André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

PMDB da Câmara defende candidatura própria para sucessão de Cunha

Movimento pode trazer problema para Temer, pois contraria articulações nesse sentido feitas por outros grupos da base aliada

Igor Gadelha, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2016 | 08h07

BRASÍLIA - Com a possibilidade de renúncia ou cassação do mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), começou a crescer no PMDB da Câmara um movimento em defesa da candidatura própria do partido à sucessão do peemedebista na presidência da Casa. O movimento pode trazer um novo problema para o presidente em exercício Michel Temer, uma vez que contraria as articulações nesse sentido feitas por outros grupos da base aliada.

Nos bastidores, peemedebistas dizem que vão usar a articulação para pressionar Temer por apoio à candidatura própria, como forma de compensar a bancada pela forma como vem sendo tratada na distribuição de cargos no segundo e terceiro escalões. Deputados do PMDB reclamam que o presidente em exercício não tem cumprido acordos com a bancada da Câmara, que diz se sentir o "patinho feio" do governo. 

"Minha opinião é de que a vaga é do PMDB", afirmou o deputado Sérgio Souza (PMDB-PR). "Acho que o PMDB tem que brigar pelo cargo", disse Osmar Serraglio (PMDB-PR). "Defendo que o PMDB termine o mandato", declarou Mauro Pereira (PMDB-RS). "Não tenho dúvida que o PMDB tem que ficar com o cargo", defendeu o deputado Hildo Rocha (PMDB-MA). 

Segundo esses parlamentares, a bancada ainda não discutiu oficialmente o tema em respeito a Cunha, cujo processo de cassação ainda não foi analisado pelo plenário da Casa. As discussões, segundo eles, têm se dado de forma isolada, mas eles avaliam que esta é a posição da maioria. Eles já falam, inclusive, em nomes. O mais citado é o de Serrágio, atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ligado a Cunha. 

Ao lado de Souza, Serráglio defende, inclusive, a tese de que só o PMDB poderá disputar a vaga de Cunha, em caso de vacância. O argumento é de que, pela regra da proporcionalidade, o cargo é da sigla, dona da maior bancada da Casa, com 66 deputados. "Se o partido foi eleito para um mandato de dois anos, cabe a ele continuar no posto. O maior partido da Casa não pode ficar de fora da Mesa Diretora", diz Souza. 

Os dois peemedebistas ameaçam recorrer ao Supremo Tribunal Federal para garantir esse direito. Técnicos da Câmara ouvidos pelo Estado afirmam que, em tese, a interpretação dos peemedebistas tem fundamento. Lembram, porém, que pelo Regimento Interno da Casa são permitidas candidaturas avulsas de deputados de outros partidos para presidente da Câmara, o que depõe contra essa argumentação.

O movimento do PMDB foi mal visto por grupos da base aliada de Temer que articulam candidaturas próprias para sucessão de Cunha, como o Centrão - grupo de 13 partidos liderados por PP, PSD, PR e PTB - e a antiga oposição (PSDB, DEM, PPS e PSB). Nos bastidores, lideranças dos grupos afirmam que não seria a hora de o PMDB reivindicar o posto, uma vez que partido já possui as presidências da República e do Senado. Próximo a Temer, o líder do PMDB na Câmara, Baleia Rossi (SP), já defendeu a aliados que a sigla não deveria entrar na disputa, para evitar problemas para o presidente exercício. Oficialmente, porém, o discurso dele é de que caberá a maioria da bancada decidir. Deputados que defendem a tese de candidatura própria, porém, minimizam a questão e dizem que Temer não vai se envolver no assunto interno da Câmara. 

CCJ. Nesta segunda-feira, 20, Cunha sofreu mais um revés na Câmara. O presidente interino da Casa, deputado Waldir Maranhão (PP-MA), decidiu retirar da CCJ e mandar arquivar a consulta que poderia ajudar o peemedebista a tentar reverter no plenário o pedido de cassação aprovado pelo Conselho de Ética na semana passada. Com a decisão, Cunha agora tem apenas os recursos na CCJ para tentar mudar o que foi aprovado pelo conselho. 

Com desejo de voltar a ser apenas vice-presidente da Câmara, Maranhão começou a discutir com aliados a sucessão de Cunha. Ontem, ele se encontrou com representantes do PSB, PT, DEM, grupo que nos últimos dias já vinha conversando para discutir um nome para enfrentar o candidato do Centrão. O PSDB, que também chegou a participar dessas discussões, marcou para hoje uma reunião da bancada para discutir o assunto. 

A participação de tucanos nas discussões sobre sucessão presidencial da Câmara com adversários históricos do partido, como o PT, gerou divergências internas no partido. Alguns deputados relataram que "pegou mal" para o PSDB, que está no governo Temer, ser atrelado a articulações com partidos que são seus adversários históricos e que hoje fazem oposição ao peemedebista. / COLABORARAM ERICH DECHAT E DAIENE CARDOSO.

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