluir os poucos petistas que sobraram no meu perfil”, começou o empresário Adriano Sampaio, e o sangue de La Rubia ferveu.

A mensagem foi postada na semana passada, um dia depois da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para prestar depoimento na Polícia Federal no âmbito da Operação Lava Jato.

Marcelo não gostou do desabafo do colega, respirou fundo para manter a calma e respondeu: “Seu sócio, minoria branca empresarial aqui, também deseja o mesmo para você”.

Mas já era tarde. A publicação havia viralizado na internet e dividido clientes do bar que Marcelo nem sabia que existiam. 

Boicote. Os clientes começaram a reclamar. “Que decepção. Achei que estava indo em um lugar em que as pessoas se respeitam. Não volto mais”, avisou um. “Cortei da minha lista de lugares para conhecer em Brasília”, comentou outro, de São Paulo. Foram mais de 200 comentários em menos de cinco minutos e tantos compartilhamentos que foi difícil Marcelo acompanhar.

Na internet, Adriano virou “coxinha”. De uma hora para a outra, pipocaram avaliações negativas à casa e, segundo o dono, até de gente que nunca esteve lá. Palavrões, impropérios, ameaças. Teve gente instigando “fazer um boicote, só pra ver quem é mais forte”; pedindo “que fechem logo” o bar, propondo panelaço, beijaço e “estardalhaço contra tanta intolerância dos donos desse lugar”. 

Intolerância. As palavras ficaram ali, piscando na tela de Marcelo, fervendo na cabeça de La Rubia. “Foi um massacre. Quando abri o La Rubia Café, quis um lugar onde coubessem minorias sentadas à mesa com as maiorias. Brancos, negros, políticos, lésbicas, gays, travestis”, disse. A fama de bar intolerante poderia ser o fim para o negócio de Marcelo, inaugurado há apenas um mês e meio. “Uma drag queen intolerante. Quem diria?”, questiona. 

“Quero informar a todos que Adriano Sampaio já não pertence mais ao La Rubia Café. Não acho justo que minha casa seja confundida agora com um posicionamento de um ex-sócio e que promovam agora um boicote. Meu compromisso com a tolerância fala mais alto do que compromissos societários”.

Radicalização. Mas o massacre piorou. Quem apoiava os argumentos do ex-sócio saiu em defesa de Adriano. “Marcelo Galo diz ser contra a intolerância política e quer desfazer, se já não desfez, sociedade com amigo que pensa diferente dele”, ironizou um cliente. “Esses militantes da internet não perdoam, e isso é um sinal da crise na política. Só tem radicais de todos os lados”, diz Galo.

Adriano, agora ex-sócio, desapareceu. Aos amigos, diz que andou sofrendo ameaças, que se arrependeu do que disse e resolveu deletar o perfil nas redes sociais. Não deu as caras na noite daquele sábado nem atendeu aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem.

O rompimento oficial da sociedade com Adriano ainda demora – é preciso ressarci-lo dos investimentos que fez, corrigir a papelada no cartório.

La Rubia jura que ele sai, mas não sabe quando. Em tempos de acirramento de opiniões, a loira já sabe com certeza o que não quer no bar: discussão política com radicais. 

“Quero um lugar para que as pessoas se divirtam, bebam, relaxem. Tem gente assim em todas as matizes políticas”, garante. Não gosta de política, diz que não põe os pés nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas que tomaria um drink com Lula, Dilma, com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso.

“Se quiserem, depois da passeata, o La Rubia vai estar aberto no domingo”, avisa o empresário.

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