Roberto Pereira/AE
Roberto Pereira/AE

Pobreza extrema: 'Nunca pensei que a situação fosse piorar’

Laurinete, 43 anos, analfabeta, mora com os filhos em um cômodo de chão batido no Recife; família sobrevive dos rendimentos de Antônio, carroceiro

Angela Lacerda, de O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2011 | 23h00

RECIFE - No cômodo de chão batido, sem janelas, sem banheiro e sem fogão a gás moram Antonio Barbosa de Freitas, 59 anos, sua mulher, Laurinete da Silva Feitosa, 43, e os filhos Juan Deivison, de 8, e Rafaela, de 14. O espaço é exíguo, com panelas empilhadas sobre o chão, roupas espalhadas e despensa vazia.

 

A cama de solteiro que à noite abriga Laurinete e a filha é local de estudos e lazer durante o dia. Juan e o pai dormem no chão. Uma televisão velha é o único entretenimento da família.

 

Laurinete só desenha o nome. Antonio fez o primário, consegue ler. Ele já foi operário de fábricas de tecidos, carteira assinada. Hoje nem possui documentos. Perdeu. "Não fui atrás porque nem usava, não carece", afirma ele. Resta a carteira profissional, guardada em algum lugar, "já desbotada". "As fábricas fecharam, fui ficando velho, não arranjei mais emprego".

 

Antonio sustenta a família como carroceiro. Diariamente sai de casa às quatro horas e anda até às 14 horas pelas ruas catando papelão, plástico e metal que vende em um depósito de material reciclável perto da favela onde mora, no bairro do Hipódromo, zona norte da cidade.

 

Por mês não consegue arrecadar R$ 300,00. A carroça que usa é emprestada. Ele se orgulha de nunca ter admitido "nem em pensamento" a possibilidade de se tornar um marginal. Por menos que ganhe na lida, todo dia leva algo para a família comer, mesmo que seja apenas pão, conta.

 

Antonio e Laurinete tentam se consolar dizendo que "tem gente em situação ainda pior". Mas busca de aceitação da vida miserável não apaga a frustração. "Quando vejo meus filhos querendo as coisas que não posso dar, sinto que é por falta de capacidade minha", afirma Antonio, que diz ficar deprimido por não poder presentear a filha com um computador e o filho com um videogame - "as coisas que eles mais desejam".

 

Laurinete acalenta o sonho de ter uma casinha maior. Quando se juntou a Antonio - ela é a terceira mulher dele, que tem outros três filhos dos primeiros relacionamentos - imaginava que iriam progredir de vida. "Nunca pensei que a situação fosse piorar", diz triste. Ela reconhece que o marido é trabalhador, mas isso não muda a sua realidade. "A gente sofre. Mas quem mais sofreu foi Jesus Cristo."

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