Planalto vai tirar Dilma de vitrine eleitoral para abafar crise do dossiê

Avaliação do governo é que excessiva exposição da ministra foi um erro que atiçou oposição e fogo amigo do PT

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

Com o argumento de que a Casa Civil virou alvo de acirrada disputa política, o governo vai tirar a ministra Dilma Rousseff da vitrine eleitoral até a temperatura da CPI dos Cartões baixar. No Palácio do Planalto, há certeza de que a excessiva exposição da chefe da Casa Civil - favorita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sua própria sucessão, em 2010 - "foi um erro" que provocou não apenas a fúria da oposição como o fogo amigo nas fileiras do PT. O esforço do governo, agora, é para blindar a "mãe do PAC".Dilma manterá sua agenda de viagens para inaugurar obras do Programa de Aceleração do Crescimento, mas vai reduzir sua participação em encontros político-partidários e em reuniões relacionadas a disputas municipais. Cumprindo o cronograma técnico do PAC, ela estará amanhã no Rio, ao lado de Lula. Na sexta, também com o presidente, participará de evento da Petrobrás em Rio Grande (RS) e, depois, seguirá para Porto Alegre. No fim de abril, Dilma irá a Tóquio, onde cobrará reciprocidade do Japão nos negócios com o Brasil.Além desse recuo estratégico, o Planalto deve encontrar alguém para punir exemplarmente no caso do vazamento do dossiê sobre gastos no governo Fernando Henrique (1998-2002). Mas não será Dilma. Por enquanto, a retórica oficial é a de que "não há cabeças a cortar". O desfecho, porém, pode não ser assim: Lula já foi informado de que virá "chumbo grosso" na CPI e o governo quer agir rápido para neutralizar os ataques do PSDB e do DEM. Se a situação piorar, a sindicância interna na Casa Civil terminará em guilhotina.Depois que a CPI aprovou requerimento solicitando informações sobre gastos dos últimos dez anos com cartões corporativos, operações em cheque ou dinheiro vivo, o núcleo do governo vasculhou novamente as despesas. A conclusão foi de que haverá "farto material" de confronto daqui para a frente. Motivo: circulam no Planalto rumores de que mais ministros cometeram "deslizes" com dinheiro público, como pagamento de almoços e jantares. A prática também alvejaria auxiliares de FHC.Embora Lula e colaboradores neguem a existência do dossiê - admitindo apenas a organização de um "banco de dados" -, o governo montou há tempos uma operação para reagir à esperada ofensiva de adversários na CPI dos Cartões (veja quadro ao lado). Desde fevereiro, como revelou o Estado, ministérios e repartições da administração direta foram orientados a revirar gastos com suprimentos de fundos (cartões corporativos e contas tipo B) tanto na gestão Lula como na de FHC.O Planalto sempre quis comparar os dados, na tentativa de mostrar que o governo Lula não cometeu pecados nem caprichou nos gastos excêntricos. "Antes, servia-se vinho importado no Palácio da Alvorada. Hoje, a ordem do presidente é servir vinhos nacionais, e o último que vi lá foi da Casa Valduga", disse um ministro habituado a freqüentar o Alvorada.Conhecida por manter a cabeça fria na crise, Dilma bate na tecla de que todas as acusações, até agora, são uma tentativa de "escandalizar o nada". Na sexta-feira, ela conversou com a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, e tranqüilizou-a. Erenice garante que não pediu a nenhum servidor para "pinçar dados" sobre despesas específicas do governo FHC.Apesar de ter tomado gosto pela política, a chefe da Casa Civil avalia que é hora de se resguardar e deixar a pré-candidatura para 2010 na prateleira. Na prática, tenta se proteger do vendaval provocado pelo dossiê anti-tucano. Sabe que os parlamentares a acusam de não ter jogo de cintura e tem muitos desafetos não só na oposição como na base aliada. Além disso, seus companheiros no PT reclamam de perseguição a petistas no governo. Pior: prometem aumentar o tom da chiadeira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.