PMDB no Congresso enfraquece oposição, diz analista

Para o professor Álvaro Moisés, da USP, vitória de Sarney e Temer tem peso decisivo na eleição de 2010

Guilherme Scarance e Felipe Machado, de O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2009 | 16h12

Para o cientista político José Álvaro Moisés, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), a vitória de José Sarney (PMDB-AP) e Michel Temer (PMDB-SP) para comandar o Senado e a Câmara "consolidam a presença do PMDB na base". Em entrevista nesta terça-feira, 3, à TV Estadão,  ele disse que a vitória tem peso decisivo na eleição de 2010, mas não está claro se o partido quer exercer o poder ou, indicando o vice, "simplesmente se beneficiar, como vem sendo nas últimas décadas". E analisa: "Não tenho a menor dúvida: a oposição saiu enfraquecida. Quase não ouvimos a palavra do DEM nessa discussão, é como se tivesse desaparecido nesse contexto." Segundo ele, a tentativa do PSDB de enfraquecer Sarney "não teve efeito nenhum".   A seguir, os principais trechos:     Veja Também:  TV Estadão: assista a entrevista   INFLUÊNCIA EM 2010   "Essas duas vitórias, Senado e Câmara, consolidam a presença do PMDB na base. E o partido já vem anunciando nos últimos meses que tem tanto possibilidade de negociar com a candidatura da ministra Dilma Rousseff como de negociar com o governador de São Paulo, José Serra, se ele for confirmado candidato do PSDB. Mas tem uma outra pergunta subjacente a isso, que é a seguinte: como partido, o PMDB quer o poder, mas pergunta que fica é se ele quer o poder para exercer o poder e efetivamente influir, dar um outro rumo para a política brasileira, sua marca; ou se quer simplesmente se beneficiar, como vem sendo nos últimos anos, na verdade há décadas. Essa é uma questão que vai estar posta nos próximos meses. Olhando racionalmente a política brasileira, um partido que cresceu como o PMDB nas eleições municipais , você esperaria que ele teria uma nova proposta para o País. Será que isso vai acontecer? Eu tenho dúvida."   DILMA OU SERRA   "Acho que no momento se estabeleceu um certo equilíbrio. Se tivesse ganhado apenas Temer na Câmara e um outro candidato no Senado, se poderia dizer que José Serra foi beneficiado. Agora, com esse balanço que deu, isso corresponde também a uma tentativa interna do PMDB de buscar meios de chegar unido no processo da sucessão para que a fatura apresentada seja mais consistente. Eu digo fatura no sentido político, não necessariamente no sentido pejorativo. Ou seja, mais ministérios."   ABANDONO A VIANA   "O Planalto, particularmente o presidente Lula, fez todo um jogo com vistas a minimizar o máximo possível as chances de o PMDB se deslocar da base aliada. O Lula não é mais candidato - pelo menos tudo indica que não -, o PT não tem um nome forte para entrar nessa disputa, a oposição tem pelo menos dois nomes importantes - o governador de São Paulo e o governador de Minas, Aécio Neves. Nesse quadro, qualquer possibilidade de crise na base aliada, de não ter o PMDB, seria trágico para o governo."   AÉCIO NO PMDB   "É difícil dizer algo inteiramente consistente, com segurança. Eu, pessoalmente, tenho dúvidas sobre isso. Não creio que o Aécio vá caminhar nessa direção. Claro que é uma possibilidade que vai estar posta no quadro, mas não creio. O Aécio é um político jovem, com muito potencial. Se ele não disputar a eleição em 2010, é candidatíssimo a disputar em 2014, até porque o Serra está dizendo que é contra a reeleição."   JOGO DE FORÇAS   "Acho que essas duas vitórias consolidaram a base aliada. Não tenho a menor dúvida sobre isso: a oposição saiu enfraquecida. Quase não ouvimos a palavra do DEM nessa discussão, é como se o DEM tivesse desaparecido nesse contexto. O PSDB fez uma tentativa de enfraquecer a candidatura do Sarney apoiando o candidato do PT: foi um jogo para ter ali alguma presença. Mas em termos de resultado prático - de alguma coisa que impacta as forças do Congresso -, não teve efeito nenhum."   ESCÂNDALOS   "É quase um escárnio presença de mensaleiros na eleição do Congresso e a volta de Renan como líder. Será que as pessoas não se dão conta de que isso diminui o poder do Congresso e até a possibilidade de ter um papel mais ativo na política e no cenário brasileiro? Eu acho que essas coisas têm a ver com o tema da reforma política. Problemas de fidelidade partidária, de siglas que não têm grande representação - são siglas de aluguel -, natureza do presidencialismo de coalizão brasileiro... Se a política é identificada como escárnio, por que as pessoas na sociedade deveriam se preocupar com a política? Ou então: se a política é escárnio lá em cima, por que não se poderia estabelecer uma ordem de escárnio também na base da sociedade, vale qualquer regra, não tem lei?"   DESPRESTÍGIO DO CONGRESSO   "Sarney disse, em entrevista: 'Estamos colocados numa posição de pouca importância, precisa recuperar.' Você não recupera isso só com palavras. Recupera mudando a estrutura do sistema e isso toca na relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Acho que, nessa equação, o bandido não é o Judiciário, o problema está em o Legislativo não ocupar bem o seu papel. E controlar o Executivo, ser o termômetro de como funciona o Executivo."   PARTILHA DE CARGOS   "O custo político é extremamente alto (da negociação em torno da eleição no Congresso). O que significa diluir a ideia de que a política se faz para resolver grandes problemas. Não aparece nenhuma proposta consistente. Agora, por outro lado, essa questão precisa ter um certo equilíbrio. Sempre na política você tem negociação de funções e de cargos: é inevitável. E no caso da Câmara e do Senado , alguns cargos são simbólicos. Penso que esse é um problema que tendeu a se esvaziar, em grande parte por causa também do esvaziamento dos partidos."

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