PMDB vê enfraquecimento de Palocci e cobra mudança na articulação política

Episódios da semana passada, sobretudo o aviso de que ministros peemedebistas seriam demitidos, abalaram relação com o governo; Temer aguarda gestos de Dilma

Christiane Samarco, de O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2011 | 22h58

BRASÍLIA - O PMDB quer mudanças na articulação política do Palácio do Planalto e duvida da sobrevivência no cargo do chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. O diagnóstico, que atinge em cheio o núcleo político do governo, começou a ser propalado nesta segunda-feira, 30, por líderes do partido como efeito colateral do desgaste provocado pelas cobranças ásperas do Planalto ao partido depois da derrota na votação do Código Florestal. A cúpula peemedebista avalia que houve quebra de confiança na relação com o PT e a presidente Dilma Rousseff.

 

Foi neste clima que Michel Temer reuniu nesta segunda a bancada do PMDB no Senado para um jantar no Palácio do Jaburu, residência oficial da vice-presidência. Dos 18 senadores do partido, apenas Jarbas Vasconcelos (PE) avisou que não compareceria. Pela manhã, a presidente entregou o cargo interinamente a Temer antes de viajar para o Uruguai.

 

Havia sido combinado que os dois fariam da ocasião um momento de armistício entre o PMDB e o governo após os sucessivos desencontros de articulação política da semana passada, mas a foto oficial divulgada pela Presidência mostra uma tentativa de um abraço distante.

 

Apesar dos esforços de reconciliação desencadeados, peemedebistas já começam a discutir como será o reforço na interlocução política do governo. O partido entende que o rearranjo interno já está em curso e que, por isso mesmo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ampliou seu raio de ação e ganhou mais peso na interlocução do Planalto.

 

Personagem. Dirigentes do partido apostam que o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, entrará em campo nos próximos dias para reforçar o time da interlocução com o Congresso. Será uma solução ad hoc, que vai durar enquanto Palocci estiver "mergulhado".

 

A própria viagem de Cardozo na comitiva oficial de Dilma ao Uruguai foi considerada um sintoma dessa atribuição informal. Não apenas por conversar bem com o vice Temer, mas pelo conhecimento que tem do Congresso (ele foi deputado) e pelo trânsito fácil junto aos líderes da base aliada, conquistado nos tempos de atuação parlamentar.

 

É neste cenário que se apresenta ao PT e ao governo o desafio de administrar a indignação dos peemedebistas por conta do telefonema de Palocci a Temer na semana passada. O ministro ameaçou demitir ministros do PMDB, depois da derrota do Executivo na votação do Código Florestal.

 

O script do PMDB está montado. Temer aguarda um chamado de Dilma, nesta terça-feira, 31, para uma conversa definitiva sobre a crise.

 

Foto. Nesta segunda, na Base Aérea de Brasília, a presidente e seu vice conversaram por menos de cinco minutos. A assessoria palaciana, de Dilma e Temer, chegou a ventilar que ambos posariam para uma foto para demonstrar a pacificação na base e com o PMDB. Não foi o que se viu. A impressão geral, após divulgada a foto, foi de uma cena protocolar, e não da aliança pacificada.

 

No episódio da ameaça de demissão aos ministros do PMDB, o que mais indignou os peemedebistas foi o fato de Palocci ter acionado o viva-voz para que duas testemunhas petistas participassem da conversa com o vice: o ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, e o líder do governo na Câmara, Candido Vaccarezza (PT-SP). Este é mais um ingrediente no caldeirão da crise que, na avaliação geral, só será superada se houver empenho de ambas as partes.

 

Lenha na fogueira. Num momento em que o governo busca arrefecer os conflitos na base, o secretário-geral da Presidência,Gilberto Carvalho, foi questionado, em entrevista à rádio Estadão/ESPN, sobre a contaminação da crise envolvendo Palocci nas ações de governo e disse que o Executivo "não depende" do Congresso para trabalhar.

 

"Evidente que nas relações políticas há um problema. Isso é inegável, não vamos fechar os olhos a isso. Mas quero dizer que uma coisa são essas relações, outra coisa são as ações do governo. Nós não dependemos do Congresso para seguir trabalhando", disse o ministro.

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