Planilhas mostram rota da propina em Campinas

Papéis sempre citam Rosely, mulher do prefeito, como maior beneficiária de quantias que variam de R$ 104 mil a R$ 300 mil

Fausto Macedo e Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2011 | 22h57

Planilhas da propina em Campinas incluem sempre o nome de Rosely Nassim Jorge Santos, mulher do prefeito Hélio Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT). São manuscritos que revelam como era feita a partilha de valores supostamente desviados dos cofres públicos por meio de fraudes em licitações para grandes obras de saneamento.

 

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Os documentos foram entregues ao Ministério Público Estadual por uma testemunha - servidor municipal encarregado da área de segurança das autoridades políticas do município - e deram sustentação ao decreto de prisão de 20 investigados no escândalo que abala a terceira maior cidade do Estado e envolve nomes próximos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre eles o empresário José Carlos Bumlai.

 

Nos papéis anexados ao inquérito do Gaeco, grupo da promotoria que investiga e combate crime organizado, o nome da primeira-dama aparece ao lado de quantias que variam de R$ 104 mil a R$ 300 mil. Esse dinheiro, que teria sido repassado à mulher do prefeito, era relativo a contratos da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S/A (Sanasa) - economia mista apontada como foco maior da corrupção - com as empresas Hidrax, Lotus, Pluriserv e Infratec.

 

A testemunha, Álvaro Grandezi Júnior, entregou cópias de anotações que fez de punho próprio. "Os documentos evidenciam a real e efetiva existência do esquema de ‘devolução’ aos envolvidos de porcentuais dos valores pagos pela Sanasa para as empresas", assinalara a promotoria. "O material deixa claro como era a divisão do dinheiro da corrupção entre os lobistas, a direção da Sanasa e Rosely Nassim."

 

Amparada em um habeas corpus, que veta "medidas coercitivas" contra si, a mulher do prefeito não foi presa. Ela nega envolvimento nos desvios. O Ministério Público tenta derrubar a liminar que lhe garante a liberdade.

 

O principal trunfo da promotoria contra Rosely são os relatos de Luiz Castrillon de Aquino, ex-presidente da Sanasa entre 2005 e 2008. Ele fez delação premiada. Afirma que a mulher de Dr. Hélio comandava a organização criminosa que teria se instalado em setores da administração e exigia propina de 5% a 7% de cada nota faturada por empreiteiras e fornecedores.

 

Contrato Dudu. Ao ordenar a quebra do sigilo fiscal e bancário dos suspeitos, o juiz Nelson Bernardes foi taxativo: "Testemunhas confirmam, em situações diversas, a existência de conversas ilícitas que o delator Aquino tratava com vários investigados e também confirmam já ter presenciado transporte de grandes somas em dinheiro, algumas vezes levadas para a casa da investigada Rosely".

 

Os manuscritos mostram que dois terços do dinheiro devolvido pelas empresas eram destinados aos lobistas Emerson Oliveira e Maurício Manduca e o restante ia para Aquino, que fazia repasses a Rosely. Um documento, intitulado "Contrato Dudu", mostra entrega de R$ 300 mil à primeira-dama.

 

As anotações indicam que Aquino, o delator, ficou indignado, certa ocasião, quando R$ 220 mil foram entregues aos lobistas e R$ 80 mil a ele - o delator teve de dar sua parte e mais R$ 220 mil "do bolso" para Rosely. "É justo?", protestou Aquino, pois achava que quem deveria completar o quinhão da primeira-dama eram os lobistas.

 

A divisão do dinheiro provocou desentendimentos no grupo. Aquino se dizia chantageado pelos lobistas. A cada entrevero, uma nova forma de partilha era acertada, o que também ficou registrado nas planilhas.

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