PMDB pressiona Lula a ''rifar'' Tião Viana

Partido quer que presidente intervenha na sucessão do Senado para tirar petista do páreo e fortalecer Sarney

Tânia Monteiro e Vera Rosa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

14 de janeiro de 2009 | 00h00

Pressionado pelo PMDB, que reivindica o comando da Câmara e do Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou ontem um movimento para impedir o confronto entre o PT e o principal parceiro da coalizão governista. Após um dia repleto de conversas políticas, Lula recebeu à noite, no Palácio do Planalto, o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP). Foi direto ao assunto: garantiu a ele que manterá o PT unido em torno de sua candidatura à presidência da Câmara, na eleição marcada para 2 de fevereiro. Veja todos os presidentes do Senado Lula disse a Temer que vai conversar com o senador José Sarney (PMDB-AP), possivelmente ainda hoje, para saber se ele realmente deseja concorrer à presidência do Senado. Na prática, a ala do PMDB ligada a Sarney e a Renan Calheiros (AL) quer que o governo "rife" o senador Tião Viana (PT-AC), candidato à sucessão do presidente do Congresso, Garibaldi Alves (PMDB-RN). O argumento do grupo é que somente dessa forma, com Sarney ungido como nome de consenso, o governo evitaria o racha na aliança. Temer pediu ao presidente que tome as rédeas do processo. Apesar do discurso entusiasmado, o deputado tem receio de ser traído pelo PT na eleição para o comando da Câmara, se os petistas sentirem que estão levando uma rasteira do PMDB no Senado. Lula mostrou contrariedade com o andamento das negociações até agora e disse que não permitirá mais uma divisão da base. "O quadro ideal era o combinado no início: Tião Viana, do PT, para a presidência do Senado, e Michel Temer, do PMDB, para o comando da Câmara. Qualquer movimento mexe no equilíbrio de forças e é necessário um jogo combinado para que ninguém se sinta diminuído, traído ou excluído do processo", afirmou o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Coube a Múcio dar o tom do nível de preocupação do governo após a primeira reunião do ano do núcleo de coordenação política. Nos bastidores do Planalto, o comentário é de que Lula será obrigado a esvaziar a candidatura de Viana porque o grupo de Sarney tornou a situação "muito complicada". Na tentativa de apagar o incêndio e evitar mais problemas com o PT, Lula vai chamar para um tête-à-tête o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP). E só depois do encontro com Sarney ele se reunirá com os líderes do PMDB. Embora tenha dito que não deseja promover mudanças em sua equipe, o presidente já admite, em conversas reservadas, dar outro ministério ao PT, caso Sarney fique com a presidência do Senado. Motivo: embora diga que uma eleição não contamina a outra, ele também acha que o PT pode romper o acordo com o PMDB na Câmara, deixando de votar em Temer. Avalia que, se isso ocorrer, o grupo de Temer pode dar o troco e levar o PMDB a apoiar o PSDB nas eleições presidenciais de 2010. Diplomático, Múcio insistiu, porém, que o governo "continua apoiando" Viana e Temer. "Vamos ouvir primeiro Sarney: se ele disser que é candidato, haverá uma conversa maior com o partido para ver como organizar isso", observou o ministro. "O próprio presidente será condutor desse processo. Não é uma situação cômoda defender as duas Casas para o PMDB, mas isso já aconteceu e, por isso, é preciso que seja bem costurado. O governo quer ser parceiro do resultado. Não vai ter crise."REVOLTA PETISTANo ano passado, Sarney assegurou a Lula, em três ocasiões, que não disputaria a presidência do Senado, muito menos enfrentando Viana no plenário. A nova posição do peemedebista provoca revolta no PT. "O Tião vai para o voto. Quem quiser vir (disputar) que venha", resumiu a líder petista no Senado, Ideli Salvatti (SC), depois de uma dezena de telefonemas disparados de Santa Catarina ao Planalto e de mobilizar a cúpula do PT em favor da candidatura de Viana. No seu diagnóstico, "não há o que sustente uma aliança ou um governo de coalizão com um só partido comandando as duas Casas do Congresso". O raciocínio dos petistas é de que haverá um desequilíbrio de forças na coalizão, caso o PMDB comande seis ministérios, o Senado, a Câmara e a Comissão Mista de Orçamento. "O governo ficaria dependente demais do PMDB e não vamos deixar que o governo e o PT fiquem submetidos a um partido que tem um quinto do Congresso" insistiu Ideli. COLABOROU CHRISTIANE SAMARCO FRASESJosé Múcio MonteiroMinistro das Relações Institucionais"Qualquer movimento mexe no equilíbrio de forças e é necessário um jogo combinado para que ninguém se sinta diminuído, traído ou excluído do processo"Ideli SalvattiLíder do PT no Senado"O Tião vai para o voto. Quem quiser vir que venha. (...) Não vamos permitir que o PMDB presida a Câmara e o Senado"

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