Planalto vê Eduardo Leite com potencial para desbancar Moro

Avaliação de ministros de Bolsonaro, adversário de Doria, é a de que governador gaúcho tem chance de crescimento e pode atrair votos do centro e até da direita

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 14h42
Atualizado 11 de fevereiro de 2022 | 22h06

Caro leitor,

A guerra nas fileiras do PSDB fez acender o sinal amarelo no Palácio do Planalto. O diagnóstico dos ministros mais próximos do presidente Jair Bolsonaro é o de que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, hoje no PSDB, tem potencial para aglutinar boa parte da terceira via, batizada de “centro democrático”, e até desbancar o ex-ministro Sérgio Moro (Podemos), se conseguir ser candidato. Sob o argumento de que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), é dono de alta rejeição e não sai do lugar nas pesquisas, o grupo de Leite tenta articular uma dobradinha com a senadora Simone Tebet (MDB) para a disputa de outubro à Presidência.

Se depender dos aliados de Leite, ele encabeçará a chapa e Simone será vice. Nesse cenário, Doria – que venceu as prévias do partido, em novembro – acabaria “cristianizado” e não teria a candidatura homologada na convenção do PSDB, em julho. O movimento cresce no partido porque deputados e até mesmo candidatos a governos estaduais não querem amarrar o seu destino a um desafiante que não se mostra competitivo para enfrentar a polarização entre Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Embora Simone tenha apenas 1% na maioria das pesquisas e Leite nem apareça nesses levantamentos, uma vez que o pré-candidato do PSDB é Doria, a avaliação tanto no Planalto como entre incentivadores do “fogo amigo” traz a perspectiva do potencial de crescimento. “Estamos entusiasmados com a candidatura da Simone. Ela é um nome que tem baixa rejeição e espaço aberto para crescer nas pesquisas eleitorais”, observou o senador José Aníbal (PSDB-SP).

O ultimato dado pela ala do PSDB pró-Leite para que Doria mostre a que veio na campanha é o fim de março. Por “coincidência”, este também foi o prazo estabelecido em conversas entre dirigentes do MDB e um grupo do PSDB para ver quem estará na frente até lá: Leite ou Simone. O acordo informal prevê que o mais bem posicionado terá chance de liderar a chapa, mas ainda há muitas variáveis nesse jogo.

O presidente do União Brasil, deputado Luciano Bivar, conversa com as cúpulas do MDB e do PSDB e acha que é possível “zerar” a partida para formar outro arranjo e desbancar o Centrão no Congresso. A ideia é uma aliança para a corrida presidencial envolvendo o novo União Brasil, partido que resultou da fusão entre o DEM e o PSL, mesmo se não for por meio de uma federação.

O modelo para pôr de pé as federações é considerado difícil de sair do papel porque um casamento assim precisa durar quatro anos e ser reproduzido, nas próximas disputas, em Estados em municípios. No Nordeste, por exemplo, o MDB apoia Lula, e não Simone, Doria ou Leite.  

Isolado e alvo de ataques, Doria procura atrair aliados e acertar uma parceria entre o PSDB e o Cidadania, partido de Roberto Freire, mas até esse noivado passa por turbulências. A nova crise que se abateu sobre a candidatura do PSDB se tornou pública após um jantar, na terça-feira, 8, entre Leite, Aníbal, o senador Tasso Jereissati (CE) e o deputado Aécio Neves (MG), na casa do ex-ministro Pimenta da Veiga, em Brasília. Embora o governador de São Paulo tenha chamado o encontro de “jantar dos derrotados”, o racha no PSDB é profundo e a ala do partido que pretende unir forças para barrar sua candidatura ganha cada vez mais apoio.

É esse movimento que chama a atenção do Planalto. Na avaliação de auxiliares de Bolsonaro, Leite tem “uma estrada” para crescer, muito mais larga, por exemplo, do que a de Moro, o ex-juiz da Lava Jato que enfrenta dificuldades na campanha.

O cálculo político que sustenta esse raciocínio parte da seguinte premissa: o governador do Rio Grande do Sul é bem avaliado, jovem, conta com a simpatia de tucanos importantes e vem abrindo espaço para construir uma candidatura que pode se destacar em um ambiente congestionado. Com essas credenciais, fisgaria eleitores de centro e de direita. Na campanha presidencial de 2018, por exemplo, Leite apoiou Bolsonaro, assim como Doria, que abandonou Geraldo Alckmin – hoje sem partido e provável vice de Lula – e vestiu o figurino do “Bolsodoria”.

Leite também foi convidado para se filiar ao PSD do ex-ministro Gilberto Kassab. Mas não quer sair do PSDB com a imagem de mau perdedor e, ainda por cima, migrar para um partido que pode apoiar Lula. “É sincera a nossa postulação de ter candidato próprio ao Planalto”, disse Kassab, citando nomes como o do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) – prestes a ser o candidato que foi sem nunca ter sido –, e o próprio Leite. “Tem gente que faz pirotecnia para se afirmar internamente. Nós, não”, emendou o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo, numa indireta para Doria.

Os acenos de Kassab na direção de Lula, no entanto, deixam dúvidas no grupo de Leite. Nesta quinta-feira, 10, por exemplo, o ex-ministro gravou uma mensagem exibida na comemoração de aniversário de 42 anos do PT que passou longe de um gesto protocolar. “Todos nós, brasileiros, temos um profundo orgulho do legado que o PT já nos deixou”, afirmou Kassab no vídeo.

A aliados, Leite tem dito que não trabalha com a possibilidade de “desembarque” porque sua luta será travada nas fileiras tucanas. “Estou a 45 dias de deixar o mandato. Não planejo ir para outro partido”, comentou o governador, segundo relato de dois interlocutores. Embora uma ala do PSDB gaúcho também pressione Leite a disputar a reeleição, ele assegura que não entrará nesse páreo.

Integrante da velha guarda do PSDB, o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira avalia que a única chance de a terceira via vingar é “tirando votos de Bolsonaro”. Não vê, porém, futuro na atual postulação de Leite. “Se ele disputou as prévias (do PSDB) e aceitou as regras, deveria se sentir moralmente obrigado a acatar o resultado”, afirmou o ex-ministro, em entrevista ao Estadão.  Aloysio é um dos tucanos históricos que, recentemente, conversou com Lula. “Para derrotar Bolsonaro é preciso retomar diálogo com o PT”, constatou.

Na outra ponta, o ex-ministro Carlos Marun (MDB) ainda vê possibilidade de um acordo na terceira via “menos ideológica”, aquela que não passa por Ciro Gomes (PDT). “Se cada um lançar um candidato, estaremos perdidos. Será a caravana para o precipício”, resumiu Marun, aliado do ex-presidente Michel Temer. E assim caminham os desafiantes desta temporada...

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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