AFPPHOTO / EVARISTO SA
AFPPHOTO / EVARISTO SA

Planalto deve exonerar ministros para votar denúncia e quer base 'fidelizada'

Nas contas do governo, a oposição conseguiria angariar no máximo 200 votos no plenário - sendo que são necessários 342 para a aceitação da denúncia de corrupção passiva contra o presidente Michel Temer

Daiene Cardoso e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2017 | 19h40

BRASÍLIA - A base governista estará preparada para uma verdadeira guerra no dia 2 de agosto, data da votação no plenário da Câmara dos Deputados da denúncia por corrupção passiva contra o presidente Michel Temer. Fontes palacianas dizem que a votação será um novo marco na relação entre governo e sua base aliada, que tende a sair menor desse processo, porém mais "fidelizada".

Se houver certeza na véspera de quórum mínimo para abrir a sessão e derrotar o pedido da Procuradoria-Geral da República, ministros com mandato parlamentar serão exonerados para reforçar os votos favoráveis ao governo. Para garantir a votação na volta do recesso, são necessários 342 deputados presentes à sessão, mesmo número exigido por lei para aprovar a autorização de processo contra o presidente da República.

No Planalto, interlocutores do presidente repetem o mantra de que o esforço de busca por votos é da oposição e que a situação do governo é confortável. Nas contas do governo, a oposição conseguiria angariar no máximo 200 votos. "A gente vai entrar armado, com jogo seguro", resumiu um ministro.

Interlocutores contam que o presidente relativiza parlamentares da base que votam contra as reformas trabalhista e previdenciária por convicção, mas que considera "imperdoável" duvidarem de seu caráter. Na avaliação de Temer, deputado favorável à denúncia admite, na prática, que o presidente é suspeito. Por isso, a votação é vista como uma oportunidade de se saber "quem é quem" na base governista e promover um corte dos "traidores" na participação no Executivo, já que o resultado revelará quem realmente tem compromisso com a agenda do governo. A palavra de ordem é não deixar impune o parlamentar que votar a favor da denúncia.

Pesquisa. Mesmo com os parlamentares de volta às bases nos Estados durante o período de recesso, o governo está convencido de que não haverá pressão do eleitorado sobre o voto dos deputados. A confiança do Planalto se sustenta em um levantamento feito nas redes sociais pela Fundação Ulysses Guimarães entre 18 de maio, data em que foi divulgado o conteúdo da delação premiada do empresário Joesley Batista, e 19 de julho. A pesquisa indica que a população não está engajada na campanha "Fora Temer" e que só uma ameaça real à continuidade da Operação Lava Jato levaria multidões às ruas.

No período de monitoramento, o Planalto também acompanhou a reação dos movimentos sociais, em especial o lançamento em 6 de julho do placar de voto dos deputados para a denúncia, organizado pelo Vem Pra Rua. De acordo com o levantamento, 69% dos comentários de internautas em redes sociais falavam em agravamento da crise política com o afastamento de Temer, danos à imagem do País no exterior e apontavam que a maioria não quer mudança na Presidência da República. Para esse grupo, autorizar a denúncia contra Temer dá força ao movimento "Volta Lula". Só 19% dos internautas apoiavam protestos contra Temer.

O acompanhamento indicou que 71% dos comentários apoiando a saída de Temer vinham de internautas alinhados com partidos de esquerda, sendo que desse número 58% seriam de ativistas virtuais e 10% de perfil apartidário. Só 1% dos organizadores de manifestações contra o governo não têm ligação partidária.

Nem o racha no PSDB vem preocupando o Palácio do Planalto. De acordo com o monitoramento, internautas criticaram a possibilidade de desembarque do partido e associaram o movimento a uma ação de alinhamento com o PT. O levantamento indicou que o abandono dos tucanos seria visto pelo eleitorado como um fator prejudicial à economia e o PSDB seria responsabilizado pelo agravamento da situação.

De acordo com o levantamento, 43% dos internautas fizeram comentários exaltando a melhora das condições econômicas em junho e julho deste ano, ante 16% do período entre maio e junho de 2016. Os usuários não alinhados à oposição, apontou o levantamento, acreditam que a deposição de um presidente retardaria a retomada do crescimento econômico e a geração de empregos.

O relatório foi produzido a partir da análise de 899 menções públicas nas redes sociais. A margem de erro é de 4% e o nível de confiança de 95%. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.