'PMDB precisa se unificar como partido de centro'

Para Tarso, o tamanho do partido do vice Michel Temer no governo Dilma vai depender da união entre suas várias alas

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 20h09

BRASÍLIA - O governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, foi o primeiro brasileiro a cumprimentar Dilma Rousseff, ainda no avião, de Porto Alegre para Brasília, no domingo. Ex-ministro da Justiça, Tarso conhece Dilma há quase 30 anos e garante que a presidente eleita tem "visão pragmática" do que pode ser feito no Planalto. Com esse diagnóstico, diz que o tamanho dos partidos aliados na Esplanada dependerá da construção de unidade interna.

 

"O PMDB terá tanta ou mais importância no governo quanto mais se unificar como partido de centro e agir unitariamente", argumenta ele. Para Tarso, o PT será ainda mais influente no governo Dilma do que no do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Quem acha que Dilma vai depender do PT por ela ser mais fraca politicamente está muito enganado. Mas os partidos, no Parlamento, estarão mais consolidados", insiste.

 

O sr. viajou de Porto Alegre para Brasília ao lado de Dilma, no domingo, depois da votação. Foi no avião que ela soube da vitória?

 

Foi um momento muito emocionante. Eu estava com ela no avião rumo a Brasília, por volta de 16h30, quando já era previsível o resultado da eleição. Fui o primeiro brasileiro a conversar com a presidente eleita e a felicitá-la. Aliás, Dilma fez no Rio Grande mais votos do que o presidente Lula em eleições anteriores, tanto no primeiro como no segundo turno.

 

A partir de agora começa a disputa entre o PT e o PMDB por cargos. Qual será o peso do aliado PMDB no governo Dilma?

 

O PMDB terá tanta ou mais importância no governo quanto mais se unificar como partido de centro e agir unitariamente.

 

E como será o pós-Lula para o PT, de agora em diante?

 

O presidente Lula continuará tendo grande influência no PT por ser um vetor de identidade política no partido. Não existe um pós-Lula para o PT e, sim, em outra posição de influência, uma adesão ao estilo Lula de composição de governo.

 

Na sua avaliação, o PT vai ter mais influência no governo Dilma do que no de Lula por ela não ter experiência política?

 

O PT terá mais importância no governo Dilma do que no de Lula não porque ela seja fraca, mas porque os partidos no Parlamento estarão mais consolidados. Quem acha que Dilma vai depender do PT por ela ser mais fraca politicamente (em relação a Lula) está muito enganado.

 

Como assim?

 

A democracia dependerá muito mais dos partidos do que da força da personalidade política do presidente. Por isso, a reforma política é ainda mais necessária. É um dever da oposição prestigiar a democracia brasileira.

 

O sr. acha que o governo Dilma pode representar uma guinada à esquerda?

 

Isso é mais um desejo tucano do que realidade (risos). Não há perigo, entre aspas, de uma radicalização. Aliás, o lado desenvolvimentista não necessariamente é mais à esquerda. Não vejo em que essa questão possa ter uma tintura ideológica. Dilma tem visão pragmática do que pode ser feito e sua ação política leva em conta critérios de gestão. As balizas da ação são dadas pelo presidente Lula.

 

Mas o presidente vai continuar a dar orientações a ela?

 

Qualquer presidente gostaria de contar com a colaboração do presidente Lula. Não se trata de tutela, mas, sim, de saber ouvir as pessoas. Ao contrário do que dizem setores despolitizados, o presidente Lula terá de opinar.

 

Quais as diferenças de estilo entre o presidente Lula e a presidente eleita Dilma Rousseff?

 

O presidente tem como ponto de partida a sensibilidade política, por meio da qual ele chega à avaliação do projeto. Dilma, por sua vez, começa sua abordagem através de critérios de gestão. Ele é um líder que emergiu da luta sindical. Ela chegou à esquerda através da experiência intelectual e de formação. Os dois, porém, chegam ao mesmo ponto por caminhos diversos.

 

O Rio Grande do Sul viveu uma crise de grandes proporções no governo de Yeda Crusius. O sr. acha que o fato de ser do PT facilitará a obtenção de recursos no governo federal?

 

Só leva recurso quem apresenta projeto. Leva vantagem quem tem projetos, programa e afinidade programática e nós temos tudo isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.