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PMDBendência

O PMDB esperneia, racha, grita, tira pedaço, mas entrega. Em 26 votações do ajuste fiscal na Câmara, o governo só ganhou quando a maioria dos peemedebistas seguiu a orientação do Planalto. Com o PMDB jogando a favor é o único jeito de o governo vencer. Com ele jogando contra, a matemática é impiedosa: não tem ajuste. Nenhum outro partido – petistas à parte – tem esse poder.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2015 | 03h00

Não poderia ser diferente com os peemedebistas comandando a pauta da Câmara e do Senado. Mas não é só isso. Além dos votos da própria bancada, o PMDB ganhou um poder que faz deputados de outras siglas orbitarem em torno dele como satélites. Essa força gravitacional já foi exercida em outros tempos pelo governo, mas o desgaste popular e a desarticulação política afastaram-na do Planalto. Renan Calheiros e Eduardo Cunha se apoderaram dela.

Cutucar, exigir, criticar, dar lição de moral em Dilma Rousseff e seus ministros faz parte do jogo do PMDB. É o que produz manchetes e eventualmente ganha eleitorados antipetistas. Mas o partido sabe, melhor do que ninguém, fazer a conta exata dos votos necessários para o governo, mal ou bem, governar. Isso inclui manejar com precisão os irremediavelmente rebeldes, os volúveis e os raros governistas fiéis. Bem administrada, a multiplicidade de PMDBs se transforma de custo em capital.

Nas votações do ajuste fiscal, apenas um peemedebista votou todas as vezes contra o governo: Jarbas Vasconcelos (PE). Outros sete se alinharam mais vezes com a oposição, entre eles Hermes Parcianello (PR), Vitor Valim (CE) e José Fogaça (RS). Mas a maior parte, 35 deputados, votou mais vezes com o governo do que contra. Sem contar os 21 governistas 100% pró-ajuste. Casos de Carlos Bezerra (MT), Aníbal Gomes (CE) e Baleia Rossi (SP).

Por isso a presidente e o PT ouvem calados as provocações de Renan, Cunha e do líder peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani (RJ). O PMDB desdenha, mas tem entregado o que promete. Desde que o vice-presidente Michel Temer assumiu a coordenação política de Dilma, a taxa de governismo do PMDB reverteu sua tendência de queda. E ao voltar a crescer, começou a puxar a para cima a taxa de governismo de boa parte na Câmara.

O gráfico do histórico de votações no Basômetro, do Estadão Dados, mostra que a inflexão peemedebista foi acompanhada por outras bancadas relevantes, como as do PR, PRB e até a do PSD. As três apresentam o mesmo ângulo de crescimento em suas respectivas taxas de governismo - um ângulo que começou a se pronunciar junto com o do PMDB, e que coincide com a mudança na coordenação política do governo, personificada na assunção de Temer ao papel de articulador.

Na votação do ajuste fiscal, por exemplo, 13 deputados do PR votaram sempre com o governo, 16 votaram assim na maioria das vezes e só 5 se comportaram frequentemente como oposicionistas. No PSD esses números foram, respectivamente, 6, 24 e 5.

Não foram só PR, PRB e PSD os partidos atraídos pelo magnetismo peemedebista. Vários partidos nanicos também mudaram de tendência nesse mesmo período. Os movimentos governistas mais claros aconteceram nas bancadas do PSL, PHS e PRP.

Ao mesmo tempo, a proeminência do PMDB teve custos. Com menos espaço no governo e sentindo o desgaste provocado pela impopularidade de Dilma e pelas medidas propostas por Joaquim Levy, PP, PTB, PROS e, principalmente, PDT apresentam queda contínua em sua taxa de governismo, segundo o Basômetro. Na votação do ajuste fiscal, PTB e PP racharam quase na metade. O PROS foi mais governista, e o PDT foi o mais oposicionista: todos os seus deputados votaram mais contra do que a favor.

Essa diluição do apoio de partidos que até poucos meses atrás eram fechados com Dilma deixa a presidente ainda mais dependente do PMDB. E quanto mais o PMDB entrega, mais ele pode cobrar. É tudo o que Renan, Cunha, Picciani e Temer queriam.

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