PMDB pede cabeça de Temporão ao Planalto

Posto pode até entrar na negociação do comando da Câmara e do Senado

Christiane Samarco e Vera Rosa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, entrou em nova rota de colisão com a bancada do PMDB na Câmara, que ameaça retirar-lhe o apoio, pondo em risco sua permanência na Esplanada. Não bastassem as críticas do PT e a avaliação do Planalto de que sua gestão compra brigas desnecessárias, Temporão causou ainda mais preocupação ao governo quando, na quarta-feira, chamou a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) de "corrupta" e disse que a entidade apresenta baixa qualidade de serviço.A acusação jogou combustível na crise e deu munição aos adversários do ministro. Agora, petistas e peemedebistas querem pôr o cargo no pacote de negociações que embala as eleições no Congresso, marcadas para fevereiro de 2009. O PT reivindica o ministério de volta, mas o PMDB só admite trocar o titular, sem ceder a vaga. Pode mudar de idéia se o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva concordar em dar ao PMDB o comando da Câmara e do Senado.Lula não está disposto a fazer reforma na equipe, mas a cadeira de Temporão, objeto de cobiça, poderá entrar no jogo, no ano que vem. Nas fileiras do PT, um dos cotados para o posto é o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que termina o mandato em dezembro. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) - que deixa o cargo em fevereiro -, está de olho no ministério, mas nada indica que seu sonho será atendido. As estocadas de Temporão na direção da Funasa provocaram rebelião de deputados do PMDB contra o ministro. Indicado há 20 meses pela bancada do partido na Câmara, o presidente da Funasa, Danilo Forte, receberá o desagravo dos parlamentares na terça-feira. Além disso, a bancada também promete fazer manifestação de repúdio às declarações de Temporão.Desde a manhã de ontem, o telefone do ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, não parou de tocar no Planalto. Irritada, a cúpula do PMDB na Câmara solicitou a Múcio que transmitisse a seguinte advertência a Temporão: se tiver de escolher entre o PMDB e o ministro, o governo ficará com o PMDB, porque precisa muito mais do partido do que dele.Articulador político do governo, o ministro ficou contrariado com a exigência e vai se reunir com os peemedebistas na semana que vem, em mais uma tentativa de apagar o incêndio na base aliada.Assim que tomou conhecimento da acusação a Forte, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN) - padrinho do presidente da Funasa - ligou para Temporão. "Isso é um absurdo. Ou o senhor desmente o que disse ou aponta onde está a corrupção e aja, demita", cobrou o deputado. O ministro da Saúde disse que se referia à administração anterior, mas não convenceu Alves.Na avaliação de um importante dirigente nacional do partido, Temporão não tem mais condições de ser ministro do PMDB. Detalhe: o titular da Saúde foi indicado pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, a pedido do próprio presidente Lula."O PMDB não aceita nenhuma acusação, por ser irresponsável e infundada, à gestão de Danilo Forte, que tem sido exemplar no profissionalismo, na ética e na lealdade ao presidente Lula", protestou Alves. "A Funasa pode não produzir obras grandiosas, mas tem a capilaridade do PMDB pelo interior e suas pequenas obras são essenciais às pequenas cidades e comunidades."A avaliação nos bastidores do PMDB, do PT e até no Planalto é de que, apesar de ser um grande técnico da área de saúde, Temporão não se revelou bom gestor nem mostrou vocação política. Na outra ponta, seus auxiliares dizem que ele não cedeu ao fisiologismo do PMDB e, por isso, enfrenta críticas.Não é de hoje que a bancada peemedebista se queixa de Temporão: reclama que ele não recebe parlamentares nem libera recursos de emendas ao Orçamento. "Reconhecemos em Temporão um técnico muito conceituado, mas ministro é também função de liderança política", afirmou Alves. "É preciso saber ouvir, interagir, respeitar e ter a sensibilidade da boa convivência", emendou ele, convencido de que a manifestação da bancada, na terça-feira, "não é uma situação boa para nenhum ministério".

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