André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'PMDB' não tem sistema de corrupção organizado como o PT, mas Cunha sim', diz Marta

Em entrevista ao UOl, 'Folha' e SBT, senadora e pré-candidata à Prefeitura de São Paulo afirma que sentiu-se 'traída' por seu antigo partido

Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2016 | 16h06

A senadora e pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PMDB-SP), afirmou nesta quinta-feira, 28, que apesar de o PMDB ter políticos investigados pela Justiça, não existe no partido um sistema de corrupção organizado como, na opinião dela, há no PT, sua antiga legenda. "Senti-me traída (pelo PT). O PMDB tem gente investigada e não tem sistema de corrupção organizado como tem o PT", disse. "Da parte dele (Cunha), sim", emendou Marta durante sabatina realizada pelo portal UOL, o jornal Folha de S.Paulo e o SBT, ao ser questionada se haveria um esquema de corrupção envolvendo o ex-presidente da Câmara e deputado federal afastado, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), investigado pela Justiça e alvo de um processo de cassação do mandato.

Marta disse que, "como todo povo brasileiro", é favorável à cassação de Cunha, cuja proposta deve ser avaliada pelos deputados federais no plenário da Câmara em agosto. Para a senadora, não existe um grande partido sem investigados na Lava Jato e, na avaliação dela, a operação da Polícia Federal e do Ministério Público "veio para ficar e tem meu apoio". Marta lembrou que o PT tem três ex-tesoureiros presos e disse que o partido decepcionou eleitores e não somente ela. No entanto, afirmou ter tranquilidade de que não terá o nome citado na operação, mesmo com empresas envolvidas na Lava Jato tendo doado dinheiro à sua campanha ao Senado, ainda pelo PT, em 2010. "Não temo ser investigada. Quem controlava as finanças e a comunicação do partido foi o partido e não eu. Temor zero", resumiu a pré-candidata.

Lula. Ela criticou ainda o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo fato de ele não ter assumido a candidatura à Presidência da República ainda em 2014 e de ter mantido o apoio à reeleição da agora presidente afastada Dilma Rousseff (PT). Segundo Marta, após Lula não ceder aos apelos, ela teve uma última conversa com o ex-presidente e informou que deixaria o PT. "Eu tinha clareza que Dilma seria um desastre, e que o Brasil seria uma Venezuela. Ele (Lula) desistiu de ser candidato, eu disse que seria erro crasso e que buscaria o meu caminho. Depois disso nunca mais falei com ele", afirmou a senadora. Ela considerou como o maior erro político de Lula, além da escolha de Dilma, o apoio ao atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).

Marta defendeu o apoio recebido do vereador Andrea Matarazzo (PSD), que será seu candidato a vice, mesmo com as críticas feitas pelo parlamentar a ela no passado, quando ainda estava no PT e ele no PSDB. Para a pré-candidata, há uma convergência entre ambos e a vinda do PSD e de Matarazzo para a sua campanha trouxe também o apoio de quadros tucanos, como o do ex-governador Alberto Goldman e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os quais, segundo ela, não apoiarão o candidato do PSDB, João Doria. "Goldman e FHC não estão com o Doria. Não saíram do PSDB, mas vieram com ele (Matarazzo) e eu fico contente", disse. "PT e PSDB sempre foram as duas grandes forças em São Paulo e essa polarização que o paulista está acostumado não vai existir mais. Tem outro caminho que junta as duas coisas boas dos dois partidos", emendou.

Ainda segundo a pré-candidata, apesar de não contar com a presença do presidente em exercício Michel Temer (PMDB) na convenção do partido que ratificará sua candidatura para tentar voltar à Prefeitura de São Paulo, no próximo sábado, 30, ela disse que espera contar com ele no palanque, ao menos no segundo turno. Temer, no entanto, já disse aliados que não pretende subir em palanques.

Taxas. A senadora disse ainda estar arrependida de ter criado taxas de serviços públicos, principalmente do lixo, durante seu mandato como prefeita, entre 2001 e 2004. Marta afirmou que, apesar do arrependimento, a criação e aumento de tributos eram necessários à época mas, caso seja eleita este ano, não tomará a mesma medida.

"Sim, eu me arrependo, mas naquele momento a cidade não tinha condição. Vou ser prefeita que não aumentará mais taxa. Quando peguei a cidade, ela estava arrasada e trabalhava com um orçamento de R$ 13 bilhões, hoje seriam uns R$ 30 bilhões; o prefeito (Fernando Haddad) trabalha com mais de R$ 50 bilhões", justificou. Marta disse ainda ter ficado "furiosa" com as críticas de que deixou o mandato com um rombo financeiro, feitas pelo seu sucessor e atual ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), hoje seu aliado político. "Fiquei furiosa porque não era verdade. Mas era um movimento político do ardor da campanha e são águas passadas que a política releva", disse.

A pré-candidata afirmou que sua "prioridade máxima", caso seja eleita, será a área da Saúde, principalmente com a melhoria da gestão nos procedimentos para os cidadãos atendidos pela rede pública. Ela prometeu ainda fazer uma "revolução" na Educação, com um programa de qualificação de professores da rede municipal de ensino, além da melhoria e construção de novos Centros Educacionais Unificados (CEUs), uma das marcas de sua primeira gestão.

Marta não se posicionou abertamente se reverteria a redução feita por Haddad na velocidade máxima das marginais Tietê e Pinheiros - de 90 km/h para 70 km/h nas pistas expressas e de 70 km/h para 50 km/h nas locais - mas disse que acabará com a "indústria da multa" criada pela prefeitura. A ex-prefeita afirmou ainda que irá rever as regras de operação do Uber em São Paulo, apesar de considerar o serviço como importante, e considerou o polêmico processo de desregulamentação do transporte por meio do aplicativo como um "desastre" e uma "marca do improviso que caracteriza a prefeitura".

Ainda sobre mobilidade, Marta ironizou a proposta do tucano João Doria de conceder os corredores de ônibus à iniciativa privada. A medida, segundo ela, não trará retorno ao possível investidor. "Eu dei até risada, porque o corredor de ônibus é concretado, é caro de se fazer. Qual o retorno para quem investe? (...) Me pareceu uma febre de privatização de quem não tem conhecimento profundo da cidade. Daqui a pouco vai privatizar a avenida Brasil", criticou.

Sobre outras propostas polêmicas, a senadora disse ser contra a privatização do Pacaembu, "um monumento da cidade", segundo ela, mas que é possível até avaliar a privatização do autódromo de Interlagos e uma concessão do Anhembi. Ela disse gostar das ciclovias criadas por Haddad, mas avaliou que a implantação do modal foi feito sem critério, com pouquíssimo planejamento pelo seu adversário. "Na periferia tem pouca ciclovia e é só 'ciclotinta'. Ele não pensou ainda em modal integrado, quis fazer quilometragem grande", afirmou.

A ex-prefeita afirmou ainda que irá acabar com o programa "Braços Abertos", criado por Haddad para usuários de drogas, principalmente na Cracolândia, região central da capital paulista. Para ela, o programa que remunera dependentes químicos que trabalham na região e ainda concedem aluguéis sociais é uma "política de redução de danos" e será substituída por uma que política de buscar a abstinência do viciado. "Vamos construir quatro centros na cidade, um deles na região central, que funcionariam como lugares de internação 24 horas por dia", disse Marta, que defendeu ainda internação involuntária de dependentes com risco de vida. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.