PMDB usa Renan para ameaçar governo

Aproximação entre tucanos e Planalto irrita partido no Senado

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

O governo pode fechar um acordo com os senadores tucanos para votar e aprovar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), mas o nó do caso do presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) está por desatar. E o que é pior: a aproximação entre Planalto e tucanos, traçada para fugir da pressão da bancada do PMDB por cargos e livrar petistas do incômodo papel de salvadores do mandato de Renan no Conselho de Ética, revelou-se um tiro que saiu pela culatra.Trocados pelo PSDB, senadores peemedebistas estão se recompondo com Renan e usando-o como arma para cacifar a bancada. O resultado dessa operação é que o governo administra a ameaça peemedebista de devolver a Renan a cadeira de presidente entregue ao PT de Tião Viana (AC) ou deflagrar a sucessão do Senado, tumultuando a votação da CPMF."O PMDB se sente desprestigiado, neste momento em que o governo negocia a CPMF com o PSDB e dá a impressão de que vai esquecer o Parlamento depois da votação", diz Viana. "O sentimento do partido é de que fomos abandonados pelo Palácio", relata o senador Gilvam Borges (PMDB-AP), convencido de que as queixas veladas podem fazer "desandar" o processo político se não houver "atenção especial" ao partido.A conseqüência imediata desse quadro é que a crise Renan, da qual todos queriam se livrar 22 dias atrás, converteu-se em uma espécie de trunfo do PMDB, tanto para conter setores do PT que sonham em assumir o comando do Congresso, como para reagir ao que os peemedebistas chamam de "desprezo" do governo pela sigla na negociação da CPMF. Esse sentimento serve, na prática, para rearticular a salvação de Renan no plenário do Senado e mantê-lo à frente do Congresso.?DESPREZO?Renan e a bancada de senadores haviam se preparado para jogar com a CPMF como moeda de troca na negociação com o Planalto e com o PT. Na Câmara, a aprovação da contribuição rendeu ao partido nada menos que a presidência de Furnas Centrais Elétricas. Neste contexto, a expectativa da cúpula peemedebista do Senado era de, ao menos, retomar o comando do Ministério das Minas e Energia. Cansado de esperar pela volta do ex-ministro Silas Rondeau, o grupo do senador José Sarney (PMDB-AP) já articulava junto ao Planalto para que o cargo fosse entregue ao senador Edison Lobão (PMDB-MA).Borges compara o clima de descontentamento geral a um vulcão em erupção, que pode despejar lava sobre os interesses do governo. "Os senadores peemedebistas não conseguem uma audiência com os ministros, não são ouvidos pelo governo", concorda Viana, emendando com uma ponderação: "Mas antecipar o processo sucessório é mais um erro." Ele sugere que o partido trate de pacificar a bancada e pôr fim à disputa interna pela sucessão.Preocupada com o denuncismo que ameaça abater, uma a uma, as alternativas do partido para a sucessão no Senado, parte da cúpula do PMDB cogita antecipar a eleição para este ano. A sorte do governo é que as opções são escassas. Sucessor natural de Renan, Sarney recusou a missão. Em meio à desconfiança de que pode ter enriquecido de maneira ilícita, o senador José Maranhão (PMDB-PB) anunciou que está fora da disputa, embora seja visto como alternativa a Sarney no partido e no Planalto.

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