Planalto reage indignado a reportagem do "New York Times"

O governo brasileiro reagiu formalmente ontem condenando a reportagem publicada pelo jornal americano The New York Times na qual afirma que um suposto uso excessivo de bebidas alcoólicas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem prejudicado o desempenho de Lula no governo. A nota assinada pelo porta-voz, André Singer, considera a reportagem caluniosa e difamatória. Informado na noite de sábado sobre o teor da matéria, Lula pediu a sua equipe uma análise detalhada do texto de Larry Rohter, correspondente do jornal no Brasil, antes de definir qual o procedimento jurídico vai adotar. "A gente não reage contra esse tipo de coisa com precipitação, com o fígado", disse Lula ao seu secretário particular, Gilberto Carvalho, ao ser comunicado da reportagem."Os hábitos sociais do presidente são moderados e em nada diferem da média dos cidadãos brasileiros. Apenas o preconceito e a falta de ética podem explicar essa tentativa esdrúxula de colocar em dúvida o profundo compromisso com as instituições e a credibilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva", diz a nota.A nota foi a primeira reação formal e foi elaborada após avaliação do governo de que seria prudente uma resposta política rápida, independentemente da questão judicial. Em outra linha de ação, o governo define amanhã as medidas judiciais que vai adotar em uma reunião do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, com o advogado-geral da União, Álvaro Augusto Ribeiro."O artigo do jornal é agressivo e, de jornalismo, não tem nada", disse Bastos. "É algo feito como se fosse para demolir a imagem de uma pessoa", completou. Bastos conversou ontem sobre o assunto com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, que também considerou a reportagem "um insulto feito para ferir e não para informar".Desde sábado à noite, os assessores e os ministros mais ligados a Lula se falaram por telefone para definir a linha de ação sobre o episódio. O embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Abdenur, também foi acionado e, declarando estar indignado, deverá encaminhar um protesto formal ao jornal hoje. "Nós não vamos deixar barato. Não vamos aceitar que calúnia passe por verdade. Isso é calúnia, é inverídico", disse Carvalho. "O autor vai arcar com as responsabilidades sobre o que escreveu", completou Carvalho.O ministro Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação) afirmou que a reportagem causou perplexidade e indignação. "Além de dar um tom de gravidade a problema inexistente, o repórter sustenta a sua matéria de forma leviana no qual o trabalho de apuração, conforme indicado no próprio texto, não condiz com a realidade e tem o lamentável aspecto de estar nas fronteiras da calúnia e da difamação", disse Gushiken.Segundo o ministro, indiretamente, a matéria pode "estar a serviço de posturas de governos centrais que desprezam a soberania alheia, buscam interferir em questões internas e tentam impor visão unilateral sobre questões que, num mundo cada vez mais complexo, exige outra ótica de solução para os conflitos".O presidente do PT, José Genoino, também considera que pode haver interesse político por trás da publicação da matéria, que classificou de "maldosa e preconceituosa". Segundo Genoino, essa publicação pode significar intromissão em assuntos do país. "É uma coisa mentirosa e infundada. É a retomada da política de preconceito e de maldade de um veículo de porte internacional. Não se aceita que esse jornal faça um tipo de comentário como esse", disse. "Lamento que um jornal do porte do New York Times dê espaço para esse tipo de matéria insidiosa e inverídica", completou.O líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, também sustenta "que pode haver sinais de digitais norte-americanas na questão". "É preciso deixar claro que o presidente Lula tem zelado pela soberania nacional. Os interesses brasileiros serão mantidos", completou.Chinaglia enfatizou que a credibilidade da matéria publicada é "zero". "Quem apurou a matéria só ouviu fontes que tem ódio figadal do presidente Lula", afirmou. Entre essas fontes, ele citou o colunista Cláudio Humberto como sendo o "braço direito do ex-presidente Fernando Collor de Mello, e o ex-aliado Leonel Brizola "um dos principais adversários do governo Lula".O líder do governo na Câmara, deputado Professor Luizinho (PT-SP), considerou que o jornal ofendeu o presidente da República ao fazer uma acusação sem ter comprovação. "É fazer o jogo fácil de tentar desqualificar o presidente. O presidente Lula tem trabalhado de forma incansável, o que demonstra todo o seu vigor físico e intelectual.É inaceitável. Execramos qualquer atitude de publicação nesse sentido", reagiu.Nesse episódio, a reação da oposição não foi de ataque ao presidente. O deputado, Rodrigo Maia (RJ), vice-líder do PFL na Câmara, disse que a vida pessoal do presidente da República é problema dele. "Nenhum jornal do Brasil, muito menos de outro país, deve se meter nesse tipo de problema. Acho que eles (americanos) têm problemas demais para ficar tratando do problema dos outros", disse.O líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Custódio Mattos, cobrou do governo Lula uma "resposta cabal" à notícia veiculada pelo jornal "The New York Times". "O governo precisa convencer a opinião pública de que a informação não é verdadeira", disse. Ele disse que o assunto não deve contaminar as discussões na Câmara dos Deputados, pelo menos entre os parlamentares tucanos. "O governo é ruim, mas em respeito à história do presidente daremos um voto de confiança", disse Mattos. Em longo artigo, o jornal The New York Times afirma que Lula "nunca escondeu sua predileção por uma copo de cerveja, uma dose de uísque ou, melhor ainda, um gole de cachaça, a forte bebida brasileira feita com cana de açúcar". Atualmente, no entanto, prossegue o artigo, "alguns brasileiros começam a questionar se a predileção de seu presidente por bebidas fortes está afetando sua performance no cargo".O artigo, intitulado Hábito de beber do líder brasileiro torna-se preocupação nacional, diz que nos últimos meses "o governo de esquerda de Lula foi assolado por uma crise atrás da outra, desde escândalos de corrupção até o fracasso de importantes programas sociais". "O presidente", prossegue, "se manteve longe dos holofotes e deixou o trabalho pesado a cargo de seus assessores. Isto iniciou especulações de que seu aparente pouco envolvimento e passividade possam estar relacionados com seu apetite por álcool". O artigo diz ainda que as especulações sobre os hábitos de bebida do presidente foram alimentadas pelas "inúmeras gafes cometidas em público".

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