Planalto vê impeachment enfraquecido

Para governo, acusação torna tese de impedimento de Dilma mais frágil, mas Cunha agora deve aceitar tramitar qualquer pedido

Vera Rosa, Rafael Moraes Moura e Juliana Dal Piva, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2015 | 02h03

O governo avalia que a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), enfraquecerá a tese do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mesmo assim, a percepção do Palácio do Planalto é a de que o peemedebista já se movimenta para dar o troco e deve aceitar a tramitação de qualquer pedido para abreviar o mandato da petista.

BRASÍLIA - Ministros preveem uma "guerra política" nos próximos dias e, em conversas reservadas, dizem que não será fácil tirar Cunha do comando da Câmara. A cúpula do PT está dividida sobre a conveniência de engrossar agora o pedido de afastamento do peemedebista, para não atiçá-lo ainda mais neste momento.

Embora o governo enxergue o calvário de Cunha com alívio, por jogar o principal adversário na berlinda, o comentário de petistas, nos bastidores, é que será preciso "sangue frio e nervos de aço", daqui para a frente.

Dilma seguiu ontem o roteiro de deixar o escândalo de corrupção envolvendo Cunha e o senador Fernando Collor (PTB-AL) - também denunciado na investigação da Operação Lava Jato - bem longe do Planalto. "A Presidência da República e o Executivo não fazem análise a respeito de investigações, de maneira alguma, nem a respeito de outros poderes", afirmou Dilma, após almoço com a chanceler alemã Angela Merkel, no Itamaraty.

No Rio, o ministro da Defesa, Jaques Wagner, disse que a Câmara viverá dias difíceis e admitiu problemas para unir a base, mas evitou comentar o impacto da denúncia contra Cunha sobre o Planalto. "Esse é um problema que complica para a Câmara. O fato de estar denunciado não implica uma obrigação de afastamento. Mas, seguramente, vai ter uma guerra política", comentou.

Recado. Cunha avisou a ministros, ao vice-presidente Michel Temer e a líderes do governo nesta semana que não cairá sozinho. O recado foi entendido como uma ameaça de retaliação de quem vê o Planalto por trás da delação premiada de Júlio Camargo. O lobista acusou Cunha de cobrar propina de US$ 5 milhões num contrato da Petrobrás, mas a Polícia Federal também investiga a participação de petistas no propinoduto da estatal.

Após ser denunciado, Cunha disse em nota que a série de escândalos na Petrobrás foi patrocinada pelo PT e pelo governo. Afirmou que não seria possível "retirar do colo deles e tampouco colocar no colo de quem sempre contestou o PT" as denúncias de corrupção. "O governo da presidenta Dilma acredita na isenção das instituições que apuram as denúncias", disse o ministro Edinho Silva (Comunicação Social), em nota de três linhas.

A ordem no Planalto é não comprar mais briga com Cunha. Apesar do perigo à vista, auxiliares de Dilma afirmam que ele não pode mais emparedar o governo. Recentemente, no entanto, Cunha acelerou a análise de quatro contas de governos anteriores, na tentativa de abrir caminho para a possível votação de um processo de impeachment contra Dilma no caso das pedaladas fiscais, sob exame no Tribunal de Contas da União (TCU), ou de pedidos feitos por deputados da oposição.

Para um ministro próximo de Dilma, a denúncia da Procuradoria-Geral da República, que atribui a Cunha os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, "tira a legitimidade" do peemedebista para levar adiante um pedido de impeachment da presidente da República.

No Senado, o governo conta com o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), para barrar qualquer tentativa de aprovar o afastamento de Dilma. Nos últimos dias, o presidente do Senado ganhou protagonismo no Congresso com a divulgação da "Agenda Brasil", que prega uma série de reformas para retomar o crescimento econômico.

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