Polarização com cores diferentes

Historiadores descartam semelhanças entre a rivalidade partidária do período 1946-64 e a atual briga PSDB-PT

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h01

Uma corrente populista baseada em sindicatos, com postos no Estado e discurso nacionalista, enfrenta uma legenda baseada na classe média das grandes cidades e preocupações centradas na moralização da vida pública. Parece o Brasil do início do século 21 - quando PT e PSDB polarizam, em 2010, a quinta refrega eleitoral seguida -, mas foi assim que funcionou, basicamente, a política brasileira na 4.ª República, como os historiadores brasileiros denominam o período de 1946 a 1964. Naqueles anos, o PTB e seus aliados disputaram o poder com a UDN - agremiação galvanizada pela figura do jornalista Carlos Lacerda. As aparências, porém, são enganadoras, dizem pesquisadores.

 

"O período de 46 a 64 é marcado por essa clivagem, getulismo e antigetulismo", diz a cientista política e historiadora Maria Celina d’Araújo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ). "Mas creio que a clivagem PT-PSDB ainda não tem a profundidade que teve na República de 1946."

 

Os 19 anos que se seguiram à queda de Vargas, em outubro de 1945, foram agitados. Mesmo fora do poder, o ex-ditador conseguiu a eleição do sucessor de sua preferência - seu ex-ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, com seu apoio (que resultou no slogan "Ele disse"). Dutra foi eleito pelo PSD, legenda de centro criada por inspiração de Getúlio, a partir do apoio de ex-interventores estaduais - durante o Estado Novo (1937-1945), os Estados perderam sua autonomia. O próprio Vargas, candidato pelo PTB, o substituiu em 1951, depois de derrotar novamente a UDN - mais uma vez, os udenistas lançaram o brigadeiro Eduardo Gomes, um herói do tenentismo.

 

Contragolpe. Acossado por denúncias de corrupção - o "mar de lama" denunciado por Lacerda - e sob impacto de uma tentativa de homicídio contra o jornalista, Getúlio matou-se em 24 de agosto de 1954. Seguiram-se uma tentativa de golpe da UDN, um contragolpe e três substitutos, até que um novo presidente, Juscelino Kubitschek, assumiu o poder. O construtor de Brasília, eleito por uma aliança PSD-PTB, também enfrentou investidas golpistas de militares ligados à UDN, que só conseguiu chegar ao poder em 1961, com Jânio Quadros (PTN). Por pouco tempo: em agosto do mesmo ano, Jânio renunciou, e seu vice, João Goulart (na época, presidente e vice eram eleitos por chapas diferentes e podiam ser de partidos antagônicos) levou o PTB de volta ao governo. Inicialmente sem poderes de governo, porque a instauração do parlamentarismo fora condição para sua posse, Goulart recuperou-os no início de 1963, em plebiscito. Em 1.º de abril de 1964, foi deposto por militares, depois de conspiração que teve participação de lideranças udenistas.

 

A descrição dos tumultuados anos da 4.ª República mostra a distância daquela época para os dias de hoje: o País vai para a sua sexta eleição direta de presidente desde a redemocratização, e apenas um - Fernando Collor - não concluiu o mandato. Para historiadores, porém, as diferenças vão além.

 

"Na República de 46, o getulismo estava associado ao nacionalismo, à esquerda e ao comunismo e também à demonização dos sindicatos", diz Maria Celina. "Era uma clivagem classista mesmo. Hoje, isso não existe mais. Além do mais, essa diferença era muito alimentada pelo clima da Guerra Fria."

 

Maria Celina observa que atualmente há "uma campanha eleitoral em que os inimigos não são tão claros" e na qual não há projetos antagônicos. "Os sindicatos são considerados atores políticos legítimos", observa a pesquisadora, lembrando que Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) falam em continuar o que está sendo feito.

 

O historiador Daniel Aarão Reis Filho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), acha que a comparação entre os dois períodos serve mais para ver diferenças que semelhanças. "A polarização PTB-UDN, no contexto da Guerra Fria, opunha tendências conservadoras-liberais a reformistas nacional-estatistas. Entretanto, ela era mediada pelo PSD, um partido maior do que esses dois e ainda pelo PSP, bastante forte em alguns Estados, como em São Paulo. PTB e UDN nunca tiveram a força de PSDB e PT."

 

Moralismo

 

Já a polarização entre petistas e tucanos, afirma, se desenvolve fora do contexto da Guerra Fria e entre forças que têm muitas semelhanças. "O PSDB só se aproxima da UDN no aproveitamento instrumental do moralismo na política. O suposto ‘liberalismo’ do PSDB está muito distante do programa liberal defendido pela UDN. A rigor, tanto PSDB e PT ainda cultivam - mais o PT, é claro - heranças fortes da tradição nacional-estatista. Pontos em comum que podem aproximar os dois partidos em caso de eventual grave crise nacional. Agora, estas tradições são ativadas ou desativadas conforme as circunstâncias."

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