Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

Planilhas indicam esquema de caixa 2

Valores registrados superam o que foi declarado pela Odebrecht em 2012

Daniel Bramatti e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2016 | 07h00

As planilhas apreendidas na casa do diretor-presidente da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, contêm indícios de um esquema de caixa 2 de financiamento eleitoral em 2012, ano em que foram eleitos 5.565 prefeitos em todos os municípios do País. Os valores registrados nas planilhas como repasses a dezenas de políticos chegam a pelo menos R$ 75 milhões, quase o dobro do valor declarado como doações do grupo empresarial nas prestações de contas que os candidatos apresentaram à Justiça Eleitoral (R$ 38 milhões).

Além da disparidade nos valores, as planilhas apreendidas indicam que sete empresas do grupo Odebrecht atuaram como “sponsors” (patrocinadores) de políticos que concorriam a cargos de prefeito e vereador. Dessas sete, porém, apenas três empresas aparecem também na contabilidade oficial dos partidos entregue à Justiça Eleitoral.

Há nas planilhas diversos registros de doações da empresa Foz do Brasil, braço do grupo Odebrecht que atua na área de saneamento. Nas prestações de contas oficiais de 2012, porém, não há registro de que a empresa tenha feito doações. O mesmo acontece com a empresa Odebrecht Transport, outra integrante do conglomerado.

Além de relacionar repasses para candidatos a prefeito e vereador, as planilhas indicam que a distribuição de dinheiro chegava também a alguns políticos que não disputaram as eleições daquele ano, como a senadora Gleisi Hoffman e o ex-ministro Paulo Bernardo, ambos do PT paranaense.

Os candidatos a prefeito e vereador eram identificados, respectivamente, pelas siglas PREF e CAM nas planilhas. Já os que não se encaixavam nessas categorias têm os nomes vinculados às siglas DIVS e BSB.

Há ainda uma lista de políticos qualificados como “históricos”, e que também não disputaram as eleições de 2012. Entre eles estão Sergio Cabral (PMDB), então governador do Rio, e Luiz Fernando Pezão (PMDB), na época vice-governador. Também são citados na lista de “históricos” os deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Jorge Picciani (PMDB-RJ), o vice-governador do Rio Francisco Dornelles (PP) e o senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

Contas. O Estadão Dados comparou os registros das planilhas da Odebrecht relativos à mais recente eleição para prefeito de São Paulo com as prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral. Algumas disparidades foram constatadas.

O prefeito Fernando Haddad (PT), por exemplo, aparece como beneficiário de R$ 3 milhões da Odebrecht nos documentos apreendidos pela Polícia Federal – um dos registros, de R$ 2 milhões, foi escrito à mão, como se fosse uma correção do valor anotado anteriormente. Esses valores, porém, não constam da prestação de contas do candidato ou de seu comitê financeiro. A assessoria do prefeito informou que a doação foi feita por meio da direção nacional do PT (leia texto ao lado).

O tucano José Serra, que disputou o segundo turno com Haddad, teria recebido R$ 3,2 milhões do grupo Odebrecht no primeiro turno, segundo as planilhas do grupo. A prestação de contas do candidato, porém, não detalha esses valores – lista apenas as transferências feitas por seu comitê financeiro, que, por sua vez, recebia recursos da direção nacional do PSDB. / COLABORARAM VALMAR HUPSEL FILHO e GUILHERME DUARTE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.