Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

PM da ativa pode ir ao 7 de Setembro desarmado e à paisana, defende associação nacional de policiais

Com 286 mil associados da ativa e da reserva em 24 Estados, maior entidade da categoria no País libera organizações regionais a decidirem sobre apoio formal ou não a atos bolsonaristas

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 09h59

BRASÍLIA - A maior entidade nacional de policiais militares decidiu, nesta quinta-feira, 26, deixar as representações regionais livres para estimular ou não a participação em atos a favor do presidente Jair Bolsonaro previstos para 7 de Setembro. A Associação Nacional de Entidades Representativas de Policiais Militares, Bombeiros Militares e Pensionistas Estaduais (Anermb) diz agregar organizações com 286 mil associados da ativa e da reserva em 24 Estados. Em entrevista ao Estadão, o presidente da entidade, sargento Leonel Lucas, defendeu o direito de manifestação dos policiais, desde que desarmados e à paisana.

“Quem quiser participar que vá, democraticamente e pacificamente. Os ativos, que vão desarmados e não fardados. E que todos exerçam seu poder de democracia que nós conquistamos com muita batalha”, afirmou Lucas. 

Militar do Rio Grande do Sul, o sargento argumentou que os policiais têm direito à manifestação, pois são cidadãos antes de vestirem a farda. Segundo ele, a participação dos policiais nos protestos não significa flerte com ruptura constitucional ou insubordinação a governadores. "Quem se achar no direito de defender seus ideais que vá, dentro da democracia." 

O presidente da associação minimizou a manifestação política do coronel Aleksander Lacerda, da PM de São Paulo, afastado por indisciplina após fazer publicações em rede social em defesa da manifestação a favor de Bolsonaro e ataques a ministros do STF e ao governador João Doria (PSDB), que classificou como "cepa indiana". “Se, na opinião dele, ele está certo, cada um de nós tem que arcar com suas deliberações. Não posso avaliar se ele está certo ou errado. As pessoas vão ter que analisar e ver se vão segui-lo ou não. Não somos ‘Maria vai com as outras’”, disse Lucas.

Em junho, o presidente Jair Bolsonaro compareceu, fora da agenda oficial de compromissos, a um evento da Anermb, em Goiás. Apesar do aceno à entidade de classe, a relação de Bolsonaro com as associações não é tão sólida quanto parece. Foi a primeira visita à entidade em dois anos e meio de governo. Entre outros objetivos, o encontro na associação visava estimular o apoio de policiais às eleições de 2022.

Bolsonaro não deu aval para alguns dos principais pleitos das entidades de classe, como criar o Ministério da Segurança Pública. As atribuições do que seria a pasta dedicada exclusivamente ao tema seguem incorporadas ao Ministério da Justiça. Por outro lado, o presidente distribuiu policiais militares de sua confiança por cargos estratégicos no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios. Além disso, vem construindo um “pacote de bondades” para os PMs, que formam parte importante de sua base de apoio, como mostrou o Estadão. Um exemplo é a oferta de descontos para PMs na compra de alimentos na Ceagesp, na capital paulista, dirigida pelo coronel da reserva da corporação em São Paulo Ricardo Augusto Nascimento de Mello. 

Leia abaixo a entrevista:

Qual foi a deliberação da associação e qual a orientação geral para os policiais no dia 7 de Setembro?

Quem quiser participar que vá, democraticamente e pacificamente. Os ativos, que vão desarmados e não fardados. E que todos exerçam seu poder de democracia, que nós conquistamos com muita batalha. Que a gente continue com atos democráticos dentro do Brasil. 

Na pauta dos protestos, há um movimento a favor do presidente, de um político, e contra STF e Congresso. Isso não é misturar PMs com um ato político, algo, portanto, ilegal?

Não vejo ilegalidade porque não tem partido ali. Seria ilegalidade se o PM da ativa estivesse com bandeira ou camisa de algum partido. Nossa orientação para esses PMs da ativa é que não usem bandeira ou camisa de qualquer partido.

O senhor vai participar de algum desses protestos?

Não, tenho compromissos. Nem estarei no Brasil. 

Como o senhor avaliou esses episódios de SP, com um coronel da ativa fomentando a tropa a aderir a esses protestos?

Eu vejo que o coronel tem a responsabilidade dele. Tenho certeza de que os policiais da ativa que, se forem, a orientação nossa, e acho que também é a do coronel, têm de ir à paisana, sem arma, sem bandeira de partidos. Os que quiserem defender ou ir contra o presidente Bolsonaro que vão exercer a democracia que temos no Brasil. O PM é um cidadão, antes de ser PM.

Errou o coronel?

Se na opinião dele ele está certo, cada um de nós tem de arcar com suas deliberações. Não posso avaliar se ele está certo ou errado. As pessoas vão ter que analisar e ver se vão seguir ele ou não. Não somos Maria vai com as outras. 

Não há motivos para a sociedade se preocupar com adesão de PMs a protestos em favor do presidente?

A sociedade pode ficar tranquila. Nossas esposas, filhos, irmãos estão nessa sociedade. Lutamos tanto para ter democracia e vamos ser democráticos. Quem se achar no direito de defender seus ideais que vá, dentro da democracia.

Fala-se muito em ruptura constitucional por meio das PMs. Esse risco existe? Há ao menos essa semente plantada dentro das tropas estaduais?

Não vejo. Dentro dos quartéis não se fala em política. Fala-se na rua. O problema é que quando não estamos fardados muita gente ainda nos identifica como policiais e dizem que não podemos dizer que estamos com ‘a’ ou ‘b’. Na nossa folga, podemos. Não vamos ter ruptura de nada. O governo Bolsonaro é transitório e nós somos polícia de Estado.

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