Polarização opõe desenvolvimentismo a choque capitalista

Embate econômico entre tucanos e petistas não era tão acirrado desde a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h07

A polarização entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) no 2.º turno da eleição presidencial colocou a economia no centro do debate programático. De um lado, os petistas defendem "um novo ciclo de transformações" com a participação ativa do Estado. Do outro, os tucanos propõem um ajuste na política econômica com o retorno do chamado tripé macroeconômico - composto por metas de inflação e de superávit primário, além de câmbio flutuante.

O embate econômico entre tucanos e petistas não era tão acirrado desde a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Nas duas últimas eleições presidenciais, com a economia brasileira em crescimento e o tripé macroeconômico em vigor, tucanos e petistas tiveram dificuldade para se distanciar no discurso econômico. A grande diferença era a área social.

"Existe uma diferença bem acentuada de visão entre os dois candidatos com relação ao grau de intervenção do Estado no processo de desenvolvimento da economia", diz Nelson Marconi, coordenador do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas. "A campanha do PT tem uma visão de que o Estado tem um papel fundamental na economia, enquanto a campanha do PSDB acredita claramente no tripé macroeconômico para dar credibilidade à condução da política econômica", diz Marcelo Moura, professor de economia do Insper.

A polarização econômica ficou evidente logo no início do 2.º turno. Na segunda-feira, Dilma atacou o PSDB ao falar do que chamou de "fantasmas do passado", mencionando os juros de 45% ao ano na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Aécio rebateu e disse que os "brasileiros estão preocupados com os monstros do presente: inflação alta, recessão e corrupção".

O tom das declarações de Dilma e Aécio também sinalizou a quais armas cada um vai recorrer na reta final do 2.º turno. A petista defende a área econômica do seu governo citando o atual nível de juros e de desemprego e o tucano tem destacado o fraco crescimento e a inflação elevada.

Em profundidade, as propostas dos candidatos divergem. No programa de governo de Aécio Neves, além do retorno do tripé macroeconômico está proposto reduzir gradualmente a meta de inflação para 3% e aumentar a taxa de investimento para 24% do PIB. Aécio já afirmou que Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, será o seu ministro da Fazenda caso seja eleito. "Dado o histórico do Arminio, o que virá por aí será uma tentativa de resgatar a credibilidade de política econômica", diz Monica de Bolle, diretora da consultoria Galanto e do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG), instituição de economistas ligados aos tucanos.

A campanha de Dilma não divulgou um plano de governo, apenas apresentou as diretrizes para um segundo mandato. O PT fala em um crescimento econômico estimulado pelo aumento do investimento e pela ampliação do mercado doméstico.

Dilma já confirmou a saída de Guido Mantega num eventual segundo mandato. "Nos últimos anos, houve um modelo de governo social desenvolvimentista, o que significa que as mudanças visaram à alteração na estrutura social e econômica do País", diz Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp, que lecionou para a presidente Dilma no período em que ela cursou doutorado.

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